Não estou em nenhum deles, mas hei-de ser um homem tanto parecido amanhã: já não darei a esmola, já não guiarei os franceses e os dinamarqueses pelos pontos de referência da cidade, e jamais gastarei sete euros numa viagem de dois quilómetros num táxi de 1992. Vou a pé, vejo o mundo a disfuncionar-se, vejo as gentes a perderem-se e escuto a natureza acorrentada pelo cimento citadino. Oxalá fosse eu um visionário, uma sombra qualquer, algo que nada nem ninguém perscrutasse, olhasse, recrutasse. A vida é tão boa e nós tão maus. Porquê é que o mundo não se melhora de vez em quando?
Os políticos fingem saber, os jornalistas simulam expor, os poetas embelezam as palavras, os jovens apregoam novas regras que redefinem o mundo. Mas o mundo não é pioneiro em quase nada, as pessoas quase não amam, os bebés caem de pára-quedas, os animais subvivem em apartamentos, as flores não têm o espaço que precisam, e o amor moderno não tem contrato vitalício.
A religião é um problema muito sério porque ensina doutrinas radicais a pessoas simbolicamente banais. Os manuais escolares tardam a desaparecer e a boa comida não se serve nos melhores restaurantes. Porquê é que o mundo não se melhora de vez em quando?
A boa música ainda existe, mas já não satisfaz; os violinos são mal tratados, os pianos apunhalados, e a faculdade devia - devia - ser só música e cinema. A paz devia ser imperativa - devia -, mas as crianças cresceram demasiado e o rancor apareceu-lhes na fase adulta - para quê tantas armas num mundo onde existe o sexo?
Ontem vi uma tulipa num jardim e beijei-a. Ontem vi uma tulipa num jardim e amei-a. Ontem vi uma tulipa num jardim e soube que ela era nossa amiga. Não nos compreendemos completamente, mas julgo que um dia a natureza tratará de nos desculpar. O universo é supremo e toma sempre as melhores decisões.
Eu amo-te e tu amas-me. Não sei porque o mundo não se melhora de vez em quando, mas suspeito que ele espera que sejamos melhores do que fomos até aqui. Perdoemos o velho experiente, que ele não sabe muito sobre o que é calcar o embaraço de precisar de pedir para matar a fome; e perdoemos a ignorância dos estrangeiros, que as agências de viagem não sabem onde são os sítios mais bonitos e secretos para se ver o pôr-do-sol sobre o Douro; e o taxista, que sempre foi cobrador, mas nunca sentiu cobrado.
A vida é uma questão de perspectiva e eu procuro quem tenha tanta compaixão quanto eu. Na cidade existem paisagens que ainda não foram adulteradas, são é ainda desconhecidas; existem virtudes que não tenham sido criadas pela mulher, mas pela mãe-natureza; e sorrisos ou gargalhadas construídas, não só pelas crianças, como pelos homens e mulheres do amanhã.
O mundo devia melhorar-se de vez em quando; por enquanto o único primor és tu, meu doce.
«jd»