Podes ter muitas coisas - as duas casas, esse emprego de sonho, um advogado xispêteó, um património do caralho, o tempo todo do teu lado, o velho Adão, os nossos miúdos, até o lado bom da minha mãe - mas eu tenho-te a ti.
E, anota aí se quiseres, eu sou o maior quando te tenho no meu tribunal.
Tens muitas pessoas e podes ter muitas delas mas eu tenho-te inteira, embora barreira, para mim; podes recolher votos aqui e ali mas eu não preciso dos números alheios, nem de fortunas infortúnias para te ser o ser sincero - doce, condescendente, amarelo - que te ama.
Há dias, como o de hoje - e como o de ontem -, em que o que me acorda não és tu, em que o fungo permanente e despertador não és tu, em que a razão e a desrazão e a contra-argumentação não és tu, e nestes dias tento inventar e conjeturar mais motivos para viver os dias que me surgem a seguir.
Tenho-te sempre a ti, despida de eufemismos, largada de escárnios - maldizeres?, também os tens -, no verdadeiro sentido exótico e erótico que é ter-te, toda feminina e toda independente, toda para mim.
Toda: de mim: para mim.
Quando as palavras não dizem o que somos e nos ficamos pelo ser dos outros, pelo pensar dos outros, não há paixão desses outros que se mantenha erguida de pé. Mas, amor, daqui fica-me a fé, o senão da ereção, mas o amor é mais que o sexo dos teus globos oculares - que me tanto me sujeitam à aversão, como depois são predadores com apenas um ou dois pueris olhares.
O êxtase é estar-te por cima e, mesmo assim, ter de devorar-me por debaixo e tão sozinho. És má e eu amo-te. Não há tese que sustente esta minha loucura, nem médicos ou enfermeiros ou especialistas que comprovem a validez da minha demência, mas quero que saibas que te sei e que te amo, meu amor. Meu amor.
Meu amor, um dia destes até vais embora e eu vou ficar no computador a recarregar a página do não sei das contas à espera de um mail teu - Deus me livre de ficar sem Internet, que neste caso até é o meu pão do dia-a-dia, a minha sobrevivência, e Deus me livre de ficar também sem ti, meu amor.
Na semana passada o teu advogado foi implacável e fiquei sem nada - nem os miúdos vou poder ver: que má; e eu amo-te tanto - mas embora tenha ficado sem nada ainda te tenho a ti. Podes ter muitas pessoas mas eu tenho-te a ti.
Foi ontem que casamos e foi ontem que descasamos: é isto que alguém que te ama pensa quando lhe fazes o que lhe fazes. És má e és tão boa a ser má, sabias? Isso é tão feio, nunca ninguém te disse? És feia e és tão bonita a seres feia. És má e enches o peito de ar, que eu bem noto, quando te olho de frente e te digo que és o que és: uma gaja má. Mas há uma certa delicadeza, um certo toque de beleza, na tua forma de seres e desseres minha, de um momento para o outro. Alimento a fervura do meu destino com a ração dessa tua forma estranha de seres minha - nunca compreendi bem porque és tão insensata, sempre me disseste que ou eu te tinha assim, ou não te tinha de todo, e pronto, eu fui acatando.
Já não vejo os miúdos há quase um mês e estou ansioso por te deitar de novo na minha cama. Adoro-os tanto. O mais novo está crescido - está a ficar um rapagão, não está? - e eu quero tocar-te. Só Deus sabe o quanto te quero tocar. O mais velho está na idade de ir para o futebol: vê lá se o inscreves no sport perto de casa dos teus pais para ele ir dando uns chutos à bola; quero encostar-te ao espelho e fazer-te embacia-lo. Gosto da forma como costumavas mudar de assuntos para levar a água ao teu moinho e, não sei se te apercebeste meu amor, dei por mim a fazê-lo agora mesmo.
Dizes-me que tens muitas pessoas, mas eu tenho-te a ti. Podes ter muita gente a proteger-te, a aconselhar-te a levares esta loucura para a frente, mas eu tenho-te a ti. E tu podes ter muita gente, mas não tens ninguém, e eu tenho-te a ti, meu amor. Estamos ambos sós, ambos ambiguamente sós mas, meu amor, há sempre algo mais a tirar de nós quando mesmo numa multidão nos fazemos sós.
Aceito levar isto para a frente, mas com uma condição: ama-me durante 180 anos, ou mais. Ama-me pelos olhos dos filhos, pelos netos, e pelos filhos dos netos. Ama-me como se não houvesse corpos para amar. Ama-me como se não houvesse almas para amar. Ama-me na memória, na fotografia queimada, na anedota esquecida, na receita perdida nas gerações. Ama-me nas guerras, nos tempos de fome, nas ascenções e nos apertos, nos consumismos e nas retenções, na miséria e no luxo, na cobardia e no heroísmo. Ama-me. Ama-me quando vires que já não tens espaço para amar mais, e ama-me quando achares que eu já não tenho espaço para te amar mais. Ama-me e espera-me e dorme-me e liberta-me, amando. E ama-me quando eu acordar, e quando eu me for, e quando eu me vier, quando eu te fizer suar. E ama-me. E ama-me também quando formos cúmplices, quando formos púdicos, quando formos estrangeiros, ou nacionalistas. Ama-me na praia, no chão, no ar, na sala de operações. Ama-me na cirugia, no templo, no tempo, no espaço, na ordem, no progresso, na ourivesaria, no terraço, na casa dos padrinhos. Ama-me sempre que eu tiver fome, sempre que mostrar a aliança com orgulho, sempre que a esconder dos teus pais. Casa-te comigo em segredo e ama-me em segredo. E ama-me publicamente. Ama-me durante 180 anos, ou mais.
Ela cumpriu. E divorciaram-se.
«jd»
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