terça-feira, 25 de agosto de 2015

Com Amor, Maria

Têm sido um verão tão frio, Lucas.

     São apenas cartas. São escritas para outras pessoas, de outras pessoas, sobre outras pessoas. Eu e tu somos pessoas - porque não temos as nossas cartas? Porque não te posso chamar pelo teu nome? Lucas. O teu nome é Lucas. Porque nunca te escrevi uma carta, Lucas? Porque é que sempre que escrevo uma carta nunca é para ti, Lucas?
     Está tudo a ficar tão diferente e, num piscar do olhos sintético e sem sentido nenhum, o mundo começa a ser desigual. Achava que o nome do planeta era paralelo ao ato de estar conectado e preso pelo peso que sinto da gravidade nos meus pés, e no nosso chão.
     A minha bochecha, os teus lábios, e podemos concordar que tudo se transforma. O mundo muda, o mundo deixa de ser mudo. O meu nome continua a ser Maria, o meu subconsciente continua a ser teu. Escrevo tanta coisa e é engraçado que tudo é revisto por ti; à excepção desta carta. Os orgasmos são inertes e duradouros. É o carisma do teu olhar. É quase sempre o carisma do teu olhar. Ninguém me fez sentir uma mulher antes de ti. E eu nem sequer me lembro de ser uma mulher antes de ti. Sinto-me, muitas vezes, só tua desde sempre. Propriedade privada.
     Pessoalmente, nunca tinha visto um pôr-do-sol tão bonito quanto este. Os meus olhos verdes, os teus acastanhados. O meu cabelo, que é o teu amado trigo, amordaçado atrás pelos óculos de sol enquanto me fotografas. Um dia mato-te. Um dia termino com a tua vida. Eu mato-te. Amo-te tanto que juro que ainda te mato. Amo-te tanto que um dia ainda nos mato aos dois. É irresponsável estar tão apaixonada. É a única imprudência que toda a gente me permite a ter. Está tudo louco por não me impedir de viver isto. Deviam aplicar-se certas coimas a homens como tu que me fazem sentir uma mulher como eu.
     Sempre nos inconformamos com a possibilidade de não vir a durar para sempre. Projetavamo-nos nos sonhos num do outro. Não há sonhos que venham a conta-gotas. São ilimitados, transcendem sempre os que nos sugam, os que nos rodeiam, o nosso presente, as histórias que já vivemos. E, quando termina, não há mais nada. Deixam de haver sonhos. Deixamos de crer que somos capazes de viver tudo de novo, de ter as mesmas sensações como pioneiras. Sentir paixão, empatia, companheirismo, como novidade. Estar apaixonada foi a melhor coisa que já me aconteceu e não estar apaixonada foi a melhor coisa que já te aconteceu.
     Acontece tudo tão rápido: amamos rápido, somos tudo o que temos de ser rápido, e despedimo-nos rápido. Estamos sempre atrasados para chegar a lado nenhum. É o tráfego e o batimento cardíaco, meu querido. Eu já estive lá e tu também já lá estiveste.
     Já amamos pessoas diferentes que eram simétricas para nós. Ontem fomos compatíveis: nós os dois. Também já fomos compatíveis a outras pessoas, em algum momento. É engraçado como, hipoteticamente, seria possível juntar algumas delas umas com as outras. Imagina como seria: as tuas pessoas e as minhas pessoas, juntas. O teu passado e o meu, unidos. Os meus homens e as tuas mulheres, casados.
     Isto é só uma carta. Enviei-ta, Lucas, sem a perfeita noção de que seria uma carta. Já são seis da tarde e ainda não recebi a tua resposta.

Com amor, Maria.


 
«jd»

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Anda Comigo Ver O Adeus

     Meu homem, toda a gente diz que o nosso jogo terminou, que as hipóteses são tão reduzidas como o tempo que nos resta. O Porto expulsou-te e os quase todos os barcos partiram contigo abordo. Este é um lugar onde já ninguém pertence senão eu - e a esperança que renasce com a tua ida. Outras chamadas serão feitas; encontramo-nos mais tarde no bar do costume para beber a cerveja do costume. Centenas de centeios e centenas de hidrogénios estragados, abarrotados, arrotam a amargo na vila dos legos coloridos e estragados. Era rotina disfarçarmo-nos de crianças e brincar como crianças e comer e sujar e cair e queimar e amuar como crianças mas depois tivemos uma.
     Leixões dói, mas a foz do Douro é mais arrebatadora. Onde fica a saudade nostálgica quando nos partimos para ventos diferentes dos nossos? Não sirvo para mais nada de especial senão para ser tua. Os meus cabelos sujos acorrentados na tua boca suja. "Entrelaça as veias ou o sangue continuará a correr feito maluco - disse-te - e despacha-te que os meus pais estão a chegar e já nos viram nus vezes que chegue." Nunca entendeste, pois não? É que pegaste no carro e fomos juntos ver os barcos: era demasiado cedo para acordar e demasiado tarde para pecar. Fizemos amor de uma forma peculiar; tu nunca aceitas um não, pois não? A caravana vestiu o dia de preto e os vidros escurecidos desvendaram luzes perpendiculares. Estás dentro de mim e o vinho dentro de ti também. A tua face transcende os teus lábios mas ainda não sei como largar a carne dos teus beijos.
     Toda a gente sente que isto é ridículo e eu tenho a exata mesma sensação. Livros de banda desenhada alegram o que sobra da saudade. Sou a mulher que querias que fosse? És de todos os lugares diferentes deste. Não és nem de perto com quem sonhei: és todos os meus epílogos e todos os meus prólogos. Livros e embarcações que ninguém lê; todavia tu.


«jd»

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Órfão

      Isto que costumo digitar não vem a propósito de nada. Escrevo com o indicio de que ninguém me leia de verdade profundamente. A caixa de fósforos está sempre à mão, as chaves do carro ficaram penduradas algures e nem levanto o espírito para as procurar. Viviei sempre em tempos verbais distintos dos de toda a gente. Ajudem-me-ei nisso, por favor. Convulsões levaram de mim a saudade dos anos em que só tu viveste por mim. Desertos de luz fizeram-te menos claro. Sombras, reminiscências de escuros fotografados, e as tuas parecenças pregadas às minhas parecenças. Um dia ainda pego no carro e ando por aí fora. Não me desafies, que sei meio caminho até ao Algarve.
       És a única coisa de que nunca falo com ninguém.
      Amei-te um bocadinho, na plural disponibilidade que eu tinha de te imaginar sempre melhor do que eras. Gasolina: é o que o carro precisa para me dar mais álcool e para te dar mais sorrisos rasgados. Os óculos de sol são novos, passeio-os quase sempre perto da Rua das Flores. Misericórdia, costumas ir lá? Há, em algum dos mundos irreais em que vives, alguma compaixão pelo que deixaste no mundo moral? Tudo acaba, a mulher continua algemada em sangue no meio do passeio, o nome da mãe no centro da Praça dos Leões, e a minha solidão agrupada faz-me querer ser um rapazito melhor. Nego uma inteligência maior; nego viagens lendárias; céus demasiado estrelados. Não há romance nenhum que já não tenha rejeitado.
      Até hoje nunca assentei; e não será com certeza amanhã que o irei fazer.

domingo, 2 de agosto de 2015

Palimpsesto: Parte V


Não tenho sentimentos pela política, pela sociedade, pelo desporto, pelos vícios: mas alimento-me de tudo. A alimentação é um bem escasso quando o meu corpo precisa de uma alma mais forte que a matéria que o sustenta. E, nesse aspeto, és a morfina da minha aura. Chateia-me desde sempre quem não entende a tua poesia - é a melhor poesia que existe no mundo inteiro. Escreveste-me umas rimas - e nem precisou de ser na língua materna para as enamorar para sempre:


"Misadventure, man, hold the tide that the heavens command.
All great epics are susteined by good soundtracks.
Every morning transcends every evening.
See the old and the youthfulness
of their grandchildren. See the easy prey,
the conservative governments, the collapse of roses
and the bitterness of cinema. You have so much, man;
be above you, man. Hear the marriage of the stars,
the twilight's communication of each one of them.
Dock the ship to an woman who loves you: not me.
Where is the singularity of all the tears that you have fallen?
Sets aside every - thing:
your North may well be your best South.
Open your eyes, man, and misadventure yourself."

Esta é a sintaxe do teu «amo-te», a metáfora do teu corpo nu, a personificação da tua culinária barata, a gramática das tuas danças na varanda, as rimas cruzadas do teu sinfónico ressonar. Só me resta desejar piedade, mulher, a quem não entende a tua poesia.
  
«jd»