quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Luto Ocioso

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, estava tão contigo e estava tão mal contigo, não sei porque hesitei tanto em pôr-te fora de casa porque na minha cabeça esta casa já nem era tua.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, está a dar a bola e estes nabos não merecem todo o dinheiro que ganham, mas não me apetecia ouvir a merda da política e a merda dos dramas da nossa pirâmide social, que até nem me deprimem mas fazem-me lembrar da merda de ti.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, e bebo bem mais do que uma cerveja. Elas amontoam-se em cima da mesita da sala e não está ninguém para as tirar dali, a casa está desarrumada e eu recuso-me solenemente a fazer tarefas domésticas, que isso lembra-me de ti e eu estou fartinho de pensar em ti.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, e os putos vêm cá ao fim de semana e querem ir andar de bicicleta, e eu tenho lá pachorra para ser bom pai, não o sou porque isso faz-me lembrar de ti, que és a clássica mãe perfeita para qualquer miúdo.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão tão bem sozinho, e perco o emprego, evidentemente. O chefe fartou-se de ligar, de deixar mensagens, e-mails, até enviou um gajo qualquer cá a casa para ver se eu ainda estava vivo. Estou-me a cagar para aquele cabrão, quero lá saber do trabalho, que trabalhar e ser esforçado recorda-me de ti e eu, não sei se já referi, estou tão - tão - tão cansado de me lembrar de ti.

     Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, mas vem cá a casa a família e põem-me a mão nas costas e forçam-me a chorar, que dizem que ajuda a limpar os males da alma, mas eu não choro que isso traz-me logo uma imagem tua à cabeça e para mim morreste-me: não quero pensar mais em ti.

    Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho. Tu foste-te e eu devo ter ido contigo. Não sei o que ando a fazer e só te queria aqui de novo: a vermos o nosso FC Porto, a bebermos as nossas minis fresquinhas, a passearmos à beira mar com os nossos filhos, estão tão crescidos, já viste?, até a ir-te buscar ao trabalho depois de um dia de trabalho intenso, que sabia tão bem, lembras-te?; mas tenho a nossa família em casa, já todos te choraram e os miúdos ainda nem entenderam muito bem quando é que voltas, falta-me chorar-te e levantar-me no sofá para te ter nos nossos filhos, estão tão crescidos, já viste?

   Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem a chorar sozinho, e até eu sou uma criança e não entendo como é que morreste não só para mim como para todos. Mas amo-te. Amo-te e não te sei chorar: ensinaste-me tanta coisa e não me ensinaste a chorar, por isso preguiço-me na minha vida e a culpa, a ser de alguém, é da tua morte.

«jd»

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Divortium Aquarum

     Podes ter muitas pessoas mas eu tenho-te a ti.
     Podes ter muitas coisas - as duas casas, esse emprego de sonho, um advogado xispêteó, um património do caralho, o tempo todo do teu lado, o velho Adão, os nossos miúdos, até o lado bom da minha mãe - mas eu tenho-te a ti.
     E, anota aí se quiseres, eu sou o maior quando te tenho no meu tribunal.
     Tens muitas pessoas e podes ter muitas delas mas eu tenho-te inteira, embora barreira, para mim; podes recolher votos aqui e ali mas eu não preciso dos números alheios, nem de fortunas infortúnias para te ser o ser sincero - doce, condescendente, amarelo - que te ama.
     Há dias, como o de hoje - e como o de ontem -, em que o que me acorda não és tu, em que o fungo permanente e despertador não és tu, em que a razão e a desrazão e a contra-argumentação não és tu, e nestes dias tento inventar e conjeturar mais motivos para viver os dias que me surgem a seguir.
     Tenho-te sempre a ti, despida de eufemismos, largada de escárnios - maldizeres?, também os tens -, no verdadeiro sentido exótico e erótico que é ter-te, toda feminina e toda independente, toda para mim.
     Toda: de mim: para mim.
     Quando as palavras não dizem o que somos e nos ficamos pelo ser dos outros, pelo pensar dos outros, não há paixão desses outros que se mantenha erguida de pé. Mas, amor, daqui fica-me a fé, o senão da ereção, mas o amor é mais que o sexo dos teus globos oculares - que me tanto me sujeitam à aversão, como depois são predadores com apenas um ou dois pueris olhares.
     O êxtase é estar-te por cima e, mesmo assim, ter de devorar-me por debaixo e tão sozinho. És má e eu amo-te. Não há tese que sustente esta minha loucura, nem médicos ou enfermeiros ou especialistas que comprovem a validez da minha demência, mas quero que saibas que te sei e que te amo, meu amor. Meu amor.
     Meu amor, um dia destes até vais embora e eu vou ficar no computador a recarregar a página do não sei das contas à espera de um mail teu - Deus me livre de ficar sem Internet, que neste caso até é o meu pão do dia-a-dia, a minha sobrevivência, e Deus me livre de ficar também sem ti, meu amor.
     Na semana passada o teu advogado foi implacável e fiquei sem nada - nem os miúdos vou poder ver: que má; e eu amo-te tanto - mas embora tenha ficado sem nada ainda te tenho a ti. Podes ter muitas pessoas mas eu tenho-te a ti.
     Foi ontem que casamos e foi ontem que descasamos: é isto que alguém que te ama pensa quando lhe fazes o que lhe fazes. És má e és tão boa a ser má, sabias? Isso é tão feio, nunca ninguém te disse? És feia e és tão bonita a seres feia. És má e enches o peito de ar, que eu bem noto, quando te olho de frente e te digo que és o que és: uma gaja má. Mas há uma certa delicadeza, um certo toque de beleza, na tua forma de seres e desseres minha, de um momento para o outro. Alimento a fervura do meu destino com a ração dessa tua forma estranha de seres minha - nunca compreendi bem porque és tão insensata, sempre me disseste que ou eu te tinha assim, ou não te tinha de todo, e pronto, eu fui acatando.
     Já não vejo os miúdos há quase um mês e estou ansioso por te deitar de novo na minha cama. Adoro-os tanto. O mais novo está crescido - está a ficar um rapagão, não está? - e eu quero tocar-te. Só Deus sabe o quanto te quero tocar. O mais velho está na idade de ir para o futebol: vê lá se o inscreves no sport perto de casa dos teus pais para ele ir dando uns chutos à bola; quero encostar-te ao espelho e fazer-te embacia-lo. Gosto da forma como costumavas mudar de assuntos para levar a água ao teu moinho e, não sei se te apercebeste meu amor, dei por mim a fazê-lo agora mesmo.
     Dizes-me que tens muitas pessoas, mas eu tenho-te a ti. Podes ter muita gente a proteger-te, a aconselhar-te a levares esta loucura para a frente, mas eu tenho-te a ti. E tu podes ter muita gente, mas não tens ninguém, e eu tenho-te a ti, meu amor. Estamos ambos sós, ambos ambiguamente sós mas, meu amor, há sempre algo mais a tirar de nós quando mesmo numa multidão nos fazemos sós.
    Aceito levar isto para a frente, mas com uma condição: ama-me durante 180 anos, ou mais. Ama-me pelos olhos dos filhos, pelos netos, e pelos filhos dos netos. Ama-me como se não houvesse corpos para amar. Ama-me como se não houvesse almas para amar. Ama-me na memória, na fotografia queimada, na anedota esquecida, na receita perdida nas gerações. Ama-me nas guerras, nos tempos de fome, nas ascenções e nos apertos, nos consumismos e nas retenções, na miséria e no luxo, na cobardia e no heroísmo. Ama-me. Ama-me quando vires que já não tens espaço para amar mais, e ama-me quando achares que eu já não tenho espaço para te amar mais. Ama-me e espera-me e dorme-me e liberta-me, amando. E ama-me quando eu acordar, e quando eu me for, e quando eu me vier, quando eu te fizer suar. E ama-me. E ama-me também quando formos cúmplices, quando formos púdicos, quando formos estrangeiros, ou nacionalistas. Ama-me na praia, no chão, no ar, na sala de operações. Ama-me na cirugia, no templo, no tempo, no espaço, na ordem, no progresso, na ourivesaria, no terraço, na casa dos padrinhos. Ama-me sempre que eu tiver fome, sempre que mostrar a aliança com orgulho, sempre que a esconder dos teus pais. Casa-te comigo em segredo e ama-me em segredo. E ama-me publicamente. Ama-me durante 180 anos, ou mais.
     Ela cumpriu. E divorciaram-se.

«jd»