São apenas cartas. São escritas para outras pessoas, de outras pessoas, sobre outras pessoas. Eu e tu somos pessoas - porque não temos as nossas cartas? Porque não te posso chamar pelo teu nome? Lucas. O teu nome é Lucas. Porque nunca te escrevi uma carta, Lucas? Porque é que sempre que escrevo uma carta nunca é para ti, Lucas?
Está tudo a ficar tão diferente e, num piscar do olhos sintético e sem sentido nenhum, o mundo começa a ser desigual. Achava que o nome do planeta era paralelo ao ato de estar conectado e preso pelo peso que sinto da gravidade nos meus pés, e no nosso chão.
A minha bochecha, os teus lábios, e podemos concordar que tudo se transforma. O mundo muda, o mundo deixa de ser mudo. O meu nome continua a ser Maria, o meu subconsciente continua a ser teu. Escrevo tanta coisa e é engraçado que tudo é revisto por ti; à excepção desta carta. Os orgasmos são inertes e duradouros. É o carisma do teu olhar. É quase sempre o carisma do teu olhar. Ninguém me fez sentir uma mulher antes de ti. E eu nem sequer me lembro de ser uma mulher antes de ti. Sinto-me, muitas vezes, só tua desde sempre. Propriedade privada.
Pessoalmente, nunca tinha visto um pôr-do-sol tão bonito quanto este. Os meus olhos verdes, os teus acastanhados. O meu cabelo, que é o teu amado trigo, amordaçado atrás pelos óculos de sol enquanto me fotografas. Um dia mato-te. Um dia termino com a tua vida. Eu mato-te. Amo-te tanto que juro que ainda te mato. Amo-te tanto que um dia ainda nos mato aos dois. É irresponsável estar tão apaixonada. É a única imprudência que toda a gente me permite a ter. Está tudo louco por não me impedir de viver isto. Deviam aplicar-se certas coimas a homens como tu que me fazem sentir uma mulher como eu.
Sempre nos inconformamos com a possibilidade de não vir a durar para sempre. Projetavamo-nos nos sonhos num do outro. Não há sonhos que venham a conta-gotas. São ilimitados, transcendem sempre os que nos sugam, os que nos rodeiam, o nosso presente, as histórias que já vivemos. E, quando termina, não há mais nada. Deixam de haver sonhos. Deixamos de crer que somos capazes de viver tudo de novo, de ter as mesmas sensações como pioneiras. Sentir paixão, empatia, companheirismo, como novidade. Estar apaixonada foi a melhor coisa que já me aconteceu e não estar apaixonada foi a melhor coisa que já te aconteceu.
Acontece tudo tão rápido: amamos rápido, somos tudo o que temos de ser rápido, e despedimo-nos rápido. Estamos sempre atrasados para chegar a lado nenhum. É o tráfego e o batimento cardíaco, meu querido. Eu já estive lá e tu também já lá estiveste.
Já amamos pessoas diferentes que eram simétricas para nós. Ontem fomos compatíveis: nós os dois. Também já fomos compatíveis a outras pessoas, em algum momento. É engraçado como, hipoteticamente, seria possível juntar algumas delas umas com as outras. Imagina como seria: as tuas pessoas e as minhas pessoas, juntas. O teu passado e o meu, unidos. Os meus homens e as tuas mulheres, casados.
Isto é só uma carta. Enviei-ta, Lucas, sem a perfeita noção de que seria uma carta. Já são seis da tarde e ainda não recebi a tua resposta.
Com amor, Maria.
«jd»