domingo, 28 de dezembro de 2014

O Que Significa Principote?

      Passaram-se oito dias desde o fim do solstício e o sol continua a balear-me as sobrancelhas. Acho-te especial e tu achas-me divino. Há crianças pelas ruas da noite e prostitutas educadas e alfabetizadas. Para onde corre o mundo tão depressa, meu amor?
     As dízimas dos impérios terminaram e agora dão-nos a conhecer as novas colónias que subsistem dos antigos países subdesenvolvidos. Quem é que inventou o petróleo senão o Deus que também nos criou?
     Tanta educação, tanta falta dela, e tanta disparidade. Mal consigo olhar-me nos olhos quando estou em frente do espelho. Sabias que foram os egípcios que os inventaram?, porventura para me envergonharem.
     Há o sexo e o desinteresse que mostras por ele quando me beijas o corpo com todo o teu à vontade. Gostei da camisola que me ofereceste no outro dia. Ela fica-te tão gira, meu querido. Mal consigo expressar o quanto te entendo, porque estás sempre a aumentar a voz e a sussurrar todas essas coisas bonitas que sentes por mim - nenhuma delas é repetida, mas, francamente, soam-me todas ao mesmo.
     Caças-te um peiche e eu amote. Escoltei-o até a casa dos teus pais e eles agradeceram-me a tua gentileza. Digo-lhes todos os dias que têm uma filha extraordinária mas, já to disse, eles não conhecem mesmo a filha que têm. Será que também seremos tão ingratos com os nossos rebentos?
Traz-me um café, por favor. Ó, sim, com canela, meu amor. Açúcar amarelo, claro. Sorris-me porquê? Ai queres mimos, queres?
     Tenho este computador frívolo e a vida é tão banal. A civilização precisa de inventar outros meios para que eu te possa amar melhor. Conheço um moço que laureou um veículo qualquer e foi a correr ter com rapariga que amava. Olha, sorte a dele, sorte a dele. No dia em que ganhar algo das raspadinhas do Sá da Bandeira, prometes que vens cá ao norte ter comigo?
     Adoro o Algarve e adoro-te a ti e tenho saudades tuas espalhadas pela casa. Aposto que já fizeste planos para o próximo inverno. És delineadora e não há muitas coisas que eu goste mais em ti. Toma, veste isto que ficas bonito. Vamos ao cinema mais logo. Vou encomendar pizza para o jantar.
     Até a encomendar pizza para o jantar és delicada e deslumbrante.
     O mundo lá fora continua caótico mas ao menos ainda me existes tu. Porque me existes tu? Fácil, meu amorzinho: para caçarte um peiche e tu m'amares.

«jd»

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Portugal II

      Há um local onde desejo morrer; tantos outros onde desejo viver. Há a frescura da praia, o calor do campo, a terapia barulhenta da habitação citadina, a ânsia do silêncio recôndito dos subúrbios: e em nenhum deles me revejo para lá de mim.
      Não há espaço de manobra, de alteração, de projeção e de sonho. Não há mais para além disto: deste forno desmesurado, desta pátria quente mas esquecida. E a quem me conta que o sonho dos antigos seria o mar, convido a procurar na nossa costa a tentação de caçar projetos no horizonte.
      Os velhos ainda sabem o que tem valor e dizem-me muitas vezes que já houve alguém a sonhar algo mais para nós do que nós mesmos. Escritores cantaram que a juventude não sabe o que pode, nem os velhos podem o que sabem. Pensadores pensaram o mesmo. Políticos julgaram-no também.
      Por eles choro enquanto a pátria nos escreve. Entre sons, cadeiras e mesas são juntas, num semicírculo imperfeito. Há anões nas freguesias do interior e gigantes nas florestas, fogo desempenhado e oxigénio a encaixar o fundo de desemprego. Há o oceano com lágrimas de autor, peixes conservadores e pequenas encostas desapoiadas. Há vilas esquecidas e idosos com bolsos cujas traças desbastaram não só o tempo, como também o espaço neles preenchido. Há community holes, rascacielos interraciales e penhascos de les gens riches et illustres.
      Há mandamentos, paradoxos, convenções sociais, imigrantes nativos. Há gente letrada, gente empenhada, gente que rouba e gente outrora roubada. Há manifestos, aclamações, saudades. Há o socialismo do dinheiro e o capitalismo de quem enche a terra. Há uma mixórdia totalitária e o total confundido com a solitária.
      Eu choro enquanto a pátria nos escreve, mas há sempre um violino e há sempre um telhado onde ele pode ser assobiado. Há sempre um público - algo magnífico, algo tão magnífico - que nos força a bater palmas pelo nosso próprio teatro. Há cenas e capítulos, tantos séculos e fronteiras tão antigas, mas eu choro enquanto a pátria nos escreve.
      Somos a geração do ontem, mas tão presentemente focados no futuro. Exigem-nos inovação, dedicação ao depois, posterização de um marco de ansiedade nas páginas em branco do amanhã, inversão do anteceder, atualização do sussurro do agora. Empenho não falta, reconheço-o. Dedicamo-nos somente na idealização, da projeção do protesto, e não somos capazes de erigir do suco de vácuo.
      E que vácuo que para aqui anda! E que falta de orientação, que falta de sensibilidade acerca da agressão de preconceitos: há que os agredir com porrada da velha. Partir narizes, partir pernas, partir braços, partir clavículas, a todos os que nos impedem de avançarmos mais - se queremos progredir, primeiro temos de não pedir e simplesmente partir; destruir.
      Há sempre presente uma tonalidade de devastação que antecede uma obra. Ao artista pede-se que desbloqueie rios, mares, que ligue fronteiras, locais invisuais, tempos desconectados.
      Do verdadeiro renascimento vem sempre o verdadeiro quebramento. Há que quebrar, torcer, para vencer: permitam-mo, por favor, porque há um local onde desejo morrer; tantos outros onde desejo viver: e em todos eles vislumbro Portugal.

«jd»

Dando seguimento à diretriz
composta no Pseudomunduo:

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Minha Beatitude é de Domínio Público

Os cabelos dela,
cor de trigo da sua imagem,
o tom selvagem do sabor
perfumado e do aroma
encarnado e refinado
que viva imana a cada lento passo
que capto com a minha objetiva.

Há mais vida lá fora: uma
tímida passagem de nível, filas
e filas de carros,
os transportes públicos
tão amigos do ambiente,
árvores e flores e plantas com insónias
unicoloridas com o amor que todos nós
merecemos.

Mas são os cabelos dela,
são quase sempre os cabelos dela,
pintou-os no outro dia,
reparei, claro, quando
entrou no autocarro e todos a viram
e todos a amaram quase tanto quanto eu
e eu ali afogado,
tão por ela catalogada e
insanamente amado.

«jd»