quinta-feira, 30 de julho de 2015

Palimpsesto: Parte IV

Quinta-feira outra vez. É a sétima quinta-feira que passo sem ti. O que faço às saudades e o que faço à louça? A tua mãe convidou-me para ir lá jantar: é a sétima vez esta semana que a tua mãe me convida para ir lá jantar. Onde está o santo do teu pai quando eu preciso dele? A minha ortografia é má, mas olha que a tua ausência é pior. Tenho sempre saudades tuas. Falta sempre o teu aroma - a casa cheira a mofo. Falta a tua forma implacável de seres mulher, a tua maneira egoísta de viveres em função dos meus prazeres, o teu inclinar empirista de seres conhecedora de todos os sonhos que te tenho de noite. Lembro-me quando tinhas a minha camisa vestida: Itália vestia-te tão bem. Saudaste a pizza e o homem que ta trouxe; depois fizemos um amor calmo nas caixas de cartão que ficaram vazias. Foi um amor gorduroso. Já vamos quase no final da semana e continuas a não saber o que significa palimpsesto?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Palimpsesto: Parte III

Já nem me lembro de como é que isto começou, a sério. Só te queria beijar uma vez. O mundo tem as suas singularidades perpétuas, não tem? Ontem quiseste ver os filmes dos vampiros outra vez. Estamos há um mês para ver o filme vencedor dos óscares e tu continuas a querer ver porcaria. Indolentemente, lá vou suportando as tuas manias e as tuas mesquineses, porque se há algo que acho insuportável é que alguém como tu tenha um mau marido. Sonhei contigo: nua - sobretudo. Foi a preto e branco, como se o carvão fosse sistemático quando estás quadrada no teu suor frio. Mereces o melhor dos maridos. Amei-te uma vez, e onde está a exclusividade disso senão em todas as vezes? Mereces o melhor. Nem que o melhor por vezes signifique ter lobos que sugam sangue a lutarem contra vampiros com focinhos peludos.

«jd»

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Palimpsesto: Parte II

Financeiramente a coisa está controlada. Temos a casa, temos o cão. A tua amiga incendiou a ideia de que um casamento perfeito precisa da faísca dos filhos. Há um prazer muito peculiar que toda a gente tem em desgastar a pouca felicidade que nos resta. Um dia vou ter saudades tuas, quando morreres antes de mim. Contra todas as promessas, hei-de fazer de tudo para que vás antes de mim. Ainda quero ter uns anos a sós para gozar a vida decentemente, entendes? Além disso, confio plenamente que não aguentarias fazer o luto caso me fosse embora primeiro. Mas financeiramente a coisa tá controlada.

«jd»

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Palimpsesto: Parte I

Somos norte. Gosto da relação tempestuosa que temos durante as temporadas do álcool, das drogas e do sexo que metemos no corpo um do outro. Gosto de saborear o tabaco lentamente - com o mesmo vagar com que te fujo ao beijo de vez em quando - e da efeminação que toleras no homem que já fui. Saliento muitas vezes, no seio do nosso grupo de amigos, que és a mulher que todo o homem como eu procura. És o sonho que muitas vezes me custa a discernir o certo do errado. As nossas atividades extracurriculares deixam-me quase sempre baralhado, mas nunca perco o norte.

«jd»

domingo, 12 de julho de 2015

Epílogo ao Camaleão

Indolor, transparente,
e o contágio do interlúdio.

Fontes encriptadas,
desenhos apercebidos,
crentes apaixonados
e a sede da tua saliva.

Somos todos parques naturais,
desbravados na inação
da tranquilidade.
A árvore faz-nos sombra,
a floresta cai-se toda no cimento,
e as cidades são vestígios de poeira
e musgo estragado.

Tenho-te mas não por muito tempo.

Tenho-te mas não por muito tempo,
que o comboio há-de chegar para
te levar de mim.

Enquanto houver uma sombra oxigenada,
haverá um sol a tentar estragar-nos
por cima dela.

Ter-te-ei para sempre.
Quero ser triste contigo,
capturar sons e imagens na tua doce parceria,
e na companhia de quem me trata bem.

Quero que me abanes, sejas
na eternidade borboreta; meu amor,
camaleões ficaram-nos para trás.

Tenho-nos mas não por muito tempo,
que daqui a pouco a delicadeza da paixão
já será só amor carnal.

Camaleões sugaram-nos a visão noturna,
sem termos nem decretos fechados,
era de noite sempre de dia,
mas não já mais.

Era preciso jogar-se um poema de cada
vez; agora escrevemo-los todos de uma vez.

O amor era indolor, transparente, contagiante,
mas camuflado em morfina hormonal.

Somos asas, triangulos deltas,
metamorfoseamo-nos em redor das gentes,
migramo-nos para dentro de nós mesmos;
somos belbellitas enamoradas,
poesias que coexistem em uníssono.

Somos a sede da tua saliva.

«jd»

terça-feira, 7 de julho de 2015

Rua Engenheiro Barbosa de Matos

     Há alguma acreditação no nome que te ganhei?    
     Hoje é dia de jogo grande. Estádio cheio, claques a sangrar por todos os lados, há quem traga crianças ao futebol, mas a mãe sempre achou irresponsável - shhh, cachecóis no ar, que se vai ouvir o hino. Pensava que vinhas sempre à bola quando jogamos contra os sarracenos lá de baixo. O Dragão está quase lotado e tu não estás cá; não estás, nops, senão eu via-te por aqui.
     Todo o conforto do mundo são somente pedaços de poemas, e as sombras projetadas nas nos tijolos das paredes são só amostras de poderes reformados. Um velho que precisa de sorrir, uma anedota que precisa de voar, um livro que precisa que incendiar, um rato que precisa de gatinhar. Tudo amostras, montras, de poder.
     Já vi o mundo de baixo e tu já me viste lá de cima. O mundo está pesado e o ar sobrelotado. Deixaste-me quando tinha 9 anos e nunca mais voltaste a ser tu próprio. Durmo de noite e nunca penso em ti. Já viste?, quão fracas são as minhas memórias para não me lembrar de ti?
     Ontem escrevi um poema e fui dormir; na noite anterior fiz o mesmo. Quantos poemas tenho de escrever para resgatar uma memória tua?
     Ensinaste-me a conduzir, a jogar à bola, a contornar as leis, a falar como um homem do norte, carago, e foste tu que me aparaste os primeiros pelos da cara. Floresci, tornei-me homem, por causa da mãe. Tornei-me irmão, um irmão ausente, por tua causa. Há tanta disputa em mim quando me lembro que não me lembro nem um bocadinho de como é a tua cara. Quando vejo a minha sombra à noite, sei que é só a lua a refletir luz. Mas que luz de merda.
     Estás velho, nunca soube contar-te a idade. Precisas de sorrir e de me lançar uma anedota para quebrar o gelo. Se pudesses, queimavas tudo o que tenho escrito sobre ti. Chegaste a ter sonhos para nós? Foste um rato que precisava de gatinhar, oxalá as minhas muletas te possam auxiliar.
     Ficaste parado e todas as outras pessoas continuaram a mover-se. Em que ano temos de parar todos para que nos alcances? Já passaram quê?, uns 15 anos?
     Sentes orgulho? Há alguma humildade no nome que te ganhei? Pensa. Um dia terei os meus putos, e eles terão o teu nome. Deus queira que nunca perguntem de onde é que ele vem.

«jd»