domingo, 31 de agosto de 2014

Ainda Só Não Temos Os Seiscentos

Já temos o tempo do nosso lado;
ainda só não vemos o espaço, meu amor.

Calçada Portuguesa - coração.
Falam-nos fadados nas estrelas,
patenteados na calçada?, porventura
estaremos também,
ou então seremos escapadelas de nós,
hábitos cheios e desabitados
na rotina de estarmos sós.

Já temos o tempo do nosso lado;
ainda só não vemos o espaço,
em ferro e aço haveríamos
de os fundir um dia,
e prometo-te que seria com toda
a acalmia do mundo.

Desfrutaríamos do céu,
do toque agreste do chão, senão
seria doutra forma qualquer,
até mesmo na ausência amarga,
essência nossa tão reereada,
de nos fantasiarmos mais próximos
do que do ponto sábio tonto em que
feitos nos erigimos nascidos do nada.

Já temos o tempo do nosso lado;
ainda só não temos os seiscentos, meu amor.

«jd»

sábado, 16 de agosto de 2014

Horizontar Podia Ser Um Verbo

Horizonte é um destino
para o qual nos nadamos,
um espaço que em extensão
nos levitamos;
futuro limitado e imprevisível,
contam-nos os velhos
de ontem,
uma linha que limita o olhar,
crêem-no os céticos
de amanhã,
mas sem dúvida uma paisagem
que nos aumenta o sonho
de hoje.

Horizontar podia ainda ser um verbo
e bem que podia ser daqueles que é
pleno de satisfação:
de emoção?, também.

Proponho que
até ao dia, até esse dia,
horizontaremos na vertical
da espinha dorsal do nosso amor e,
quer estejamos deitados ou não,
vejamos no horizonte cada singular linha
de um nosso amor
próspero mas agasalhado.

E, atrás dessa linha que separa
o que já se vê
daquilo que ainda não se conhece,
sejamos nossos,
sempre um do outro,
mas nunca jamais outro do um.
Sabemos que não nos somos primeiros,
mas queira Deus que nos sejamos últimos.

Deus horizonta melhor do que ninguém
e patrocina os auspícios tenebrosos
daqueles que se sujeitam pouco ao erro,
mas se for para correr o risco
do anónimo e profano
que seja contigo,
meu amor,
porque há uma linha a separar o bom
do excecional,
e nós merecemos horizontar-nos
tanto
ou mais do que ninguém.

«jd»

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Adeus Pino Leve e Cromático

Hajam corações partidos, sobrolhos,
chocalhos, peças avariadas
e tu, meu amor,
para que o meu equilíbrio
não fique comprometido.

Entretido, faço o que faço para não ser
assertivo a toda a hora.
Faço o que faço para,
pelo menos por agora
- e sob o fado incisivo e dramático -,
deixar de ser um pino leve e
cromático, informal, em desatino.

Na balança meço o tempo,
peso o espaço e amplio a alma:
infrutífera tentativa para me
lapidar a mim mesmo:
até nem era mal pensado. Que dizes?

Os outros desgastam-me, mas não tu, meu amor,
que me temperas, que me aprimoras,
que me fazes um homem melhor;
até um devoto pai futuro, porventura;
trabalhador exemplar, se as coisas melhorarem;
e a esperança de me incrementar como humano:
até nem era mal pensado. Que dizes?

Diz-me qualquer coisa, por favor,
e pode ser mesmo qualquer coisa,
porque sou estou vou receptivo
a um dia melhor,
ou a um dia qualquer
desde que não seja pior que o de ontem.

Hajam corações partidos, sobrolhos,
chocalhos, peças avariadas
mas essencialmente tu, meu amor,
para que o meu equilíbrio
nunca fique comprometido.

«jd»

sábado, 2 de agosto de 2014

"Inês"

"Todo o poeta ou escultor,
todo o ator ou escritor,
sonha um dia amar assim:
sonha ter alguém para si.

Todo o cantor, compositor,
largava tudo por este amor:
por um dia amar assim,
por um beijo num banco de jardim.

Mas o amor não é para qualquer um:
ser artista não é uma vantagem.
Os artistas amam um dia
vendo amor apenas de passagem.

Quando o poeta sentir a dor
da mais antiga história de amor,
só então vai entender
porque Inês amou até morrer.

Mas o amor não é para qualquer um:
ser artista não é uma vantagem.
Os artistas amam um dia
vendo amor apenas de passagem.

Vendo amor apenas de passagem."

Poema e música de Luísa Sobral,
interpretado em conjunto com António Zambujo.