sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sôfrega

Quando nos pomos
a trocar juras de amor,
um somos - um:
somos um beijo,
no aleijo desleixado,
carne crua que cozinhámos;
somos o pretérito do futuro
que consumámos.

Se confessas que a vontade te bate
e a saudade te é pesada no combate,
dizes, então, que o meu amor te é
jardim pintado a verde-esmalte.

Insaciável: és-me os planos
- os planos que idealizas para o agora.
E, já permeável, procuras pela hora
que nos enlaçará por muitos anos.

«jd»

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Abstrair é Trair

      É ridícula: a vida.
      É ridícula a forma como a vida nos despeja as coisas más: não avisa; não sente pena; não perdoa; não poupa - não nos poupa - a nada. Despeja, carrega, tudo o que nos é prejudicial e não decreta uma forma pouco hostil de o fazer. Se é para fazer sofrer, a vida é intolerante. Faz sofrer de uma forma tão indelicada que nos abalroa com toda a força. Há comboios que são mais subtis do que o choque que o sofrimento nos provoca.
      A ausência de sofrimento é o estado prematuro da doença que a vida nos é. Esse vírus, essa doença, tão perspicaz, aparece sempre quando não contámos com ela. O sofrimento só aparece quando a vida nos ilude, nos enche, com coisas boas - coisas mesmo boas. Quando a vida te premiar com coisinhas lindas e boas, suspeita. Suspeita dela: é o conselho que aqui deixo.
      Eu suspeito da vida nos momentos em que estou triste e amargurado. Já o faço tarde - devia ser menos ingénuo: devia estranhar quando uma sucessão de coisas boas aparece em cadeia, mas não - a vida moldou-me desta forma para eu não ter como me defender. Filha da puta.
      A vida é ridícula.
      A vida trama-nos e depois, se queremos sair dessa teia meticulosamente engendrada, temos de nos abstrair da merda que ela nos plantou. No que a mim me diz respeito, tenho concluído que abstrair-me é trair-me. Abstrair-me dos meus problemas é trair tudo aquilo em que mais quero pensar: no real; no eu; na verdade do que me rodeia; no monte de merda de "desafios" que a vida "planeou" para mim.
      Abstrair-me é trair-me.
      Quando me abstraio das questões que me consomem, rompo o fio que me liga ao mundo térreo - crucifico os pensamentos em prol de uma errónea sensação de bem-estar.
É errado pensar que fugindo aos temas que doem somos mais serenos. É errado - é a coisa mais errada - pensar que precisamos de nos esquivar de matutar e mastigar as indisposições para sermos, ainda assim, - moderadamente - felizes.
      Não. Não.
      Se ambicionamos alguma paz de espírito, temos de ter alguma ferocidade para moer e remoer os assuntos que nos moem e remoem: só assim conseguimos a abstração basilar para não nos trairmos. Abstrair-me é trair-me. Há-de sê-lo assim até que a vida decida parar de me ridicularizar.
      As coisas más vêm e não vão. Aparecem - sem aviso prévio - e não há forma de as expulsar. Passamos os momentos bons a semear felicidade em nós e nos outros. Quando a vida estipula que essa felicidade tem de acabar, não é somente a nossa que acaba: ninguém, à nossa volta, sai impune. Se plantaste - se contagiaste - a tua felicidade a alguém, ficaste inteiramente responsável pela ligação que criaste. Gerar felicidade numa pessoa acarreta uma responsabilidade tão ínfima e chocante que, quando o teu momento áureo se desvanece, a felicidade da pessoa com quem a partilhaste também sucumbe.
      É o dom, ou a maligna dádiva, que a partilha traz.

«jd»

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Carta de Amor

      Previ que este dia chegaria: que, um dia, me teria de dedicar apenas a ti. Haviam indícios que viria o dia, ou a madrugada, em que te rascunharia sob moldes poéticos. Não quis esperar que chegasse o bloco de calendário em que toda a gente decide fazê-lo em ritual - isto porque, para mim, qualquer dia é dia bom para declarar o renascimento de um homem -, mas tu insististe que merecias isto.

      Podia dizer-te que planeei, ao mais ínfimo pormenor, tudo o que te ia escrever. Podia dizer-te que escrevi - isto tudo que para aqui escrevi - sem rever as linhas, sem adicionar condimentos, sem verter uma lágrima e sem perscrutar uma única sinfonia de amor: e posso - posso dizer. Fi-lo.

      Sonhei contigo na semana passada e, desde aí, não tenho sido homem. Sonhei que estava apaixonado e sonhei que, estando apaixonado - estando-te apaixonado -, era imortal. Não era homem: era deus.
      E arrisquei-me. Em mim, eu - por ti -, só tu. Se tivermos algo mais do que o desconhecimento, tolero que nos desprendamos dele. Vendamos a nossa ternura na feira mais remota: a preço de ouro, com laços etiquetados a indicar a densidade do nosso valor. Se houver vivalma que a compre em leilão, fazer-me-há implorar que nos torne prisioneiros um do outro.
"Venda-me os olhos. Desvenda-me o ombro", sempre tiveste, em ti, mais poesia do que eu - sempre a tiveste a mais do que eu. Rapariga maldosa; inegavelmente encantadora. Não haverá charme neste mundo que se iguale ao teu. Doce - minha - mulher. Doce mulher - minha. Toda tu: minha.

      Não foste - nem és - a minha primeira paixão; és, contudo, a minha paixão-primeira. Nunca descanso enquanto não te vejo e, talvez por isso, não ande a dormir bem. O pouco tempo que repouso, perco-o nos meus sonhos enquanto neles te procuro.
      A minha paixão, por muito louca que seja, sobrevive de ti. Brotaste-me um sentimento que jamais algum homem desejou ter - uma dependência que nunca foi decretada na constituição do tempo ou do espaço.
      O tempo e o espaço que se aflijam, pois iremos preparar-nos para devorar a carcaça do que resta deles: seremo-nos eternamente.
«jd»

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Serpentear

Pitão-da-Birmânia
Serpenteamos o amor
como dois vencidos;
aplanamos a serpente
como verdadeiros perdidos;
fazemo-nos amantes
para jazermos como serpentes,
que trocam de pele
para permutar os antes.

Somos um contra os mundo.
Sim: somos um contra Os mundo.
O que será deste nosso sonho
quando a hora nos virar segundo?

Amor, serpenteemos o amor:
só o amor merece ser serpenteado.
Se nos tentarem envenenar,
mostraremos quem merece
ser – por justiça - envenenado.

«jd»

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"Sincero"

     "Não só te admiro pela pessoa que és, mas também pela pessoa que me tornaste.
     Às vezes temos de admitir que grande parte do carinho que nutrimos pelas pessoas não provem apenas da pessoa que elas são, mas da pessoa que somos quando estamos com ela.
     Eu sou tão eu quando a água é mar, quando estou contigo, e acho que esse é o maior fundamento para uma amizade.
     Gostava que as pessoas de quem gosto assim tanto se vissem pelos meus olhos, para verem o que vejo quando olho para elas: não os erros que matutam, não as imperfeições que possuem, não o passado que as persegue, mas aqueles bocadinhos de alma, de ser, de valor, que a maior parte das pessoas não vê, nem mesmo eles mesmos que vivem no seu corpo.
     Tu és o exemplo disso. Tu não te vês pelos meus olhos, nem tão pouco pelos teus. És bem mais do que os erros que cometeste e mereces o dobro daquilo que te sujeitas a receber. Isso é típico das pessoas verdadeiramente boas (que são escassas! há pessoas boas, resmas delas, mas não verdadeiramente boas): aceitar o pouco que recebem e ser feliz com meia reciprocidade.
     Não sejas uma pessoa verdadeiramente boa; modera-te: dá o que recebes, nunca mais, nunca menos, exatamente o que recebes, assim estarás sempre na medida certa.
     Eu sei que não é fácil; não podemos mudar quem somos, nem como somos. Nascemos iguais, mas moldámo-nos de acordo que os princípios que retemos e perante aquilo que passamos e tu tiveste a sorte (talvez infelicidade para ti) de te tornar maior, interiormente, do que aquilo que desejavas.
    Cada coisa a seu tempo; um dia vais ver que todos os passos que deste em falso, todas as vezes que desejaste ser comum, te levaram ao rumo certo.
    Há quem nasça grande."



Cláudia Alves, "Sincero" (adaptado), Dito ao Acaso (blog), outubro 2013 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

É Sempre Pouco Para Quem É Pouco

      O inverno ajuda a discernir entre quem é rico e quem é pobre: o primeiro, enriquece na lareira que o seu capital concedeu; o segundo, cinge-se a esmiuçar as migalhas enregeladas que Deus lhe permitiu. João pendurava-se na linha ténue que separa o dador do donatário: a singela fronteira que dividia o rico do pobre – ao nosso jovem nunca lhe faltou o que comer, nem formas de vencer o frio.
      Naquele solstício – em que as árvores se agasalhavam em casacos de neve -, João recebeu uma carta que lhe trouxera uma triste novidade: a sua tia Clara, senhora de um latifúndio de vinha no Norte, havia sido vítima da sua idade. Viúva e sem descendentes, decide deixar todos os seus bens ao seu único sobrinho - não fosse o Estado roubar-lhe a centenária herança.
      Num ambiente cortado de frio, João dirige-se até à terra da sua tia para lhe prestar uma última homenagem porque, embora nunca a tivesse conhecido na intimidade, não deixava de ser família.
A cerimónia decorreu como qualquer ato fúnebre decorre: negros vestidos de amigos e lágrimas a escorrerem pessoas.
      Sem ligações à vinha, João decide vender a quinta e recomeçar a sua vida. Compra casa e fixa-se em Penafiel; trata de arranjar cavalo, para que nunca ficasse privado de passear. Agora abastado, passou a refugiar-se em si mesmo. Na vila, especulava-se sobre quem seria aquele homem que, envolto em mistério, nunca interagia com o povo.
      Um dia qualquer - como todos os dias são quaisqueres -, alguém descobriu que o João era dono de uma imensa fortuna. Como é previsível numa terriola, quando se quer guardar um segredo, cedo o boato voa de boca em boca como vocábulos baratos de sopeira em sopeira. E foi o que aconteceu: em coisa de duas semanas, João recebeu à porta dezenas de pedintes que, tal como ele já vivera, também (sobre)viviam no limiar da pobreza.
      João, que teve uma célere ascensão, socorreu grande parte dos populares, emprestando-lhes o seu dinheiro; no entanto, passou a cobrar juros altíssimos sobre essas “doações” monetárias. Quem antes era pobre, quem antes nada tivera de fizer para deixar de o ser, hoje não se contivera com a abastada herança que havia recebido. João, que também já vivera da dieta das migalhas, tornara-se impiedoso para o estrato social do qual provinha. O que tinha, que era muito mais do que o que podia gastar, já se lhe tornara pouco.
      E é sempre pouco para quem é pouco.

«jd»
Um primeiro conto:
"O João é ganancioso"

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Pastilha Elástica

     Pastilha elástica. Quando as pessoas dizem que são felizes, usam o termo "feliz" como uma força de expressão - como uma teoria de sublimação do próprio estado de espírito. Dizemos que estamos felizes porque nos contentamos com os breves momentos de excitação que vamos tendo.
     Sim: quero cair - sempre o quis. Quero cair a pique e não quero saber de mais nada e, se o fizer, nem quero saber de mais ninguém. Quero cair fundo ao ponto de deixar de ter como acender o interruptor. E quero ficar caído durante algum tempo.
     Só quem chega a uma profunda infelicidade é que se vê com genica para aproveitar melhor a pouquinha satisfação que se lhe surge depois. O gajo infeliz é o único que, depois de conhecer o fundo da garrafa, se permite a subir até ao gargalo. Só quem fica infeliz é que se torna feliz. E eu quero cair para ser feliz.
     Nunca serei feliz enquanto continuar a ambicionar mais além da felicidade. Quando penso que cheguei à felicidade, não me contento com o que tenho; quero mais. Quero sempre mais além da felicidade. Eu nunca serei feliz. Há momentos que me deixam contente, aliviado, desinibido, libertado, minimamente realizado: nunca feliz. Eu nunca serei feliz enquanto continuar a ambicionar mais além da felicidade.
     Tu és o meu maior projeto até ao dia em que vier a vontade de ter filhos contigo. E, no dia em que isso acontecer, hei-de - irremediavelmente - arranjar outra birra qualquer que me torne um miserável enquanto não a satisfizer. E há-de ser assim, nesse tom fatídico, eternamente.
     Sou um gajo insatisfeito. Não me fales de felicidade: a única coisa que eu sei acerca disso são aqueles milésimos de segundo em que consegui atingir um propósito. Quando esses milésimos de segundo são fuzilados, fico infeliz de novo: até conseguir atingir um novo qualquer semi objetivo. Eu estou bem contigo - esta paixão não abre espaço para mais paixões - mas não sou feliz.
     Há muito tempo que não me sentia amado: contigo, sinto. Se a felicidade se cingisse apenas a nós os dois, à nossa relação, eu seria feliz. Eu sou feliz contigo, mas não sou feliz.
     Nunca serei feliz. Vai faltar sempre uma merda qualquer.
     O que falta agora é a merda de um croissant. Resolvia metade dos meus problemas. Ia ocupar-me de tal forma que não pensaria em novos objetivos durante um bom bocado de tempo.
     Depois do croissant viria o sumo de laranja - para empurrar - e acabava no cigarrinho.
     Depois de acabar com o cigarro, apareceria o café. A pastilha elástica.
     A pastilha elástica: só por insatisfação é que pediria uma pastilha elástica.
     Pastilha elástica.

«jd»