Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, está a dar a bola e estes nabos não merecem todo o dinheiro que ganham, mas não me apetecia ouvir a merda da política e a merda dos dramas da nossa pirâmide social, que até nem me deprimem mas fazem-me lembrar da merda de ti.
Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, e bebo bem mais do que uma cerveja. Elas amontoam-se em cima da mesita da sala e não está ninguém para as tirar dali, a casa está desarrumada e eu recuso-me solenemente a fazer tarefas domésticas, que isso lembra-me de ti e eu estou fartinho de pensar em ti.
Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, e os putos vêm cá ao fim de semana e querem ir andar de bicicleta, e eu tenho lá pachorra para ser bom pai, não o sou porque isso faz-me lembrar de ti, que és a clássica mãe perfeita para qualquer miúdo.
Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão tão bem sozinho, e perco o emprego, evidentemente. O chefe fartou-se de ligar, de deixar mensagens, e-mails, até enviou um gajo qualquer cá a casa para ver se eu ainda estava vivo. Estou-me a cagar para aquele cabrão, quero lá saber do trabalho, que trabalhar e ser esforçado recorda-me de ti e eu, não sei se já referi, estou tão - tão - tão cansado de me lembrar de ti.
Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho, mas vem cá a casa a família e põem-me a mão nas costas e forçam-me a chorar, que dizem que ajuda a limpar os males da alma, mas eu não choro que isso traz-me logo uma imagem tua à cabeça e para mim morreste-me: não quero pensar mais em ti.
Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem sozinho. Tu foste-te e eu devo ter ido contigo. Não sei o que ando a fazer e só te queria aqui de novo: a vermos o nosso FC Porto, a bebermos as nossas minis fresquinhas, a passearmos à beira mar com os nossos filhos, estão tão crescidos, já viste?, até a ir-te buscar ao trabalho depois de um dia de trabalho intenso, que sabia tão bem, lembras-te?; mas tenho a nossa família em casa, já todos te choraram e os miúdos ainda nem entenderam muito bem quando é que voltas, falta-me chorar-te e levantar-me no sofá para te ter nos nossos filhos, estão tão crescidos, já viste?
Estendo-me no sofá, vejo a televisão que bem me apetecer, estou tão sozinho e estou tão bem a chorar sozinho, e até eu sou uma criança e não entendo como é que morreste não só para mim como para todos. Mas amo-te. Amo-te e não te sei chorar: ensinaste-me tanta coisa e não me ensinaste a chorar, por isso preguiço-me na minha vida e a culpa, a ser de alguém, é da tua morte.
«jd»