sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Relatório de Contas do Segundo Trimestre

     Amor gradado, paixão guardada. No próximo equinócio, não direi aos meus pais de onde me sais. Não direi aos teus onde me entras. Não direi a ninguém onde as memórias e as teias ficam encharcadas, nem quais as sombras que me fazes nas tuas fotografias reformadas. Porque somos a têmpera mais febril do meu vocabulário. Somos todos os jovens que se apaixonam, somos todas as crianças que brincam desse enamorar. E tu, onde a civilização e a natureza se fundem. Debaixo de arames arcaicos mas futuristas, retratas a vida e a cor e a textura e os sabores de tudo o que te gera prazer.
     Nessa incondição poética, és a limitação voltada para o vácuo do armário. A crise e a solução, a crista e a dissolvição. A mentira, a lira, a ira. A verdade, a herdade, a idade. E nós? - nós somos a nossa própria companhia que atenua o nosso próprio sofrimento. Somos o toque de pele que sinto a milhas de comprimento. A tua barba está por fazer, o cabelo velho por aparar, o vinho meio cheio e o tabaco a esgotar. Até o céu foi deportado – exilou-se no subterrâneo. Transfiguram-se os tempos, sob mutações e crispações étnicas e sociais. Produzem-se filmes e não há autores especiais: quando já não têm mais nada para apelidar, resvalam no erro de tirar os nomes a todas as coisas que conhecem.
     A verdade não reside em lado nenhum, a história não reside em tempo nenhum. A vida deixa de viver e morre; a morte deixa de mórbida e existe. Maravilhamo-nos com apocalipses pequenos porque são protótipos de catástrofes maiores. Driblamo-nos como gente fraca, e todos os dias deixamos a terra e os céus um pouco piores. No ambiente de trabalho estão itens que nos reduzem a cinzas pardas, documentos queimados e aplicações floridas mas magoadas.
     Eis que, nesta ansia pela superação animalesca de nós enquanto ventre e suor, fazemos um solstício de um amor melhor.


jd