domingo, 28 de dezembro de 2014

O Que Significa Principote?

      Passaram-se oito dias desde o fim do solstício e o sol continua a balear-me as sobrancelhas. Acho-te especial e tu achas-me divino. Há crianças pelas ruas da noite e prostitutas educadas e alfabetizadas. Para onde corre o mundo tão depressa, meu amor?
     As dízimas dos impérios terminaram e agora dão-nos a conhecer as novas colónias que subsistem dos antigos países subdesenvolvidos. Quem é que inventou o petróleo senão o Deus que também nos criou?
     Tanta educação, tanta falta dela, e tanta disparidade. Mal consigo olhar-me nos olhos quando estou em frente do espelho. Sabias que foram os egípcios que os inventaram?, porventura para me envergonharem.
     Há o sexo e o desinteresse que mostras por ele quando me beijas o corpo com todo o teu à vontade. Gostei da camisola que me ofereceste no outro dia. Ela fica-te tão gira, meu querido. Mal consigo expressar o quanto te entendo, porque estás sempre a aumentar a voz e a sussurrar todas essas coisas bonitas que sentes por mim - nenhuma delas é repetida, mas, francamente, soam-me todas ao mesmo.
     Caças-te um peiche e eu amote. Escoltei-o até a casa dos teus pais e eles agradeceram-me a tua gentileza. Digo-lhes todos os dias que têm uma filha extraordinária mas, já to disse, eles não conhecem mesmo a filha que têm. Será que também seremos tão ingratos com os nossos rebentos?
Traz-me um café, por favor. Ó, sim, com canela, meu amor. Açúcar amarelo, claro. Sorris-me porquê? Ai queres mimos, queres?
     Tenho este computador frívolo e a vida é tão banal. A civilização precisa de inventar outros meios para que eu te possa amar melhor. Conheço um moço que laureou um veículo qualquer e foi a correr ter com rapariga que amava. Olha, sorte a dele, sorte a dele. No dia em que ganhar algo das raspadinhas do Sá da Bandeira, prometes que vens cá ao norte ter comigo?
     Adoro o Algarve e adoro-te a ti e tenho saudades tuas espalhadas pela casa. Aposto que já fizeste planos para o próximo inverno. És delineadora e não há muitas coisas que eu goste mais em ti. Toma, veste isto que ficas bonito. Vamos ao cinema mais logo. Vou encomendar pizza para o jantar.
     Até a encomendar pizza para o jantar és delicada e deslumbrante.
     O mundo lá fora continua caótico mas ao menos ainda me existes tu. Porque me existes tu? Fácil, meu amorzinho: para caçarte um peiche e tu m'amares.

«jd»

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Portugal II

      Há um local onde desejo morrer; tantos outros onde desejo viver. Há a frescura da praia, o calor do campo, a terapia barulhenta da habitação citadina, a ânsia do silêncio recôndito dos subúrbios: e em nenhum deles me revejo para lá de mim.
      Não há espaço de manobra, de alteração, de projeção e de sonho. Não há mais para além disto: deste forno desmesurado, desta pátria quente mas esquecida. E a quem me conta que o sonho dos antigos seria o mar, convido a procurar na nossa costa a tentação de caçar projetos no horizonte.
      Os velhos ainda sabem o que tem valor e dizem-me muitas vezes que já houve alguém a sonhar algo mais para nós do que nós mesmos. Escritores cantaram que a juventude não sabe o que pode, nem os velhos podem o que sabem. Pensadores pensaram o mesmo. Políticos julgaram-no também.
      Por eles choro enquanto a pátria nos escreve. Entre sons, cadeiras e mesas são juntas, num semicírculo imperfeito. Há anões nas freguesias do interior e gigantes nas florestas, fogo desempenhado e oxigénio a encaixar o fundo de desemprego. Há o oceano com lágrimas de autor, peixes conservadores e pequenas encostas desapoiadas. Há vilas esquecidas e idosos com bolsos cujas traças desbastaram não só o tempo, como também o espaço neles preenchido. Há community holes, rascacielos interraciales e penhascos de les gens riches et illustres.
      Há mandamentos, paradoxos, convenções sociais, imigrantes nativos. Há gente letrada, gente empenhada, gente que rouba e gente outrora roubada. Há manifestos, aclamações, saudades. Há o socialismo do dinheiro e o capitalismo de quem enche a terra. Há uma mixórdia totalitária e o total confundido com a solitária.
      Eu choro enquanto a pátria nos escreve, mas há sempre um violino e há sempre um telhado onde ele pode ser assobiado. Há sempre um público - algo magnífico, algo tão magnífico - que nos força a bater palmas pelo nosso próprio teatro. Há cenas e capítulos, tantos séculos e fronteiras tão antigas, mas eu choro enquanto a pátria nos escreve.
      Somos a geração do ontem, mas tão presentemente focados no futuro. Exigem-nos inovação, dedicação ao depois, posterização de um marco de ansiedade nas páginas em branco do amanhã, inversão do anteceder, atualização do sussurro do agora. Empenho não falta, reconheço-o. Dedicamo-nos somente na idealização, da projeção do protesto, e não somos capazes de erigir do suco de vácuo.
      E que vácuo que para aqui anda! E que falta de orientação, que falta de sensibilidade acerca da agressão de preconceitos: há que os agredir com porrada da velha. Partir narizes, partir pernas, partir braços, partir clavículas, a todos os que nos impedem de avançarmos mais - se queremos progredir, primeiro temos de não pedir e simplesmente partir; destruir.
      Há sempre presente uma tonalidade de devastação que antecede uma obra. Ao artista pede-se que desbloqueie rios, mares, que ligue fronteiras, locais invisuais, tempos desconectados.
      Do verdadeiro renascimento vem sempre o verdadeiro quebramento. Há que quebrar, torcer, para vencer: permitam-mo, por favor, porque há um local onde desejo morrer; tantos outros onde desejo viver: e em todos eles vislumbro Portugal.

«jd»

Dando seguimento à diretriz
composta no Pseudomunduo:

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Minha Beatitude é de Domínio Público

Os cabelos dela,
cor de trigo da sua imagem,
o tom selvagem do sabor
perfumado e do aroma
encarnado e refinado
que viva imana a cada lento passo
que capto com a minha objetiva.

Há mais vida lá fora: uma
tímida passagem de nível, filas
e filas de carros,
os transportes públicos
tão amigos do ambiente,
árvores e flores e plantas com insónias
unicoloridas com o amor que todos nós
merecemos.

Mas são os cabelos dela,
são quase sempre os cabelos dela,
pintou-os no outro dia,
reparei, claro, quando
entrou no autocarro e todos a viram
e todos a amaram quase tanto quanto eu
e eu ali afogado,
tão por ela catalogada e
insanamente amado.

«jd»

sábado, 29 de novembro de 2014

Estrídulo, Moteis, Qualquer Coisa e Nudez

      Há ruído na cidade e eu não o ouço - faço-me despercebido das entranhas estranhamente angelicais que banham o sítio onde moro. Ninguém é puro e eu sou: sou só; nada - jamais até - puro: apenas sou. Eu.
      Há barulho por todo o lado e no motel jaz o silêncio. Encontramo-nos lá, como de costume, e brindámos a nós mesmos pela cumplicidade de nos encontrarmos nas nossas agendas. É magnífico o não-planear e eu sei, muito provavelmente melhor que ninguém, que não existe coisa neste mundo que te excite mais do que a rotina do nosso encontro casual. Finjo-me, muitas vezes, um estranho; e tu finges-te, muitas vezes, mentirosa. Mas o amor é desta matéria feito e não há ninguém neste mundo que me faça percebe-lo de forma desigual.
      Há tanto, tanto, alarde na cidade.
      Já vimos o Clube dos Poetas Mortos milhares de vezes e até o Pulp Fiction, que deixamos sempre a meio, está sempre nos nossos eleitos. Somos um só. A música que tu ouves não vale nada e é barulho. És como aquela miúda que entrou no autocarro no outro dia e que comprou o agente único depois de validar o andante. Não sei porque fazes as coisas que fazes mas é assim mesmo que eu te conheço desde sempre.
      Ontem cruzei-me com uma moça que era linda de morrer. Imaginei-me a seduzi-la, a convidá-la a sair, quiçá até a ir beber um café à Baixa, a deixar um papelito com o meu contacto na mão dela e sair a correr do metro como se fosse cobardolas. Não penses que digo as coisas que digo com o intuito de te provocar ciúmes. É que a ti é sempre fácil convidar-te para um café. E já és linda de morrer.
      O meu diretor de curso deixou-me tantos projetos pendentes e tu és o maior deles todos.
      Soube, por alguém que não me lembro quem, que tu me amavas. Para a próxima diz-mo na cara, se tiveres tomates, ó puta.
      Delicio-me com essa tua forma de seres feminina. Ainda estou para encontrar algo nesta vida que seja tão saboroso como ver uma foto tua toda nua. Não há nudez nem corpo nenhum como o teu; nem há desejo como o meu, também.
      Na semana passada li um livro qualquer durante a aula de Conteúdos Experimentais para qualquer coisa que dizia que as mulheres ferem os homens para qualquer coisa porque gostam de se sentir poderosas porque têm um síndrome de qualquer coisa. E, o mais curioso, é que não faço a mínima ideia de quem o escreveu, mas achei-o um gajo inteligente.
      Ouço barulho, toda esta confusão em mim, por todo o lado. Ouço o barulho de não estares cá para me silenciar e talvez este barulho nem seja da cidade, mas seja meu. A cidade até que é bem comportada. Ela ainda chora pela tua ida e eu já regressei ao motel a ver se te via. Há tanto, tanto, alarde na cidade e eu não faço a mínima de onde tu estás. Não fazes parte de nada disto, mas fazes parte de tudo em mim.
      E este papelito, deixo-te na mão.


      P.S. Moça, és linda de morrer.

«jd»

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ponha Na Minha Conta, Por Favor

Agendei uma consulta para amanhã,
a tua mãe só tem de aparecer lá
a horas decentes,
diz-lhe que vá em paz,
eu posso ficar com o teu pai
e talvez almoce com ele
depois do trabalho.

Agendei uma reunião para amanhã,
tem sido impossível lidar com
o meu chefe,
papeis e documentos e procedimentos
que aborrecem toda a equipa,
mas não te vou maçar com isto,
que já passa da minha
hora do trabalho.

Agendei uma jantarada para amanhã,
espero que a malta apareça
n'O Vitorino a horas decentes,
sabes que adoro os nossos amigos,
mas não tenho tempo para lidar com atrasos
porque tenho de me deitar cedo
e ainda vou preparar uma reunião
lá para o trabalho.

A minha agenda para amanhã está pesadíssima,
como sugeres que tenha tempo
para ti?, almoçar?, nem pensar,
já combinei com o teu pai,
e os papeis e documentos e procedimentos
aborrecem toda a equipa,
mas a mim também.

Estamos agora com a malta
diz lá que não é formidável
depois de todos estes anos...!,
mas eles só querem é vinho e festa,
hão de ser sempre a mesma coisa
escumalha divertida e bem disposta,
esquecem-se é que eu amanhã
tenho de trabalhar.

Agendei-te,
conforme tanto querias:
confessa lá:
porque não esperaste que eu
saísse do trabalho?

«jd»

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Luto Ocioso

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, estava tão contigo e estava tão mal contigo, não sei porque hesitei tanto em pôr-te fora de casa porque na minha cabeça esta casa já nem era tua.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, está a dar a bola e estes nabos não merecem todo o dinheiro que ganham, mas não me apetecia ouvir a merda da política e a merda dos dramas da nossa pirâmide social, que até nem me deprimem mas fazem-me lembrar da merda de ti.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, e bebo bem mais do que uma cerveja. Elas amontoam-se em cima da mesita da sala e não está ninguém para as tirar dali, a casa está desarrumada e eu recuso-me solenemente a fazer tarefas domésticas, que isso lembra-me de ti e eu estou fartinho de pensar em ti.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, e os putos vêm cá ao fim de semana e querem ir andar de bicicleta, e eu tenho lá pachorra para ser bom pai, não o sou porque isso faz-me lembrar de ti, que és a clássica mãe perfeita para qualquer miúdo.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão tão bem sozinho, e perco o emprego, evidentemente. O chefe fartou-se de ligar, de deixar mensagens, e-mails, até enviou um gajo qualquer cá a casa para ver se eu ainda estava vivo. Estou-me a cagar para aquele cabrão, quero lá saber do trabalho, que trabalhar e ser esforçado recorda-me de ti e eu, não sei se já referi, estou tão - tão - tão cansado de me lembrar de ti.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, mas vem cá a casa a família e põem-me a mão nas costas e forçam-me a chorar, que dizem que ajuda a limpar os males da alma, mas eu não choro que isso traz-me logo uma imagem tua à cabeça e para mim morreste-me: não quero pensar mais em ti.

    Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho. Tu foste-te e eu devo ter ido contigo. Não sei o que ando a fazer e só te queria aqui de novo: a vermos o nosso FC Porto, a bebermos as nossas minis fresquinhas, a passearmos à beira mar com os nossos filhos, estão tão crescidos, já viste?, até a ir-te buscar ao trabalho depois de um dia de trabalho intenso, que sabia tão bem, lembras-te?; mas tenho a nossa família em casa, já todos te choraram e os miúdos ainda nem entenderam muito bem quando é que voltas, falta-me chorar-te e levantar-me no sofá para te ter nos nossos filhos, estão tão crescidos, já viste?

   Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem a chorar sozinho, e até eu sou uma criança e não entendo como é que morreste não só para mim como para todos. Mas amo-te. Amo-te e não te sei chorar: ensinaste-me tanta coisa e não me ensinaste a chorar, por isso preguiço-me na minha vida e a culpa, a ser de alguém, é da tua morte.

«jd»

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Divortium Aquarum

     Podes ter muitas pessoas mas eu tenho-te a ti.
     Podes ter muitas coisas - as duas casas, esse emprego de sonho, um advogado xispêteó, um património do caralho, o tempo todo do teu lado, o velho Adão, os nossos miúdos, até o lado bom da minha mãe - mas eu tenho-te a ti.
     E, anota aí se quiseres, eu sou o maior quando te tenho no meu tribunal.
     Tens muitas pessoas e podes ter muitas delas mas eu tenho-te inteira, embora barreira, para mim; podes recolher votos aqui e ali mas eu não preciso dos números alheios, nem de fortunas infortúnias para te ser o ser sincero - doce, condescendente, amarelo - que te ama.
     Há dias, como o de hoje - e como o de ontem -, em que o que me acorda não és tu, em que o fungo permanente e despertador não és tu, em que a razão e a desrazão e a contra-argumentação não és tu, e nestes dias tento inventar e conjeturar mais motivos para viver os dias que me surgem a seguir.
     Tenho-te sempre a ti, despida de eufemismos, largada de escárnios - maldizeres?, também os tens -, no verdadeiro sentido exótico e erótico que é ter-te, toda feminina e toda independente, toda para mim.
     Toda: de mim: para mim.
     Quando as palavras não dizem o que somos e nos ficamos pelo ser dos outros, pelo pensar dos outros, não há paixão desses outros que se mantenha erguida de pé. Mas, amor, daqui fica-me a fé, o senão da ereção, mas o amor é mais que o sexo dos teus globos oculares - que me tanto me sujeitam à aversão, como depois são predadores com apenas um ou dois pueris olhares.
     O êxtase é estar-te por cima e, mesmo assim, ter de devorar-me por debaixo e tão sozinho. És má e eu amo-te. Não há tese que sustente esta minha loucura, nem médicos ou enfermeiros ou especialistas que comprovem a validez da minha demência, mas quero que saibas que te sei e que te amo, meu amor. Meu amor.
     Meu amor, um dia destes até vais embora e eu vou ficar no computador a recarregar a página do não sei das contas à espera de um mail teu - Deus me livre de ficar sem Internet, que neste caso até é o meu pão do dia-a-dia, a minha sobrevivência, e Deus me livre de ficar também sem ti, meu amor.
     Na semana passada o teu advogado foi implacável e fiquei sem nada - nem os miúdos vou poder ver: que má; e eu amo-te tanto - mas embora tenha ficado sem nada ainda te tenho a ti. Podes ter muitas pessoas mas eu tenho-te a ti.
     Foi ontem que casamos e foi ontem que descasamos: é isto que alguém que te ama pensa quando lhe fazes o que lhe fazes. És má e és tão boa a ser má, sabias? Isso é tão feio, nunca ninguém te disse? És feia e és tão bonita a seres feia. És má e enches o peito de ar, que eu bem noto, quando te olho de frente e te digo que és o que és: uma gaja má. Mas há uma certa delicadeza, um certo toque de beleza, na tua forma de seres e desseres minha, de um momento para o outro. Alimento a fervura do meu destino com a ração dessa tua forma estranha de seres minha - nunca compreendi bem porque és tão insensata, sempre me disseste que ou eu te tinha assim, ou não te tinha de todo, e pronto, eu fui acatando.
     Já não vejo os miúdos há quase um mês e estou ansioso por te deitar de novo na minha cama. Adoro-os tanto. O mais novo está crescido - está a ficar um rapagão, não está? - e eu quero tocar-te. Só Deus sabe o quanto te quero tocar. O mais velho está na idade de ir para o futebol: vê lá se o inscreves no sport perto de casa dos teus pais para ele ir dando uns chutos à bola; quero encostar-te ao espelho e fazer-te embacia-lo. Gosto da forma como costumavas mudar de assuntos para levar a água ao teu moinho e, não sei se te apercebeste meu amor, dei por mim a fazê-lo agora mesmo.
     Dizes-me que tens muitas pessoas, mas eu tenho-te a ti. Podes ter muita gente a proteger-te, a aconselhar-te a levares esta loucura para a frente, mas eu tenho-te a ti. E tu podes ter muita gente, mas não tens ninguém, e eu tenho-te a ti, meu amor. Estamos ambos sós, ambos ambiguamente sós mas, meu amor, há sempre algo mais a tirar de nós quando mesmo numa multidão nos fazemos sós.
    Aceito levar isto para a frente, mas com uma condição: ama-me durante 180 anos, ou mais. Ama-me pelos olhos dos filhos, pelos netos, e pelos filhos dos netos. Ama-me como se não houvesse corpos para amar. Ama-me como se não houvesse almas para amar. Ama-me na memória, na fotografia queimada, na anedota esquecida, na receita perdida nas gerações. Ama-me nas guerras, nos tempos de fome, nas ascenções e nos apertos, nos consumismos e nas retenções, na miséria e no luxo, na cobardia e no heroísmo. Ama-me. Ama-me quando vires que já não tens espaço para amar mais, e ama-me quando achares que eu já não tenho espaço para te amar mais. Ama-me e espera-me e dorme-me e liberta-me, amando. E ama-me quando eu acordar, e quando eu me for, e quando eu me vier, quando eu te fizer suar. E ama-me. E ama-me também quando formos cúmplices, quando formos púdicos, quando formos estrangeiros, ou nacionalistas. Ama-me na praia, no chão, no ar, na sala de operações. Ama-me na cirugia, no templo, no tempo, no espaço, na ordem, no progresso, na ourivesaria, no terraço, na casa dos padrinhos. Ama-me sempre que eu tiver fome, sempre que mostrar a aliança com orgulho, sempre que a esconder dos teus pais. Casa-te comigo em segredo e ama-me em segredo. E ama-me publicamente. Ama-me durante 180 anos, ou mais.
     Ela cumpriu. E divorciaram-se.

«jd»

domingo, 31 de agosto de 2014

Ainda Só Não Temos Os Seiscentos

Já temos o tempo do nosso lado;
ainda só não vemos o espaço, meu amor.

Calçada Portuguesa - coração.
Falam-nos fadados nas estrelas,
patenteados na calçada?, porventura
estaremos também,
ou então seremos escapadelas de nós,
hábitos cheios e desabitados
na rotina de estarmos sós.

Já temos o tempo do nosso lado;
ainda só não vemos o espaço,
em ferro e aço haveríamos
de os fundir um dia,
e prometo-te que seria com toda
a acalmia do mundo.

Desfrutaríamos do céu,
do toque agreste do chão, senão
seria doutra forma qualquer,
até mesmo na ausência amarga,
essência nossa tão reereada,
de nos fantasiarmos mais próximos
do que do ponto sábio tonto em que
feitos nos erigimos nascidos do nada.

Já temos o tempo do nosso lado;
ainda só não temos os seiscentos, meu amor.

«jd»

sábado, 16 de agosto de 2014

Horizontar Podia Ser Um Verbo

Horizonte é um destino
para o qual nos nadamos,
um espaço que em extensão
nos levitamos;
futuro limitado e imprevisível,
contam-nos os velhos
de ontem,
uma linha que limita o olhar,
crêem-no os céticos
de amanhã,
mas sem dúvida uma paisagem
que nos aumenta o sonho
de hoje.

Horizontar podia ainda ser um verbo
e bem que podia ser daqueles que é
pleno de satisfação:
de emoção?, também.

Proponho que
até ao dia, até esse dia,
horizontaremos na vertical
da espinha dorsal do nosso amor e,
quer estejamos deitados ou não,
vejamos no horizonte cada singular linha
de um nosso amor
próspero mas agasalhado.

E, atrás dessa linha que separa
o que já se vê
daquilo que ainda não se conhece,
sejamos nossos,
sempre um do outro,
mas nunca jamais outro do um.
Sabemos que não nos somos primeiros,
mas queira Deus que nos sejamos últimos.

Deus horizonta melhor do que ninguém
e patrocina os auspícios tenebrosos
daqueles que se sujeitam pouco ao erro,
mas se for para correr o risco
do anónimo e profano
que seja contigo,
meu amor,
porque há uma linha a separar o bom
do excecional,
e nós merecemos horizontar-nos
tanto
ou mais do que ninguém.

«jd»

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Adeus Pino Leve e Cromático

Hajam corações partidos, sobrolhos,
chocalhos, peças avariadas
e tu, meu amor,
para que o meu equilíbrio
não fique comprometido.

Entretido, faço o que faço para não ser
assertivo a toda a hora.
Faço o que faço para,
pelo menos por agora
- e sob o fado incisivo e dramático -,
deixar de ser um pino leve e
cromático, informal, em desatino.

Na balança meço o tempo,
peso o espaço e amplio a alma:
infrutífera tentativa para me
lapidar a mim mesmo:
até nem era mal pensado. Que dizes?

Os outros desgastam-me, mas não tu, meu amor,
que me temperas, que me aprimoras,
que me fazes um homem melhor;
até um devoto pai futuro, porventura;
trabalhador exemplar, se as coisas melhorarem;
e a esperança de me incrementar como humano:
até nem era mal pensado. Que dizes?

Diz-me qualquer coisa, por favor,
e pode ser mesmo qualquer coisa,
porque sou estou vou receptivo
a um dia melhor,
ou a um dia qualquer
desde que não seja pior que o de ontem.

Hajam corações partidos, sobrolhos,
chocalhos, peças avariadas
mas essencialmente tu, meu amor,
para que o meu equilíbrio
nunca fique comprometido.

«jd»

sábado, 2 de agosto de 2014

"Inês"

"Todo o poeta ou escultor,
todo o ator ou escritor,
sonha um dia amar assim:
sonha ter alguém para si.

Todo o cantor, compositor,
largava tudo por este amor:
por um dia amar assim,
por um beijo num banco de jardim.

Mas o amor não é para qualquer um:
ser artista não é uma vantagem.
Os artistas amam um dia
vendo amor apenas de passagem.

Quando o poeta sentir a dor
da mais antiga história de amor,
só então vai entender
porque Inês amou até morrer.

Mas o amor não é para qualquer um:
ser artista não é uma vantagem.
Os artistas amam um dia
vendo amor apenas de passagem.

Vendo amor apenas de passagem."

Poema e música de Luísa Sobral,
interpretado em conjunto com António Zambujo.

domingo, 20 de julho de 2014

O Templo Onde Os Amantes Se Comem, Banham, Dormem, Curam, Correm, Batizam, Estudam, Lêem, Socorrem, Gargalham, Alimentam E Filosofam

     Esperei a vida toda por alguém que não me fizesse esperar; esperei a vida toda por alguém que me dissesse que toda a minha vida é tão curta para um tão grande amor; esperei, enfim, por tanta coisa e sinto que nunca esperei por ti, meu amor, porque me apareceste assim - e eu tão desprevenido, e tu tão tonta, e eu, que costumo ser tão precavido nestas coisas e, ainda assim, deixei-me apaixonar desta forma tão ridiculamente fácil.
     Se o nosso apaixonar não tivesse sido concebido desta forma tão ridiculamente fácil, seria só ridículo. E o coração também, porque quem insiste não sente e quem sente deixa de forçar o sentir, porque ele, esse sentir, sai quem nem um projétil e é tão difícil pará-lo quando já vai lançado: não é, meu amor?
     Hás-de morrer primeiro que eu, Deus assim queira, porque a minha mãe sempre me ensinou a ser cavalheiro e sinceramente não sei como me chorarias sem te morreres de mim aos poucos. Já pensei em desejar-te morta, mas só por uns momentos, por saber das tuas fragilidades - sabes que suportaria melhor a tua perda que tu a minha, mas olha que eu sofria muito e os miúdos que vamos ter precisam de uma boa e presente mãe que vais ser.
     Não quero que morras depois de me teres dado todas as ferramentas que preciso para ser feliz: falo, evidentemente, dos teus atributos físicos. Não sou lá muito de meias palavras e proíbo-te, agora mesmo, de te entregares a outro Deus que não eu mesmo. Esperei a vida toda por alguém igualmente imortal e nem gosto de te pensar frágil e humana porque isso faz-me doer tudo. Eu adoro doer-me; mas livra-me desse encarceramento divinal, meu amor.
     Nunca me esqueci da nossa primeira noite juntos nem do nosso primeiro café e cigarro: esperei a vida toda por esse café e esperei a vida toda por esse cigarro, que nos soube tão bem, lembras-te? Dividimos o cigarro e depois pusemos mãos à obra e só paramos quando começamos a dividir uma casa. A casa só tinha uma cama, um caderno e um lápis mas nós fomos tão felizes assim, não fomos? Eu dormia e tu escrevias nas minhas costas a paixão que me tinhas. Acabamos por fazer um investimento brutal quando compramos uma grotesca caneta bic, porque o pobre do lápis não era um suficiente enunciado de uma vida longa e próspera, pois não?, meu amor?
     Comi-te na cama, banhei-te na cama, dormi-te na cama, curei-te na cama, corri-te na cama, batizei-te na cama, estudei-te na cama, li-te na cama, socorri-te na cama, gargalhei-te na cama, alimentei-te na cama e filosofei-te na cama.
     Aquela cama foi um templo e nós fomos os deuses lá do sítio.
     Tenho saudades da cama e tenho saudades tuas, meu amor. Quando voltas?, olha que se tiver de esperar uma vida toda, eu espero.

«jd»

quarta-feira, 16 de julho de 2014

É Mais Profundo do Que Parece Ser à Partida Ponto Pê Tê

Oxalá todos os dias
fossem dias de ontem
ou que o amanhã
seja produtivo demais
por forma a que ninguém nos convide
a abandonar a sala oval
que a vida nos é.

Haja sofrimento,
sentimento também,
mas se, ainda assim, não formos quem
desejam que sejamos,
que nos tornemos, então,
muito melhores ainda.

Oxalá todos os dias
fossem dias de ontem
porque ontem divertir-me-ei bastante
e amanhã foi igualmente engraçado.

Sorrio: sempre sempre, ó sempre.
E tu acompanhas-me nessa jornada
para que hajam sempre mãos dadas
por onde quer que a gente se passeie.

Boca a boca,
céu no chão onde levitamos,
chão do céu em que dormimos
e uma tanta paixoneta à mistura.

«jd»

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Terceira Parte da Mutilação Formal

     Conheci-te hoje e - já nem me interessa se acreditas ou não - ontem já te amava.

     Decidi tornar-me um sofredor e, quando finalmente consegui aprender a sê-lo, quando desvendei o mistério do que era a dor e porque que ela custava tanto a toda a gente, tu ficaste exposta - depois de entenderes que eu não era um monstro, que sofria como um animal, fizeste-me apaixonar por ti e há quem diga que foi aí que começou a verdadeira agonia.
     Se eu sabia que a dor que os poetas tanto cantam era isto, teria permanecido um ignóbil servo da imortalidade.
     "Já te roguei tantas pragas que já nem conto pelos dedos as vezes que fizemos amor": é a tua melhor frase e acredita que também a uso, frequentemente, nas tuas costas.
     Um imortal não sabe o que é o amor, o sexo - ou aquela coisa que nós andamos fazer -, porque nunca experimentou a náusea de viver com prudência:
     é que o amor - assim como o sexo - é um machado; e a vida nada mais é do que um punho por ele aberto e mutilado.

«jd»

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Segunda Parte da Mutilação Formal

     Conheci-te hoje e ontem já te amava, e doía.
     E venha essa dor, porque até hoje ainda não tive experiências nesse campo. E tudo o que quero é acampar onde me seja prometido o sofrimento - haja um monte dele à minha espera. E tu também, conhecida.

     A imunidade tornou-se aborrecida quando te conheci porque me impedia de te descobrir verdadeiramente. Eu era imune: à dor, à sabotagem de emoções, à permuta de carinhos. Essa imunidade, que me tornava imortal e impenetrável, punha-te longe daquilo que eu de ti mais queria.

     O conhecimento nasce com a leitura da obra ou com a sua realização?
     Apercebi-me, ao fim de algum tempo, que eras mais do que eu poderia ver. A minha inflexibilidade, o tamanho do meu ego, a minha incapacidade de sofrer consequências, afastara-te de mim. E eu nunca teria sido capaz de chegar a ti se não me tivesse apaixonado tanto pelo meu vicio de te querer saber sempre mais.

«jd»

sábado, 5 de julho de 2014

Primeira Parte da Mutilação Formal

     Conheci-te hoje e ontem já te amava.

     Bem que podia ser desta forma que todas as histórias de amor deviam começar. Há quem acredite no amor e em Deus e mesmo assim não seja nada de mais. Eu não sou nada de mais - tenho o amor do meu lado e Deus a tentar-me provar que tem pernas para andar - mas não consigo superar aquilo que até agora tem sido o meu único desígnio: ter-te.

     Há quem tenha pouco e tenha tudo o que precisa; há quem tenha tudo e tudo não tenha o que precisa; eu tenho tudo o que preciso. Tenho-te a ti, pois claro, até nos momentos solitários em que não há aparente necessidade de te ter, só a certeza de um amor imune ao desconectado. Há quem diga que o amor é uma dependência constante, uma droga razoável, simétrica, pactual; pois eu digo que o amor é nada: e é sabendo que o amor é nada que nada mais me importa do que ter o teu nada, amor.

     «jd»

sábado, 28 de junho de 2014

Poema Pendente

As pessoas, gentes de dentes arregaçados,
não entendem o que é ser-se
deste modo destemido,
quando tudo o que se tem
são pontos nadas
prontos a perderem-se.
Tudo o que, mudo, me és
são factos a perderem-se,
apostas a perderem-se,
dinheiros a perderem-se,
e, no entanto, nunca te amei
tão vernaculamente,
porém jamais intervaladamente,
como naquela fugaz memória
em que adultos nos sonhei.

Ser é mais quando menos de tem
e eu triste, se de mim te riste,
por me teres a noventa porcento,
ou a cem.
Exausto, porventura fausto,
mas quanto mais te possuo,
mais de nós nada concluo,
porque quanto mais nos damos,
mais de nós existe para dar.

«jd»

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Deserção

Rastejo-te como quem ama,
como quem ama quem te voa.

(Tenho as unhas ruídas,
a cara morrer, as
pernas moídas e a merda
da Internet não dá:
e, se isto não é amar,
então não existe amor
que te possa doar.

De que me serve ser coerente
se insistes em continuar viva para mim?

Há aventuras no pergaminho
e cor no deserto da visão;
papeis queimados:
já só pelo chão desmaiados.

Preciso de ti para que a tristeza
não encontre no Google.
Existem motores de busca e depois
existes tu.

Dizem-nos inúteis, mas eu sei
que amanhã vamos continuar apaixonados.)

Se não for para te sugar
onde haverá amar que não me doa?

«jd»

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Clepsidra

    Não tenho escrito.
    O que é a vida se não se escreve? O que é, ou quem é, quem não escreve? Os teus pais diziam que é preciso ser-se muito insensato para vivermos desta forma - eu não sei o que eles queriam dizer com aquilo, mas também não importa porque a mim basta-me que a frase se enquadre nesta minha dor em particular. E na tua também, particularmente.
    Não tenho escrito e não sei o que é escrever quando o tento fazer. Não sei saber o que é a boa leitura e só Deus sabe o que é tentar dar valor a um escritor quando só se pensa anarquicamente na lógica da nossa obra. Quando a nossa escrita fica um caco, jamais haverá outra boa leitura que o remende.
    "É o tempo", dizem.
    Para que serve a clepsidra, senão para medir o tamanho do nosso amor?
    Se o tempo me desse tudo, já te teria trazido de volta para mim. Se o tempo fosse o D. Afonso Henriques cá do sítio, já teria dado uma coça à tua mãe para te trazer de volta para mim. O tempo não é herói, o tempo é o cabrão que te tem longe de mim. E longe vai o tempo em que te tive perto de mim.
    Não é a distância que encurta quando me aproximo de ti, porque em nós a distância mede-se em tempo. "É o tempo", diz quem sabe, que nos aproxima; é o tempo que nos mutila, também; mas nós sabíamos onde nos estávamos a meter quando nos decidimos a meter com ele.
    Não tenho escrito e não faço a mais pálida - desfalecida - ideia do que é a vida quando não se escreve. Também não sei o que é a vida quando não te tenho onde o tempo nos tem, mas hei-de descobrir quando esse tempo acabar.
    Já pus a ampulheta a funcionar e agora só espero pelo asilo da tua companhia. É amanhã?, espero que sim. Traz as tuas melhores roupas e uma muda extra, porque vamos cingir-nos ao amar.
    Quero imigrar para dentro de ti e sei que queres o mesmo, porque me dizes todos os dias que eu sou a tua salvação. O que é uma salvação quando não serve para matar?, o que é o tempo, ou para que serve o tempo, quando não é para se matar?
    Pode parecer-te arrojado, mas para mim até podia ser rotineiro. Sim: bora matar o tempo. Dizem.

«jd»

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Quando Te Tenho Nua Para Mim

     No dia em que explicarem o que nos juntou, não há Teoria científica que se mantenha inalienável.

     Foram os minutos em que não nos vimos que fizeram as horas em que nos despimos: eis uma forma porreira de começar um livro. Se isto fosse um livro, o primeiro capítulo falaria disso mesmo: das vezes em que nos despimos de pensamentos e encarnamos o olhar um do outro.
     O sexo sabe a pouco quando te tenho nua para mim.
     "As tuas roupas pesam tanto no teu corpo."
     "Não tanto como o amor que te tenho pesa no meu."
     E fizemo-nos crianças quando nos conversámos como os adultos se falam. E aí brincámos com os pensamentos um do outro: eu mostrei-te os filmes de que gostava; tu mostraste-me as músicas que ouvias.
     O sexo sabe a pouco quando te tenho nua para mim.
     Foi o casamento de dois melros que nunca haviam assobiado antes. A mente, que não mente, e a liberdade, de velha idade: a flexão de tudo o que foi uma paixoneta. Tudo se esvai quando te discurso nos meus sonhos. Noturnos, perversos; ou não: és-me perfeita em todos eles.
     Hoje o sexo sabe-me a cancelado, a negado, a nada, e tenho-te nua só para mim. Há tantas coisas que te posso fazer quando estás nua: porquê somente amar-te?

«jd»

sábado, 24 de maio de 2014

"Insaciável"

    "Tenho sede dos teus lábios, meu amor: nem imaginas a falta que me fazem. O momento em que os deixei foi o momento mais sombrio que já vivi. O momento que me separou deles – e de ti, meu amor – iniciou as saudades que agora sinto. Não percebo porque dizem que sentir saudades é saudável. Ter saudades dos teus lábios – e de ti, meu amor – é o veneno que me mata aos poucos.
     Tenho fome de ti, meu amor. Mas isso já é outra conversa. Ainda ouço a tua respiração junto ao meu ouvido – sim: sei que já passaram meses, mas ainda a ouço. Tenho fome de ti, meu amor, e das respirações que se encontraram e se completaram num momento de puro amor.
     O amor foi a melhor invenção de sempre. Quem o inventou decerto não sabia a obra-prima que estava a fazer. As obras-primas não são fruto da consciência, mas sim de uma pura demência. Quem inventou o amor é, decerto, um demente. Um demente feliz. Um génio. E eu amo-te, meu amor.

     Passaram-se meses e eu continuo a amar-te (confesso que um pouco mais) como na última vez que os meus lábios se encontraram com os teus. Tenho sede dos teus lábios, meu amor. E tenho fome de ti, mas isso já é outra conversa.
     Estás longe, mas nada me dá mais prazer e, ao mesmo tempo, dor do que imaginar-te aqui comigo. Gosto de reproduzir, em mim, as imagens que tenho de nós. Que prazer, que dor! A vida é um paradoxo, não é meu amor? A distância foi a pior invenção de sempre. Quem a inventou não sabia o atentado à felicidade que estava a fazer. Quem inventou a distância que nos separa – e que nos une cada vez mais – é um infeliz. Um falhado infeliz. A distância faz-me ter sede dos teus lábios. A distância faz-me ter fome de ti, mas isso já é outra conversa.
     Imaginar-te comigo aqui é pensar em ti, e pensar em ti é o meu maior prazer. Nada me dá mais prazer do que pensar em ti. E desculpa-me a ousadia, mas tenho mais prazer a pensar em ti do que com todos os orgasmos que me proporcionas. Pensar em ti faz-me ter sede dos teus lábios. Pensar em ti faz-me ter fome de ti, mas isso já é outra conversa.

      Mais uma vez escrevi para ti. Não me interessa escrever se não escrever para ti. No dia em que deixar de escrever para ti considera que morri. Escrever só vale a pena se for para ti - sim: para ti, meu amor. Escrever para ti faz-me ter sede dos teus lábios. Escrever para ti faz-me ter fome tua, mas isso já é outra conversa."

«A.S.»

domingo, 18 de maio de 2014

Big Guy

     "Chupem-se uns aos outros: eis o que um Deus de verdade deveria dizer."

     O eco da verdade - diz quem sabe; talvez os críticos - é que Deus que é Deus, um Deus de verdade, o verdadeiro, o mais verdadeiro, o maior da veracidade, o big guy da irrefutabilidade, não dá a mão a quem anda de mão dada.
     O Big guy.
     Um Deus de verdade revoga o amor. Um Deus de verdade atiça os leões contra o amor. Um Deus de verdade mandar queimar as fitas do amor. Um Deus de verdade até consegue transformar um apaixonado num sociopata. E só Deus sabe o que eu já sofri com isto.
     Estou a brincar, pá.
     Um Deus de verdade - se for Deus de verdade - diz que o amor é um embuste.
     Um Deus de verdade recusa-se a acreditar que o amor, quando fundido por duas pessoas como tu e eu, é mais poderoso do que a Natureza que o comporta. Um Deus de verdade torna-se um Deus oprimido quando os viajantes da fé se tornam peregrinos do amor.
     Um Deus de verdade revoga o amor porque sabe que o amor é a única verdade. E a única verdade é que Deus é o amor que nos cuspimos uns nos outros. Tu e eu.
     Um Deus de verdade?, somos tu e eu. Só não revogamos o amor.

«jd»

Citação: in Prometo Falhar (página 110),
Editora Marcador, Pedro Chagas Freitas.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Acordo Pré-Nupcial

Não me vejo contigo
se, mesmo sem luz cá em casa, comigo
não queres comer iogurtes
sentada no chão da cozinha.
Nem me vejo contigo
se dizes que os poemas são feitos de versos,
porque, já to disse antes,
a sua matéria é puramente
de beijos constituída.

São cinco da manhã
e costumamos fazer amor
duas horas antes.

Não me vejo contigo
se não me acabares as frases
que há já tanto tempo
nos repetimos.
Nem me vejo contigo
se não me chamares de amor
quando espirro e acordo
a criançada da merda
de vizinhança que temos.

São cinco da manhã
e costumamos fazer amor
uma hora antes.

Não me vejo contigo
se não me deres
a língua à boca de cada vez
que teimas em adormecer antes de mim.
Nem me vejo contigo
se não me fodes o juízo
pela quinta factura da luz
que nos está em atraso.

São cinco da manhã
e costumamos fazer amor
a esta hora.

Não percamos tempo.

«jd»

sábado, 10 de maio de 2014

O Presidiário

     Estou preso a ti por ter feito de nós vítimas de amores, mas juro por Deus que me comprometi a pagar a minha dívida à sociedade. O advogado falou-me em vinte e três anos e eu dei-lhe um valente aperto de mão. A situação não me agradou, mas ele disse que conseguiu atenuar a minha pena por pena minha: «um amor destes não resistia a vinte e cinco anos de separação», disse-me ele. Pobre rapaz: não sabe mesmo com quem está a lidar. Tu chamar-lhe-ias cabrão. Sempre foste tão politicamente elegante a insultar. Olha, davas-te bem aqui.
     Fui preso já lá vão duzentos e setenta e quatro meses, cinco dias e umas três horas. Há quem diga que foi uma sorte - até foi. Só não me mandes para a solitária, amor, porque não sobrevivo sem o teu recreio.
     A comida na cantina é uma merdice de chorar por mais, dado o apetite, e até sinto o desconforto quando, mesmo não sozinho, tomo banho sem ti. Não te apoquentes, meu amor: não há cá sabonetes, o gel é líquido e até a minha saudade de ti é um creme de banho de marca branca.
     São mais vinte e quatro meses aqui, mas nem penses em dar-me liberdade antes dos cento e vinte anos, que eu adoro a falta de espaço que tenho conseguido.
     Amo-te prisão!
     Minha prisão: eis uma declaração de amor criminosa. Aponta essa, senão esqueces-te.

«jd»

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Primeiro Ensaio Sobre um Diálogo Prometedor

- Acho que nunca me preparei para uma coisa assim.
- Nunca te preparaste para uma coisa assim?
- Uma coisas destas exigia alguma preparação, não era?
- Não: uma coisas destas não exigia preparação; apenas ação despreparada.
- Eu tive medo disso: de não pensar.
- Se tiveste medo, então pensaste. Nunca poderias não pensar, tendo medo.
- ...
- Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...
- Os tempos nunca mudam, nem as vontades. O que mudam são as pessoas, as ambições, as cambalhotas premeditadas que a vida, puta promiscua - como gostas de lhe chamar -, nos incumbe.
- Sabes que te amo?, que sempre te amei?, até quando decidi deixar-me de ti?
- Quando decidiste deixar-te de mim, eu corri para ti e tu beijaste-me. Disseste que me querias morto. Diz-me lá: como é que isso é amar?
- Duvidas que te amo?
- ...
- Então?
- Não: nunca duvidei até me dares o último beijo - não posso confiar mais em ti se me deres um último beijo.
- Não dei o último beijo por impulso: foi calculado.
- Então és má.
- Acredita que não precisas mais de mim do que eu de ti. E quando digo que preciso de ti, digo que preciso de te olhar nos olhos e ficar vidrada neles; já te disse que são os mais bonitos que já vi? Preciso de encostar a cabeça no teu ombro e perguntar se sou a rapariga mais bonita que tu já viste. Sei que sabes que eu sei que a aparência é só um toque de validade numa paixão, mas sabes?, torna-se importante quando te dou a mão na rua.
- Ó, dar-te a mão na rua...!
- Sim... É possível morrer de saudades?
- É impossível morrer de amor?
- É porque eu estou tão apaixonada que acho que um dia ainda morro por estar assim. Se morresse de amor por ti, morria feliz - juro-te. Morrer a amar deve ser a forma mais sublime de morrer.
- É por isso que me queres morto?
- É só por isso que te quero morto, meu amor. É só por isso que te dei o último beijo, meu amor. É só por isso que nos quero para sempre, meu amor.
- E não tens medo de morrer?
- Confia-nos isso.
- Olha, eu tenho medo de morrer.
- É exatamente nesses momentos, em que estás com medo. que mais deves confiar.

«jd»,
co-autoria: Lídia Mestre.

sábado, 26 de abril de 2014

Crónica De Amor Numa Gota de Rum

Tocar no suado,
entrar numa guerra descalço,
desapoiado e desembarcar
numa terra que
que pinto e realço.

Viver bêbado
num corpo de mosca
é como virar o disco
para tocar na mesma luz.
Preferes ser o amante d'hoje
ou o do amanhã
que nos reduz?

Visto-te de puerilidade
para - perante ti - me erigir;
mas jamais formarei herói ou rei
se a tua cordialidade não me sorrir.

«jd»

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Há Sempre o Perfume, Meu Amor

     Há sempre o perfume, meu amor. Há sempre o perfume, meu amor. Há sempre o odor da vingança: tenho-o comigo desde o momento em que nos apaixonamos. Eu apaixonei-me primeiro, eu amei-te mais no princípio, mas tu aprendeste a amar-me melhor no fim. Foste tu que amaste o errado, sendo o correto. Se morremos, morremos não porque deixámos de viver, mas porque paramos de nos sofrer.
     Prometi-te sofrimento desde o primeiro instante porque era tudo o que te podia prometer - porque é isso, e só isso, que um homem sensato pode prometer. A coroa?, nem sei dela. Mas sei que te iria ficar bem aos pés - aos teus belos pés.
     Mataram-me aos teus pés para que me pudesses chorar. Choraste-me?, meu amor.
     Há sempre o perfume, meu amor - há sempre algo que fica do que não ficou, há sempre algo que vai do que não se foi e há sempre qualquer coisinha que morre daquilo que não pôde morrer. Há sempre o perfume; há sempre o amor também, meu amor. A paixão? - esfaqueia a alma, mas nunca nos preocupamos com a alma porque tínhamos os corpos. Enquanto o meu corpo fosse teu e o teu odor mo rodeasse, continuaria com a promessa de te amar sempre mais e sempre pior e sempre a ti, meu amor. Se Deus me ajudasse e eu nele acreditasse.
     Haverá sempre o perfume, meu amor: prometo-to. Essa realidade é a real idade minha e a realidade é sempre a do amante: só ele sente o que vê e vê do que sente - só eu sinto quando te vejo e vejo do que te sinto. Dá-me olhos que te sintam e dá-me o perfume de sempre, meu amor.
    Acho, meu amor, que nos prometemos demasiado: éramos os corpos vestidos e agora somos os corpos vendidos. Disseste-me, naquelas tuas cartas escritas à maré do descomprometimento, que te apaixonaste pelas minhas palavras mal tas dirigi - que foi paixão à primeira conversa. Disseste que o veneno que me corria nas veias era o mais doce que já tinha arranhado os teus lábios. Ainda tens o perfume dessa altura?, guardaste-o?, meu amor.
     Há sempre - e vai haver nesse sempre - o perfume, o teu perfume, meu amor.

«jd»

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Clip da Putice

      Andamos a matar, nesta maratona transformada num corredor de morte, para, mais tarde, sermos mortos - a matar para virmos a ser, mais tarde, esses cadáveres.
      Somos a carne para canhão de nós mesmos. Somos a dinamite da explosão. Somos o epicentro do sismo e somos, tão ingenuamente, os edifícios que dele ruem. Atacamos para depois sermos atacados: eis o ciclo que define a selva orgásmica em que se tornou a vida.
      Lembro-me de quando era criança, mas não me consigo recordar de quando deixei de a ser; acho, no entanto, que deve ter sido ontem: isto porque só hoje me apercebi da inabilidade que é viver não sendo uma delas.
      Sou, hoje, um gigante no meio da criançada - o monstro engraçado que os miúdos rodeiam. E já fui, em tempos, um desses miúdos. Tenho vagas memórias - quase dissolvidas - dessa altura. Os anos passaram como uma bala e não me deram a oportunidade de me elevar neles: não cresci; não fermentei; não desenvolvi. Sou uma criança em corpo de adulto, pela imaturidade dos meus pensamentos; sou, também, um adulto em corpo de adolescente, no que diz respeito a toda a inaptidão que me sou.
     Acho - sem certezas, pá - que me tornei adulto quando comecei a racionalizar a paixão.
     Arrependo-me, todos os dias, de o ter começado a fazer. Apanhei-lhe o jeito e agora não consigo largar essa droga, esse alucinogéno, essa dependência, esse clip da putice, que suga todos os cantinhos de alma do meu corpo fragilizado. Transformei-me na carne para canhão de mim mesmo e - como se não bastasse - ainda repulsei, dissimuladamente, a esperança que funcionava como apólice de seguro desse mesmo infortúnio de vida.
    Tornei-me adulto e, quando me vi forçado a reconhecê-lo publicamente, ninguém teve a decência de me alertar para a merda em que ia encalhar; mas houve alguém - uma alma caridosa qualquer - que, no fim das minhas primeiras vinte e quatro horas de adulto, me veio perguntar se eu já me tinha fermentado hoje.
    Respondi, ainda que desconfiado, que sim: e nunca mais voltei a ser criança. Aquele fermento foi de vento em popa, ou não fosse eu mestre - dependente - em ser-me carne para canhão.
    Há quem lhe chame "clip da putice".

sábado, 5 de abril de 2014

Zambujeiro

Debaixo do zambujeiro
- oliveira seca e esverdeada -
roubamos o fruto da longevidade
e, do horizonte, a vida da enseada.

É sob esse zambujeiro
que vemos o luar a encandear:
ouvimos o besouro em uníssono
com as seis borboletas
que nos permitem a voar.

É debaixo do zambujeiro
que me decido a pensar em ti
quando, amor, em ti não estás.

E, já debaixo da árvore,
desse amar lado a lado,
fico-me pela certeza de que
em mim nunca recuarás.

«jd»

sexta-feira, 28 de março de 2014

Lobos De Nós Mesmos

     Acordei cedo e cedo me apercebi de que nasci à pressão - à pressa, vá - para conseguir fazer frente à mira de um monte de lobos sedentos de carne nova e impecavelmente fragilizada.
     O que importa a toda a gente - porque toda a gente é lobo de si mesmo - é vitimar-se ao máximo; mas é errado pensarmos que nós somos as maiores vítimas da crueldade do mundo. Quando um gajo se vitima acaba por demonstrar falta de modéstia, porque não consegue admitir que pode estar errado. E pior: essa auto-vítimização é uma espécie de desonestidade intelectual em relação a toda a gente que, à sua volta, sofre com situações bem mais problemáticas.
     No momento em que nos queixamos de algo que não nos está a correr bem, essa queixa passa sempre impune. Passa impune porque não temos uma plateia que a ouça; contudo, quando fazemos queixinhas por isto e por aquilo, tendemos a criar um ciclo vicioso de falar por falar, de nos tornar coitadinhos apenas com o intuito de mostrarmos que, nesse preciso momento, não somos tão bem sucedidos como outros - que somos coitadinhos. E isso é, convenhamos, coisa de coitadinho.
     O vitimar, quando é gratuito, sai-nos caro. Sai-nos caro porque criamos, na plateia - quando a há -, a ideia de que se existir uma pirâmide de sorte, nós estamos no estrato abaixo do estrato que está em baixo.
     Que somos os coitaditos: os lobos de nós mesmos - para que tenham pena de nós.
     Para o gajo que se auto-vitima, o vilão é a vida e o pobre coitado é ele próprio. "Ai vida, porque és tão cruel?"; "ai vida, porque me fazes isto a mim?".
     É pura, a mais pura, manipulação.
     Fomenta-nos a ideia, a emoção - se preferirem -, de que é um coitadito que merece toda a nossa pena - e nós, se não formos suficientemente inteligentes, caímos nessa rasteira. De queixos.
     Só devíamos ter pena de quem de si a tem - só devíamos ter pena de quem se esforça por a merecer.
     Há ainda o argumento do relatividade do problema que a pessoa está a viver, mas até esse me parece falacioso - não acredito que a auto-vítimização saia impune à comparação. Somos forçados, pela nossa fraca Natureza, a comparar a nossa coisa com a coisa do outro (e juro por Deus que não estou a falar do tamanho dos órgãos masculinos). É por essa razão, talvez, que os nossos familiares tanto usam e abusam da premissa do sem-abrigo, que "não tem comida, nem casa, nem brinquedos", para nos ensinar a dura lição de que a vida é mais complicada para quem está no estrato abaixo do nosso. E, também, para nos garantirem que nós nunca estaremos nesse ponto da pirâmide.
    Sublinho: nunca. E que, mesmo achando que estamos, devemos olhar abaixo de nós, pois lá encontraremos alguém. Somos só lobos de nós mesmos.

«jd»

quinta-feira, 20 de março de 2014

Cobardolas a Full-Time

     Pensei, durante a semana, que iria desistir; pensei que iria abrir mão daquilo em que mais devia insistir. Desistir é, de certo modo, deixar de mandar vir - é deixar de encomendar: o sermão. Não estive lá para ser feliz; estive lá para manter os outros capazes de se verem felizes: fui, portanto, um manipulador do estado de espírito dos outros.
     E ainda me chamaram de amigo.
     Um amigo é, nos momentos delicados, o cobardolas que te impinge a visualização da vida de um prisma diferente do teu; é o cobardolas que te amena o espírito e que te seda os suicídios; é o cobardolas que se te injeta juízo no pensar vácuo; é o cobardolas que te faz precisar da companhia dele.
     E eu fui um cobardolas a full-time.
     O mundinho tá atestadinho de cobardolazinhos - graças a Deus. Os cobardolas - raça graciosamente pragmática - são quase omniscientes, quase omnipresentes, quase omnipotentes. Quase, em suma, uma base. Quase, em suma, uma base: eis uma boa definição do que é um amigo. Alguém que quer ser tudo, que luta por ser tudo, mas que só chega ao meio-alcance - alguém que fica pelo quase.
     Os amigos são precisos para nada e é por isso que são tão necessitados: para quando nós somos nada - para quando nos sentimos nada. Quando te sentes nada e dizes que não precisas de um cobardolas para nada - que não precisas de um amigo para nadinha -, já estás a enviar um pedido de socorro. De socorrinho.
     O amigo nunca está lá para ser feliz: está lá para te fazer sentir capaz de. De? Qualquer coisa. Nem que não consiga fazer tudo aquilo com que se compromete. Qualquer coisa é sempre qual quer coi sa. Pode nem conseguir fazer tudo, mas faz-te passar de óbito declarado a zé ninguém.

«jd»

quarta-feira, 12 de março de 2014

Onde é a Foz dos Amores?

De mão dada, os miúdos
sentam-se a par da água:
chamada a foz dos amores.
Há estrelas afogadas pela luz solar
mas eles, incandescentes,
naquele paladar crescentes,
decidem amar-se como atores.

Entre monólogos e pensares,
põem a paixão em hipoteca:
experimentam prólogos de amor
até que a poesia lhes seca.
"Estás salva", promete um amante.
Adentro dessa coragem: um beijo.
"Sou-te salva"- garante - "mesmo
nesta chorada saudade possante".

Juram-se; prometem-se:
a milhões de quilómetros.
"De distância?", deitam-se.
E, juso daquela música,
as duas lágrimas beijam-se.

«jd»

terça-feira, 11 de março de 2014

Intimidade

     Gostava de ser humano dentro de ti; gostava de ser humano para ti: foi o que sempre desejei.
     Desconhecia-te o toque até te tocar - e, mesmo nesse momento, desconheci-te por dentro de mim. Desconheci-te porque limitei-me a conhecer-te pouco. Fui burrinho por te ter conhecido pouquinho, porque foi pouco, ou oco:
     o tempo:
     curto:
     que estivemos:
     juntos.
     Pouco conhecer alguém devia ser - se ainda não o é - equivalente a muito desconhecer alguém.
     Lembras-te quando, nas nossas primeiras conversas, me disseste que conhecer alguém é muito mais do que conhecer alguém? - juraste-me, a pés juntos, que conhecer é decorar as rotinas, os hábitos, os gostos, o que faz sorrir e chorar desalmado.
     Tu sabes o que me faz chorar. E rir. Desalmadamente. Compulsivamente.
     Se sabes o que faz chorar e rir: então há intimidade.
     Eu gostava de ser humano dentro de ti: só sou amor. Só me vês amor - gostava que me visses como um mendigo vê; não como um mendigo é visto. Queria que me visses mais frágil, mais débil de mim: que me visses como todos me vêm.
     Vês - sempre me viste - como alguém que não erra, como alguém que não peca, como alguém que perdoa. Reconheço que me cresci para ti: se assim me vês, foi porque me cresci para te poder abarcar em mim. E abarco.
     Sou-te amor - não porque estás apaixonada, mas porque me vês (dentro de ti) como o humano que eu sou (dentro de mim). Sou-te amor porque consigo ser humano dentro de ti - porque consigo ser, dentro de ti, o que sempre desejei ser dentro de alguém.
     Se consegues ser humano dentro de alguém: então há intimidade.
     Desconhecia-te o toque até te tocar. Desconhecia a saudade do teu toque até te tocar.
     Agora sofro da asfixia que a saudade do teu toque me deixou. Todos os dias. Incessantemente.
     E choro. Asfixiado.
     Todos os dias. Incessantemente.
     Da saudade que me deixas - da saudade que o teu toque me deixou.
     Se existe saudade daquele último toque: então há intimidade.
     É em noites como estas - amenas: fresquinhas, mas amenas - em que me recordo de quem era antes de te conhecer. Lembro-me de chorar, quase todas as noites, por ser uma pessoa frágil, manipuladora e solitária - ainda que no seio de tantas pessoas.
     Já não choro todas as noites, meu amor. Ocupas-me: o tempo e o pensar; perco-me nas noites à procura da sorte que me és. Passo as noites a pensar que sou uma pessoa mais completa, mais preparada; já não tenho tanta maldade dentro de mim - já nem penso em maldades com tanta frequência. Por ti. Por tua causa.
     Sou uma pessoa solitária - talvez seja até mais solitário agora -, mas, mesmo sendo, sou-o melhor. Sinto-me melhor. Sinto-me mais íntimo dentro de mim.
     Creio que querer ser humano dentro de alguém é querer, de alguma forma, ser-se intimidade dentro de alguém. És intimidade? dentro de mim?
     Se fores solitário; um bom solitário dentro de alguém: então há intimidade.

«jd»

sexta-feira, 7 de março de 2014

"Povoamento"

"No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera."

Ruy Belo, "Povoamento" in Aquele Grande Rio Eufrates.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Circunspectos na Embriaguez

     O primeiro amador moveu-se na calma anárquica da sua avenida. O segundo, já de si entusiasmado, aventurou-se também ao movimento. Na inércia, então depilados pela descoberta, jaziam ínfimos e descomprometidos. Pereciam vivos, deitados de pé, em si mesmos - só em si mesmos. O que possibilitou o movimento? - não sabem; mas sabem que, sem o movimento, de lá nada surgiria. Pronunciaram palavras caras sem possuir o crédito para aquela exuberância.
     O amor não compadece de significado, somente de inexistência. E os amantes, os amadores - que se amam nas glórias e nas dores -, subvalorizam a forma e o engenho com que se deram a conhecer. Palavras: tudo o que os une. Quem diz que precisa de olhares e sabores nunca soube o que é ansiar por palavras. A necessidade, perturbada e emaranhada, de ter as palavras.
     Ter palavras é não saber o que dizer. Não são precisas telas; ninguém precisa de calculadora; não é preciso uma tabela periódica que descreva o mundo. As pessoas - e só as pessoas pessoas - sabem-no: têm palavras e não sabem o que dizer.
     As pessoas, em particular os amantes, sabem que o mundo deles - um rio - é feito de leitos acasos que fazem a foz do que é, ou será, o seu destino. Todo o amante - o verdadeiro amante - tem a humildade de dizer que não sabe o que é o amor. Eles, ele e ela, não sabem o que é o amor: são humildes o suficiente para admitirem que não são capazes de o descrever.
     O primeiro amador move-se sempre na calma anárquica da sua avenida. Isso não faz dele um preponderante apaixonado: não existe tal tipologia de recém-amador. O novato trata sempre do amor como se fosse a maior das suas estóicas jóias. Aliás: estoicismo é, porventura, a maior definição de quem se aventura neste desconhecido. Nenhum primeiro amante se lançaria ao "fogo que arde sem se ver" se tivesse, de facto, munido da consciência plena dos riscos que comete; nem o segundo, que é tão indiferente quanto o primeiro.
     Os amantes julgam-se sóbrios.
     Julgam-se sempre sóbrios; porém, mutuamente inebriados - bêbados no vinho um do outro, suados do calor um do outro, alimentados das entranhas que em si mesmos cozinham.
     Naquela cidade, os amantes contam o calcetado que os conta a eles. Sabem que se tornam parentes da poesia quando sofrem um no outro, mas os gemidos da tenuidade são o foco de todo o tempo que desperdiçam um no outro.
     Insaciáveis, imortais: cegos no avinagrado dos seus sexos - na química da intimidade em que se comungam. Ter-se-ão sempre amanhã e é essa a verdade que nunca os desmagnetizará. Ter-se-ão sempre amanhã: eis uma boa declaração de amor.

«jd»

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sôfrega

Quando nos pomos
a trocar juras de amor,
um somos - um:
somos um beijo,
no aleijo desleixado,
carne crua que cozinhámos;
somos o pretérito do futuro
que consumámos.

Se confessas que a vontade te bate
e a saudade te é pesada no combate,
dizes, então, que o meu amor te é
jardim pintado a verde-esmalte.

Insaciável: és-me os planos
- os planos que idealizas para o agora.
E, já permeável, procuras pela hora
que nos enlaçará por muitos anos.

«jd»

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Abstrair é Trair

      É ridícula: a vida.
      É ridícula a forma como a vida nos despeja as coisas más: não avisa; não sente pena; não perdoa; não poupa - não nos poupa - a nada. Despeja, carrega, tudo o que nos é prejudicial e não decreta uma forma pouco hostil de o fazer. Se é para fazer sofrer, a vida é intolerante. Faz sofrer de uma forma tão indelicada que nos abalroa com toda a força. Há comboios que são mais subtis do que o choque que o sofrimento nos provoca.
      A ausência de sofrimento é o estado prematuro da doença que a vida nos é. Esse vírus, essa doença, tão perspicaz, aparece sempre quando não contámos com ela. O sofrimento só aparece quando a vida nos ilude, nos enche, com coisas boas - coisas mesmo boas. Quando a vida te premiar com coisinhas lindas e boas, suspeita. Suspeita dela: é o conselho que aqui deixo.
      Eu suspeito da vida nos momentos em que estou triste e amargurado. Já o faço tarde - devia ser menos ingénuo: devia estranhar quando uma sucessão de coisas boas aparece em cadeia, mas não - a vida moldou-me desta forma para eu não ter como me defender. Filha da puta.
      A vida é ridícula.
      A vida trama-nos e depois, se queremos sair dessa teia meticulosamente engendrada, temos de nos abstrair da merda que ela nos plantou. No que a mim me diz respeito, tenho concluído que abstrair-me é trair-me. Abstrair-me dos meus problemas é trair tudo aquilo em que mais quero pensar: no real; no eu; na verdade do que me rodeia; no monte de merda de "desafios" que a vida "planeou" para mim.
      Abstrair-me é trair-me.
      Quando me abstraio das questões que me consomem, rompo o fio que me liga ao mundo térreo - crucifico os pensamentos em prol de uma errónea sensação de bem-estar.
É errado pensar que fugindo aos temas que doem somos mais serenos. É errado - é a coisa mais errada - pensar que precisamos de nos esquivar de matutar e mastigar as indisposições para sermos, ainda assim, - moderadamente - felizes.
      Não. Não.
      Se ambicionamos alguma paz de espírito, temos de ter alguma ferocidade para moer e remoer os assuntos que nos moem e remoem: só assim conseguimos a abstração basilar para não nos trairmos. Abstrair-me é trair-me. Há-de sê-lo assim até que a vida decida parar de me ridicularizar.
      As coisas más vêm e não vão. Aparecem - sem aviso prévio - e não há forma de as expulsar. Passamos os momentos bons a semear felicidade em nós e nos outros. Quando a vida estipula que essa felicidade tem de acabar, não é somente a nossa que acaba: ninguém, à nossa volta, sai impune. Se plantaste - se contagiaste - a tua felicidade a alguém, ficaste inteiramente responsável pela ligação que criaste. Gerar felicidade numa pessoa acarreta uma responsabilidade tão ínfima e chocante que, quando o teu momento áureo se desvanece, a felicidade da pessoa com quem a partilhaste também sucumbe.
      É o dom, ou a maligna dádiva, que a partilha traz.

«jd»

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Carta de Amor

      Previ que este dia chegaria: que, um dia, me teria de dedicar apenas a ti. Haviam indícios que viria o dia, ou a madrugada, em que te rascunharia sob moldes poéticos. Não quis esperar que chegasse o bloco de calendário em que toda a gente decide fazê-lo em ritual - isto porque, para mim, qualquer dia é dia bom para declarar o renascimento de um homem -, mas tu insististe que merecias isto.

      Podia dizer-te que planeei, ao mais ínfimo pormenor, tudo o que te ia escrever. Podia dizer-te que escrevi - isto tudo que para aqui escrevi - sem rever as linhas, sem adicionar condimentos, sem verter uma lágrima e sem perscrutar uma única sinfonia de amor: e posso - posso dizer. Fi-lo.

      Sonhei contigo na semana passada e, desde aí, não tenho sido homem. Sonhei que estava apaixonado e sonhei que, estando apaixonado - estando-te apaixonado -, era imortal. Não era homem: era deus.
      E arrisquei-me. Em mim, eu - por ti -, só tu. Se tivermos algo mais do que o desconhecimento, tolero que nos desprendamos dele. Vendamos a nossa ternura na feira mais remota: a preço de ouro, com laços etiquetados a indicar a densidade do nosso valor. Se houver vivalma que a compre em leilão, fazer-me-há implorar que nos torne prisioneiros um do outro.
"Venda-me os olhos. Desvenda-me o ombro", sempre tiveste, em ti, mais poesia do que eu - sempre a tiveste a mais do que eu. Rapariga maldosa; inegavelmente encantadora. Não haverá charme neste mundo que se iguale ao teu. Doce - minha - mulher. Doce mulher - minha. Toda tu: minha.

      Não foste - nem és - a minha primeira paixão; és, contudo, a minha paixão-primeira. Nunca descanso enquanto não te vejo e, talvez por isso, não ande a dormir bem. O pouco tempo que repouso, perco-o nos meus sonhos enquanto neles te procuro.
      A minha paixão, por muito louca que seja, sobrevive de ti. Brotaste-me um sentimento que jamais algum homem desejou ter - uma dependência que nunca foi decretada na constituição do tempo ou do espaço.
      O tempo e o espaço que se aflijam, pois iremos preparar-nos para devorar a carcaça do que resta deles: seremo-nos eternamente.
«jd»

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Serpentear

Pitão-da-Birmânia
Serpenteamos o amor
como dois vencidos;
aplanamos a serpente
como verdadeiros perdidos;
fazemo-nos amantes
para jazermos como serpentes,
que trocam de pele
para permutar os antes.

Somos um contra os mundo.
Sim: somos um contra Os mundo.
O que será deste nosso sonho
quando a hora nos virar segundo?

Amor, serpenteemos o amor:
só o amor merece ser serpenteado.
Se nos tentarem envenenar,
mostraremos quem merece
ser – por justiça - envenenado.

«jd»

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"Sincero"

     "Não só te admiro pela pessoa que és, mas também pela pessoa que me tornaste.
     Às vezes temos de admitir que grande parte do carinho que nutrimos pelas pessoas não provem apenas da pessoa que elas são, mas da pessoa que somos quando estamos com ela.
     Eu sou tão eu quando a água é mar, quando estou contigo, e acho que esse é o maior fundamento para uma amizade.
     Gostava que as pessoas de quem gosto assim tanto se vissem pelos meus olhos, para verem o que vejo quando olho para elas: não os erros que matutam, não as imperfeições que possuem, não o passado que as persegue, mas aqueles bocadinhos de alma, de ser, de valor, que a maior parte das pessoas não vê, nem mesmo eles mesmos que vivem no seu corpo.
     Tu és o exemplo disso. Tu não te vês pelos meus olhos, nem tão pouco pelos teus. És bem mais do que os erros que cometeste e mereces o dobro daquilo que te sujeitas a receber. Isso é típico das pessoas verdadeiramente boas (que são escassas! há pessoas boas, resmas delas, mas não verdadeiramente boas): aceitar o pouco que recebem e ser feliz com meia reciprocidade.
     Não sejas uma pessoa verdadeiramente boa; modera-te: dá o que recebes, nunca mais, nunca menos, exatamente o que recebes, assim estarás sempre na medida certa.
     Eu sei que não é fácil; não podemos mudar quem somos, nem como somos. Nascemos iguais, mas moldámo-nos de acordo que os princípios que retemos e perante aquilo que passamos e tu tiveste a sorte (talvez infelicidade para ti) de te tornar maior, interiormente, do que aquilo que desejavas.
    Cada coisa a seu tempo; um dia vais ver que todos os passos que deste em falso, todas as vezes que desejaste ser comum, te levaram ao rumo certo.
    Há quem nasça grande."



Cláudia Alves, "Sincero" (adaptado), Dito ao Acaso (blog), outubro 2013 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

É Sempre Pouco Para Quem É Pouco

      O inverno ajuda a discernir entre quem é rico e quem é pobre: o primeiro, enriquece na lareira que o seu capital concedeu; o segundo, cinge-se a esmiuçar as migalhas enregeladas que Deus lhe permitiu. João pendurava-se na linha ténue que separa o dador do donatário: a singela fronteira que dividia o rico do pobre – ao nosso jovem nunca lhe faltou o que comer, nem formas de vencer o frio.
      Naquele solstício – em que as árvores se agasalhavam em casacos de neve -, João recebeu uma carta que lhe trouxera uma triste novidade: a sua tia Clara, senhora de um latifúndio de vinha no Norte, havia sido vítima da sua idade. Viúva e sem descendentes, decide deixar todos os seus bens ao seu único sobrinho - não fosse o Estado roubar-lhe a centenária herança.
      Num ambiente cortado de frio, João dirige-se até à terra da sua tia para lhe prestar uma última homenagem porque, embora nunca a tivesse conhecido na intimidade, não deixava de ser família.
A cerimónia decorreu como qualquer ato fúnebre decorre: negros vestidos de amigos e lágrimas a escorrerem pessoas.
      Sem ligações à vinha, João decide vender a quinta e recomeçar a sua vida. Compra casa e fixa-se em Penafiel; trata de arranjar cavalo, para que nunca ficasse privado de passear. Agora abastado, passou a refugiar-se em si mesmo. Na vila, especulava-se sobre quem seria aquele homem que, envolto em mistério, nunca interagia com o povo.
      Um dia qualquer - como todos os dias são quaisqueres -, alguém descobriu que o João era dono de uma imensa fortuna. Como é previsível numa terriola, quando se quer guardar um segredo, cedo o boato voa de boca em boca como vocábulos baratos de sopeira em sopeira. E foi o que aconteceu: em coisa de duas semanas, João recebeu à porta dezenas de pedintes que, tal como ele já vivera, também (sobre)viviam no limiar da pobreza.
      João, que teve uma célere ascensão, socorreu grande parte dos populares, emprestando-lhes o seu dinheiro; no entanto, passou a cobrar juros altíssimos sobre essas “doações” monetárias. Quem antes era pobre, quem antes nada tivera de fizer para deixar de o ser, hoje não se contivera com a abastada herança que havia recebido. João, que também já vivera da dieta das migalhas, tornara-se impiedoso para o estrato social do qual provinha. O que tinha, que era muito mais do que o que podia gastar, já se lhe tornara pouco.
      E é sempre pouco para quem é pouco.

«jd»
Um primeiro conto:
"O João é ganancioso"

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Pastilha Elástica

     Pastilha elástica. Quando as pessoas dizem que são felizes, usam o termo "feliz" como uma força de expressão - como uma teoria de sublimação do próprio estado de espírito. Dizemos que estamos felizes porque nos contentamos com os breves momentos de excitação que vamos tendo.
     Sim: quero cair - sempre o quis. Quero cair a pique e não quero saber de mais nada e, se o fizer, nem quero saber de mais ninguém. Quero cair fundo ao ponto de deixar de ter como acender o interruptor. E quero ficar caído durante algum tempo.
     Só quem chega a uma profunda infelicidade é que se vê com genica para aproveitar melhor a pouquinha satisfação que se lhe surge depois. O gajo infeliz é o único que, depois de conhecer o fundo da garrafa, se permite a subir até ao gargalo. Só quem fica infeliz é que se torna feliz. E eu quero cair para ser feliz.
     Nunca serei feliz enquanto continuar a ambicionar mais além da felicidade. Quando penso que cheguei à felicidade, não me contento com o que tenho; quero mais. Quero sempre mais além da felicidade. Eu nunca serei feliz. Há momentos que me deixam contente, aliviado, desinibido, libertado, minimamente realizado: nunca feliz. Eu nunca serei feliz enquanto continuar a ambicionar mais além da felicidade.
     Tu és o meu maior projeto até ao dia em que vier a vontade de ter filhos contigo. E, no dia em que isso acontecer, hei-de - irremediavelmente - arranjar outra birra qualquer que me torne um miserável enquanto não a satisfizer. E há-de ser assim, nesse tom fatídico, eternamente.
     Sou um gajo insatisfeito. Não me fales de felicidade: a única coisa que eu sei acerca disso são aqueles milésimos de segundo em que consegui atingir um propósito. Quando esses milésimos de segundo são fuzilados, fico infeliz de novo: até conseguir atingir um novo qualquer semi objetivo. Eu estou bem contigo - esta paixão não abre espaço para mais paixões - mas não sou feliz.
     Há muito tempo que não me sentia amado: contigo, sinto. Se a felicidade se cingisse apenas a nós os dois, à nossa relação, eu seria feliz. Eu sou feliz contigo, mas não sou feliz.
     Nunca serei feliz. Vai faltar sempre uma merda qualquer.
     O que falta agora é a merda de um croissant. Resolvia metade dos meus problemas. Ia ocupar-me de tal forma que não pensaria em novos objetivos durante um bom bocado de tempo.
     Depois do croissant viria o sumo de laranja - para empurrar - e acabava no cigarrinho.
     Depois de acabar com o cigarro, apareceria o café. A pastilha elástica.
     A pastilha elástica: só por insatisfação é que pediria uma pastilha elástica.
     Pastilha elástica.

«jd»

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Trilho Seguro

      É árduo - por vezes invisível - achar o caminho certo. Precisamos de inverter posições, efetuar manobras complicadas, dar piscas e mudar de direção, para chegar a bom porto.
     Sinto-me frustrado quando não consigo encarreirar - quando não consigo correr um caminho - para voltar a jogar a vida dignamente; acredito, contudo, que mais displicente que isso é não conseguir conduzir os outros ao sucesso.
     Conduzir os outros ao sucesso parece-nos vago, principalmente quando não falamos de uma finalidade clara; por outro lado, quando somos pioneiros da gestão da carreira dos outros, a tarefa falha-nos redondamente. Porquê? Porque a vida, amargurada e eletrocutada vida, tende a ensinar-nos que não podemos fazer com que os outros evitem errar-lhe. Errar: é-lhes inerente - quer lhes seja um caminho, quer lhes mostre vir a ser uma aprendizagem. Roubar-lhes essa aprendizagem é, de grosseira forma, roubar-lhes a possibilidade de se encarreirarem; claro que custa, que nos arde, ver um amigo sofrer; ver um amigo sem esperança é como vermo-nos a nós mesmos, sem horizonte, sem fé.

     Quando um amigo erra, nós não somos responsáveis por esse erro; no entanto, quando um amigo erra, erramos com ele. A amizade é isso mesmo: ver o amigo errar e aceitar o seu erro - ainda que repetidamente.
     Se queremos amigos encarreirados no comboio do sucesso, temos de ter a humildade de querer errar com ele: um erro conjunto, um erro em equipa, em prol do crescimento mútuo.



«jd»

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Ardina

Ajuda-me um pouco.
A "Estátua de um Ardina"
Praça da Liberdade, Aliados
Porto
Poderás, surdo - e mouco -,
um singelo patriota ajudar?

Ajuda, permitindo-te vislumbrar,
sem que seja com pena e misericórdia;
ajuda: lendo-me este guião, esta cena,
que só reclama por limpar esta escória.

Tu, ó tu que lês:
o compromisso não é
somente de quem escreve
- Do Quem narra a O Quem serve -,
mas também de quem lê, apreciando,
o mundo que se lhe gira ocultando.

O mundo: oculta-se-nos o mistério,
esconde as noites, vulgariza o assédio;
abraça os maus convertendo os bons,
vulgariza os sons e incendeia as naus.

Nada é impermutável,
pois hoje já nada nos é abafado;
o mundo crê na verdade
um prodigioso final aclamado.

Conquanto nem todos os finais
dignos sejam de narração,
a verdade merece ser lida
para que nasça uma erudita multidão.

«jd»

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Imagiculação Precoce

      Estou há doze semanas sem escrever. Doze semanas. Uma dúzia: sem escrever.
      Perdi um pouco do escrevente que havia em mim – jamais o negarei. Perdi amigos, capacidades, tempo. Perdi tempo por ter ganho tempo. Sim: perdi tempo por ter ganho tempo.
      Antes não tinha tempo – ou, se o tinha, obstruía-o com futilidades – e tinha tempo para fazer tudo a (meu) belo prazer: para fazer tudo o que (me) dava prazer. Antes não tinha tempo para nada e controlava-o de uma forma autista e impressionante; arranjava sempre um tempinho para fazer isto e um tempinho para fazer aquilo – nada ficava por fazer.
      Agora, que já tenho tempo - para deixar de fazer as coisas em cima do joelho -, não o faço: deixo tudo por fazer. Não escrevo; não saio; não respiro. Exatamente: vivo a médio gás. Vivo menos para mim: matei o escrevente que cá vivia – ele vivia, já não vive. Talvez não o tenha morto, mas induzi-o num coma ocioso – o que é, igualmente, uma forma de não-viver.
      O isolamento é consolador. Consola, protege, e cria uma barreira impenetrável à volta daquilo que tendemos a fantasiar como imaculado: nós. Nós não queremos ser alvo de críticas; não queremos ser vulneráveis; não queremos ser frágeis.
      O isolamento é consolador: consola a dor. Sim: consola-nos a dor. Não há nada no mundo que mereça ser mais consolado do que a dor que sentimos quando não nos conseguimos isolar do que é problemático. O que nos é problemático precisa de isolamento. Pode ser uma atitude egoísta - até mesmo cobardolas – mas não passa de uma proteção do que nos é mais importante acolher: nós.
      Deixei de escrever há doze semanas e ainda hoje não sei explicar o que se passa comigo. O meu lado romântico culpa o romance; o meu lado ilógico culpa a crise; o meu lado escrevente – que julgo ser o mais imparcial – culpa a falta de atividade.
Sim: a falta de atividade. A inércia - ou a tia dela.
Qual a frustração de não podermos fazer aquilo em que somos realmente bons? Imensa. É como se, acidentalmente, entrássemos numa rua sem saída e, nessa rua, não nos fosse permitido nem fazer inversão de marcha, nem reduzir a velocidade do carro: terrível, simplesmente terrível. Chocaríamos. De frente. Cornada.
      Já não escrevia há doze semanas. Esse período não terminou aqui, mas decerto ouve uma interrupção nesse dormir, uma redução da velocidade do carro com que iria chocar.
      Sei, pela experiência que tenho – e por ser minimamente autodidata -, que o caminho é o fim do isolamento; se foi o isolamento que me trouxe aqui, a esta maresia de inspiração, é ele – ou a falta dele -, que me vai retornar.
      Já não escrevia há doze semanas.

«jd»

sábado, 18 de janeiro de 2014

Compromisso do Escrevente

       Não mudei, não estou diferente; contudo, hoje, sou uma pessoa diferente. Não foi o tempo que me mudou, foram as dores que vivi. As dores que vivi mudaram tudo em mim, talvez por terem sido mais passageiras e leves, talvez por terem sido não-dores, porventura por terem sido não-infelicidades. Agora? Agora vivo em felicidade e trago coisas novas.
       Corrijo: não trago só coisas novas: o meu papel, enquanto escrevente, é desordenar-me e trazer as coisas velhas à baila. Vou azucriná-las; vou permutá-las; vou reciclá-las - a melhor parte de ser um escrevente renascido é a de poder mostrar o quanto progredi. Não haverá, por isso, melhor abordagem que a de mostrar os meus erros: confrontá-los sem piedade, roubar-lhes aquilo que nunca ninguém ousou extorquir. E quem melhor que eu, o próprio escrevente, para leva-lo a bom porto?
       O escrevente, o Eu Escrevente, traz novos compromissos a esta casa: novos compromissos que, aparte da novidade, podem - e devem - criar um novo perfil para o Ser Escrevente. Prometo - porque é a única coisa que posso prometer - que velho padrão não será adotado.
       "Chega de chegar: atrasado. Chega de: chegar atrasado- estou cansado, exausto. Exausta está a minha inovadora criatividade, exausta e cansada e apaixonada. Eis-me apaixonado: violentamente apaixonado." - dizia eu enquanto dormia. Citei por me parecer que, por algum motivo que desconheço, essa frase não é - pelo menos conscientemente - minha.
       Induzi o Pseudomunduo a um coma profundo. Quase o matei; deixei-o no mesmíssimo ponto em que começo o In Munduo Veritas: apaixonado. Porém, se num tinha o "falso mundo a dois", no outro - neste novo - tenho um "mundo verdadeiro a dois"; não poderei assegurar que o blog - e o perfil - do escrevente recairá somente na perspectiva romântica a que o Pseudomunduo vos habituou. Não: só me comprometo a ser um escrevente mais diluído em dor; mais observador; mais denso de maturidade. Sou, também, mais crescido como escrevente: melhorei a minha escrita, a minha técnica; mas não penso abordar, ou gabar, essa característica como sendo a fonte da mudança do Escrevente. Não é; sou um escrevente diferente - não pela técnica de escrita aperfeiçoada - mas apenas porque vivo, sinto e respiro as coisas e as pessoas de uma forma que, outrora, não fazia sentido viver.
       Não garanto, desde já, poesia. Não garanto, desde já, a poesia do antes. Se a houver, será - naturalmente e irremediavelmente - distinta. Mudei: toda a poesia, em mim, mudou. Já não vivo a utopia apaixonada; vivo a derradeira varanda enamorada, da qual nunca pretenderei ocultar detalhe nenhum.
       Este blog contará, ainda, com uma assinatura diferente do Pseudomunduo: irei, sem fugir à responsabilidade de Escrevente-Autor, citar e criar alguns posts que não são da minha autoria. É óbvio que irei, como ditam as regras, usar todos os mecanismos de citação de Autor. Não quero plagiar ninguém, assim como nunca perdoaria quem me cita - por me apreciar - sem referir a minha autoria. É o autor quem mais merece ser defendido. Exatamente isso: é o autor quem mais merece ser defendido.
      É este o meu compromisso: aborrecer; maltratar (a língua de Camões, jamais) -vos; expor pensamentos; criar uma nova fase do Escrevente-João; viver, impacientemente, este romance (que ela certamente me irá perdoar, por toda a exposição que aqui lhe - e nos - irei propiciar).
      E, enfim, esperemos que coisas boas venham daqui, e daí. Viva a desonra de rascunhar!


«jd»