quarta-feira, 27 de maio de 2015

Já Fui Homem

     Quando irei encontrar alguém que não me mate todos os dias? O amor é algo bom, mas a paixão acaba por ser melhor.
     Tu és a peça, o amuleto, a chave sobressalente de uma mecânica híbrida e inteligente. És o fundo, o orçamento, pano traseiro de uma aventura que mata qualquer lamento.
     Não questiono os teus truques, não ambiciono o teu poder, não aclamo os teus vassalos e muito menos me dou à tragédia para te fazer sofrer. Sou tua filha, sou tua mãe, fazemos amor às vezes e não contamos a ninguém - não haveria quem acreditasse no incesto de rezar à hora de pôr o suor dos corpos a marchar.
     És viúvo e eu sou solteira. Morreu o meu marido, de enfarte - julgo eu. A tua namorada deixou-te para mim, meu Deus. Há gente muita parva, realmente.
     Não há grandes ciúmes, assumi há bem pouco tempo que a missionação era para mim. Deus é o meu único amor e sou-te ateia por convicção.
     Amo-te, meu Deus.
     A homossexualidade é um tema delicado: a antropologia rejeita, os católicos nem querem ouvir falar disso, mas os poetas têm mostrado um certo apetite por esse tema.
     Ludibria-me, homem, porque sou tua. Sim: sou tua. Tua mulher. Claramente, tua mulher.
     Aceito a tua metade - deixa a outra para quem amas. O amor é algo mesquinho, mas a paixão acaba por ser pior. Fizemos amor na estação dos comboios e houve um silêncio quando te vieste.
     O orgasmo é uma locomotiva e nós somos todos feitos de vapor.
     Entreguei-me em pedaços e exigi somente partes. Sou lésbica, sou freira, sou assassina. O meu nome é parecido com o teu. Deus não nos dotou, ficou lá para um canto e amuou.
     Não quero encontrar quem não me satisfaça, ou quem me baixe o ego, ou quem finja, ou quem esteja longe; desilude-me, por favor. O amor é algo mesquinho, mas a paixão vai permitindo desilusões.
     Não quero alguém que me faça sentir viva todos os dias; quero alguém que me mate todos os dias melhor que na véspera.

«jd»

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Eurritmia

- O sexo dos anjos é paradoxal, mas o amor é imutável.
- Não. O amor é a premissa mais elegante, e ilegal, de dizer que a loucura atingiu a sua máxima maturidade.
- Está no ponto.
- O nosso amor está no ponto.

Abuja, Asmara, Catmandu.
Há dois amores na sala; é uma relação a três, mas a mármore fresca do chão não conta - há estatísticas esquisitas quando se faz amor de maneiras tão e tão criativas.
Magoam-se, ferem-se, corrompem-se, aniquilam o que ainda sobrou da destruição massiva do amor e acabam sempre a fazer mais sexo. Pessoas trabalham, rotinas desgastam-se, o tempo é sugado pela gravidade do espaço entre nós posicionado, e o Universo não tem dado grandes tréguas à matemática religiosa.
Recalcamos aspectos verosímeis da existência, acrescentamos um pontinho ou outro à nossa demência, e resistimos à sociedade perversa, idiossincrática e vertiginosa.
- Está qualquer coisa boa acolá. Fala comigo.
- Não quero conversas. E discutir não serve para nada.
- O sexo dos anjos é paradoxal, mas o amor é imutável.
- Não. O amor é a premissa mais elegante, e ilegal, de dizer que a loucura atingiu a sua máxima maturidade.
- Está no ponto.
- O nosso amor está no ponto.
A maioria das pessoas rejeita estar numa relação perfeita, porque é mais fácil manter um amor estável se mostrar uma pitada de instabilidade.
No anexo deste mail deixo uma lista de coisas capazes de derrubar um bom amor.

Coisas capazes de destruir um bom amor:
1.
2.
3.

(lista por concluir)



«jd»

domingo, 10 de maio de 2015

Acidulando o Sexo

Consumido pela linearidade
invariável da poesia terrestre,
anacrónicamente disperso
entre as nuvens que não se vêm
porque a noite incorpora o verso.

A lua está de luto
e o sol vê a sua luz aos quadradinhos.
Nesta Era da Modernidade,
para que serve a polícia,
senão para assegurar a liberdade?

Censuras manuscritas,
analógicas, pitorescas e digitais.
Há amor nas esquinas das ruas,
mas jamais nas catedrais.

A prostituta observa-me,
oferece-me o seu ofício,
nota que eu sou poeta e
pede-me que a cante.
Deus criou esta - e outras criaturas -
para que fosse minha acompanhante.

Deserto a praia,
acampo na cidade,
desligo o ruído da chuva
e aumento a sinfonia do metal.
Sei que nada faz sentido, e é por isso
que já nem sei como me sentir mal.

Censuras manuscritas,
broches, minetes e anais.
Há amor nas esquinas das ruas,
mas jamais nas catedrais.

«jd»

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Li a Bíblia e Não Gostei

     O céu está lá, o céu estalará. Há medida que o céu arrefece, tentamos aquecer-nos debaixo dele. O sol é fotografado a negativo, a luz já não se faz e desaparece, e o quotidiano tende a não recuperar.
     Existem pessoas ainda com fôlego, mas sem grande margem para viver. A sobrevivência não é póstuma, a sobrevivência é hoje.
     Criar genericamente para destruir altruísticamente. Motivar e desiludir. Ortodoxos e protestantes, religiosos e ateístas amantes. O cerne ficará sempre por saber. O click, a motivação, a razão do ser. Tecer para crer?
     Há que ver para crer. E para querer, também. Os projetos, o mal, as convicções, o bem: são tudo alienígenas a cozinhar - de rabo para o ar.
     Tsunamis de palavras derrubam a barragem que não pára o rio que nos pensa. Há bares fechados, museus parasitados, mães inférteis e filhos por nascer. Há amores chegados e há amores partidos no aeroporto da conjetura. Já vi amores perdidos e já vi solteiros apaixonados: uns forçavam-se para se agarrar, outros pediam para serem agarrados.
     Detemos muita coisa, mas não detemos o amor. Admitimos ter a coragem, mas jamais a emoção. Haverá porventura o dia em que o céu nos caia no chão.
     Deus tem gostado do que criou; eu li a Bíblia e não gostei.