sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Trilho Seguro

      É árduo - por vezes invisível - achar o caminho certo. Precisamos de inverter posições, efetuar manobras complicadas, dar piscas e mudar de direção, para chegar a bom porto.
     Sinto-me frustrado quando não consigo encarreirar - quando não consigo correr um caminho - para voltar a jogar a vida dignamente; acredito, contudo, que mais displicente que isso é não conseguir conduzir os outros ao sucesso.
     Conduzir os outros ao sucesso parece-nos vago, principalmente quando não falamos de uma finalidade clara; por outro lado, quando somos pioneiros da gestão da carreira dos outros, a tarefa falha-nos redondamente. Porquê? Porque a vida, amargurada e eletrocutada vida, tende a ensinar-nos que não podemos fazer com que os outros evitem errar-lhe. Errar: é-lhes inerente - quer lhes seja um caminho, quer lhes mostre vir a ser uma aprendizagem. Roubar-lhes essa aprendizagem é, de grosseira forma, roubar-lhes a possibilidade de se encarreirarem; claro que custa, que nos arde, ver um amigo sofrer; ver um amigo sem esperança é como vermo-nos a nós mesmos, sem horizonte, sem fé.

     Quando um amigo erra, nós não somos responsáveis por esse erro; no entanto, quando um amigo erra, erramos com ele. A amizade é isso mesmo: ver o amigo errar e aceitar o seu erro - ainda que repetidamente.
     Se queremos amigos encarreirados no comboio do sucesso, temos de ter a humildade de querer errar com ele: um erro conjunto, um erro em equipa, em prol do crescimento mútuo.



«jd»

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Ardina

Ajuda-me um pouco.
A "Estátua de um Ardina"
Praça da Liberdade, Aliados
Porto
Poderás, surdo - e mouco -,
um singelo patriota ajudar?

Ajuda, permitindo-te vislumbrar,
sem que seja com pena e misericórdia;
ajuda: lendo-me este guião, esta cena,
que só reclama por limpar esta escória.

Tu, ó tu que lês:
o compromisso não é
somente de quem escreve
- Do Quem narra a O Quem serve -,
mas também de quem lê, apreciando,
o mundo que se lhe gira ocultando.

O mundo: oculta-se-nos o mistério,
esconde as noites, vulgariza o assédio;
abraça os maus convertendo os bons,
vulgariza os sons e incendeia as naus.

Nada é impermutável,
pois hoje já nada nos é abafado;
o mundo crê na verdade
um prodigioso final aclamado.

Conquanto nem todos os finais
dignos sejam de narração,
a verdade merece ser lida
para que nasça uma erudita multidão.

«jd»

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Imagiculação Precoce

      Estou há doze semanas sem escrever. Doze semanas. Uma dúzia: sem escrever.
      Perdi um pouco do escrevente que havia em mim – jamais o negarei. Perdi amigos, capacidades, tempo. Perdi tempo por ter ganho tempo. Sim: perdi tempo por ter ganho tempo.
      Antes não tinha tempo – ou, se o tinha, obstruía-o com futilidades – e tinha tempo para fazer tudo a (meu) belo prazer: para fazer tudo o que (me) dava prazer. Antes não tinha tempo para nada e controlava-o de uma forma autista e impressionante; arranjava sempre um tempinho para fazer isto e um tempinho para fazer aquilo – nada ficava por fazer.
      Agora, que já tenho tempo - para deixar de fazer as coisas em cima do joelho -, não o faço: deixo tudo por fazer. Não escrevo; não saio; não respiro. Exatamente: vivo a médio gás. Vivo menos para mim: matei o escrevente que cá vivia – ele vivia, já não vive. Talvez não o tenha morto, mas induzi-o num coma ocioso – o que é, igualmente, uma forma de não-viver.
      O isolamento é consolador. Consola, protege, e cria uma barreira impenetrável à volta daquilo que tendemos a fantasiar como imaculado: nós. Nós não queremos ser alvo de críticas; não queremos ser vulneráveis; não queremos ser frágeis.
      O isolamento é consolador: consola a dor. Sim: consola-nos a dor. Não há nada no mundo que mereça ser mais consolado do que a dor que sentimos quando não nos conseguimos isolar do que é problemático. O que nos é problemático precisa de isolamento. Pode ser uma atitude egoísta - até mesmo cobardolas – mas não passa de uma proteção do que nos é mais importante acolher: nós.
      Deixei de escrever há doze semanas e ainda hoje não sei explicar o que se passa comigo. O meu lado romântico culpa o romance; o meu lado ilógico culpa a crise; o meu lado escrevente – que julgo ser o mais imparcial – culpa a falta de atividade.
Sim: a falta de atividade. A inércia - ou a tia dela.
Qual a frustração de não podermos fazer aquilo em que somos realmente bons? Imensa. É como se, acidentalmente, entrássemos numa rua sem saída e, nessa rua, não nos fosse permitido nem fazer inversão de marcha, nem reduzir a velocidade do carro: terrível, simplesmente terrível. Chocaríamos. De frente. Cornada.
      Já não escrevia há doze semanas. Esse período não terminou aqui, mas decerto ouve uma interrupção nesse dormir, uma redução da velocidade do carro com que iria chocar.
      Sei, pela experiência que tenho – e por ser minimamente autodidata -, que o caminho é o fim do isolamento; se foi o isolamento que me trouxe aqui, a esta maresia de inspiração, é ele – ou a falta dele -, que me vai retornar.
      Já não escrevia há doze semanas.

«jd»

sábado, 18 de janeiro de 2014

Compromisso do Escrevente

       Não mudei, não estou diferente; contudo, hoje, sou uma pessoa diferente. Não foi o tempo que me mudou, foram as dores que vivi. As dores que vivi mudaram tudo em mim, talvez por terem sido mais passageiras e leves, talvez por terem sido não-dores, porventura por terem sido não-infelicidades. Agora? Agora vivo em felicidade e trago coisas novas.
       Corrijo: não trago só coisas novas: o meu papel, enquanto escrevente, é desordenar-me e trazer as coisas velhas à baila. Vou azucriná-las; vou permutá-las; vou reciclá-las - a melhor parte de ser um escrevente renascido é a de poder mostrar o quanto progredi. Não haverá, por isso, melhor abordagem que a de mostrar os meus erros: confrontá-los sem piedade, roubar-lhes aquilo que nunca ninguém ousou extorquir. E quem melhor que eu, o próprio escrevente, para leva-lo a bom porto?
       O escrevente, o Eu Escrevente, traz novos compromissos a esta casa: novos compromissos que, aparte da novidade, podem - e devem - criar um novo perfil para o Ser Escrevente. Prometo - porque é a única coisa que posso prometer - que velho padrão não será adotado.
       "Chega de chegar: atrasado. Chega de: chegar atrasado- estou cansado, exausto. Exausta está a minha inovadora criatividade, exausta e cansada e apaixonada. Eis-me apaixonado: violentamente apaixonado." - dizia eu enquanto dormia. Citei por me parecer que, por algum motivo que desconheço, essa frase não é - pelo menos conscientemente - minha.
       Induzi o Pseudomunduo a um coma profundo. Quase o matei; deixei-o no mesmíssimo ponto em que começo o In Munduo Veritas: apaixonado. Porém, se num tinha o "falso mundo a dois", no outro - neste novo - tenho um "mundo verdadeiro a dois"; não poderei assegurar que o blog - e o perfil - do escrevente recairá somente na perspectiva romântica a que o Pseudomunduo vos habituou. Não: só me comprometo a ser um escrevente mais diluído em dor; mais observador; mais denso de maturidade. Sou, também, mais crescido como escrevente: melhorei a minha escrita, a minha técnica; mas não penso abordar, ou gabar, essa característica como sendo a fonte da mudança do Escrevente. Não é; sou um escrevente diferente - não pela técnica de escrita aperfeiçoada - mas apenas porque vivo, sinto e respiro as coisas e as pessoas de uma forma que, outrora, não fazia sentido viver.
       Não garanto, desde já, poesia. Não garanto, desde já, a poesia do antes. Se a houver, será - naturalmente e irremediavelmente - distinta. Mudei: toda a poesia, em mim, mudou. Já não vivo a utopia apaixonada; vivo a derradeira varanda enamorada, da qual nunca pretenderei ocultar detalhe nenhum.
       Este blog contará, ainda, com uma assinatura diferente do Pseudomunduo: irei, sem fugir à responsabilidade de Escrevente-Autor, citar e criar alguns posts que não são da minha autoria. É óbvio que irei, como ditam as regras, usar todos os mecanismos de citação de Autor. Não quero plagiar ninguém, assim como nunca perdoaria quem me cita - por me apreciar - sem referir a minha autoria. É o autor quem mais merece ser defendido. Exatamente isso: é o autor quem mais merece ser defendido.
      É este o meu compromisso: aborrecer; maltratar (a língua de Camões, jamais) -vos; expor pensamentos; criar uma nova fase do Escrevente-João; viver, impacientemente, este romance (que ela certamente me irá perdoar, por toda a exposição que aqui lhe - e nos - irei propiciar).
      E, enfim, esperemos que coisas boas venham daqui, e daí. Viva a desonra de rascunhar!


«jd»