Previ que este dia chegaria: que, um dia, me teria de dedicar apenas a ti. Haviam indícios que viria o dia, ou a madrugada, em que te rascunharia sob moldes poéticos. Não quis esperar que chegasse o bloco de calendário em que toda a gente decide fazê-lo em ritual - isto porque, para mim, qualquer dia é dia bom para declarar o renascimento de um homem -, mas tu insististe que merecias isto.
Sonhei contigo na semana passada e, desde aí, não tenho sido homem. Sonhei que estava apaixonado e sonhei que, estando apaixonado - estando-te apaixonado -, era imortal. Não era homem: era deus.
E arrisquei-me. Em mim, eu - por ti -, só tu. Se tivermos algo mais do que o desconhecimento, tolero que nos desprendamos dele. Vendamos a nossa ternura na feira mais remota: a preço de ouro, com laços etiquetados a indicar a densidade do nosso valor. Se houver vivalma que a compre em leilão, fazer-me-há implorar que nos torne prisioneiros um do outro.
"Venda-me os olhos. Desvenda-me o ombro", sempre tiveste, em ti, mais poesia do que eu - sempre a tiveste a mais do que eu. Rapariga maldosa; inegavelmente encantadora. Não haverá charme neste mundo que se iguale ao teu. Doce - minha - mulher. Doce mulher - minha. Toda tu: minha.
Não foste - nem és - a minha primeira paixão; és, contudo, a minha paixão-primeira. Nunca descanso enquanto não te vejo e, talvez por isso, não ande a dormir bem. O pouco tempo que repouso, perco-o nos meus sonhos enquanto neles te procuro.
A minha paixão, por muito louca que seja, sobrevive de ti. Brotaste-me um sentimento que jamais algum homem desejou ter - uma dependência que nunca foi decretada na constituição do tempo ou do espaço.
O tempo e o espaço que se aflijam, pois iremos preparar-nos para devorar a carcaça do que resta deles: seremo-nos eternamente.
«jd»
Sem comentários:
Enviar um comentário