sábado, 26 de abril de 2014

Crónica De Amor Numa Gota de Rum

Tocar no suado,
entrar numa guerra descalço,
desapoiado e desembarcar
numa terra que
que pinto e realço.

Viver bêbado
num corpo de mosca
é como virar o disco
para tocar na mesma luz.
Preferes ser o amante d'hoje
ou o do amanhã
que nos reduz?

Visto-te de puerilidade
para - perante ti - me erigir;
mas jamais formarei herói ou rei
se a tua cordialidade não me sorrir.

«jd»

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Há Sempre o Perfume, Meu Amor

     Há sempre o perfume, meu amor. Há sempre o perfume, meu amor. Há sempre o odor da vingança: tenho-o comigo desde o momento em que nos apaixonamos. Eu apaixonei-me primeiro, eu amei-te mais no princípio, mas tu aprendeste a amar-me melhor no fim. Foste tu que amaste o errado, sendo o correto. Se morremos, morremos não porque deixámos de viver, mas porque paramos de nos sofrer.
     Prometi-te sofrimento desde o primeiro instante porque era tudo o que te podia prometer - porque é isso, e só isso, que um homem sensato pode prometer. A coroa?, nem sei dela. Mas sei que te iria ficar bem aos pés - aos teus belos pés.
     Mataram-me aos teus pés para que me pudesses chorar. Choraste-me?, meu amor.
     Há sempre o perfume, meu amor - há sempre algo que fica do que não ficou, há sempre algo que vai do que não se foi e há sempre qualquer coisinha que morre daquilo que não pôde morrer. Há sempre o perfume; há sempre o amor também, meu amor. A paixão? - esfaqueia a alma, mas nunca nos preocupamos com a alma porque tínhamos os corpos. Enquanto o meu corpo fosse teu e o teu odor mo rodeasse, continuaria com a promessa de te amar sempre mais e sempre pior e sempre a ti, meu amor. Se Deus me ajudasse e eu nele acreditasse.
     Haverá sempre o perfume, meu amor: prometo-to. Essa realidade é a real idade minha e a realidade é sempre a do amante: só ele sente o que vê e vê do que sente - só eu sinto quando te vejo e vejo do que te sinto. Dá-me olhos que te sintam e dá-me o perfume de sempre, meu amor.
    Acho, meu amor, que nos prometemos demasiado: éramos os corpos vestidos e agora somos os corpos vendidos. Disseste-me, naquelas tuas cartas escritas à maré do descomprometimento, que te apaixonaste pelas minhas palavras mal tas dirigi - que foi paixão à primeira conversa. Disseste que o veneno que me corria nas veias era o mais doce que já tinha arranhado os teus lábios. Ainda tens o perfume dessa altura?, guardaste-o?, meu amor.
     Há sempre - e vai haver nesse sempre - o perfume, o teu perfume, meu amor.

«jd»

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Clip da Putice

      Andamos a matar, nesta maratona transformada num corredor de morte, para, mais tarde, sermos mortos - a matar para virmos a ser, mais tarde, esses cadáveres.
      Somos a carne para canhão de nós mesmos. Somos a dinamite da explosão. Somos o epicentro do sismo e somos, tão ingenuamente, os edifícios que dele ruem. Atacamos para depois sermos atacados: eis o ciclo que define a selva orgásmica em que se tornou a vida.
      Lembro-me de quando era criança, mas não me consigo recordar de quando deixei de a ser; acho, no entanto, que deve ter sido ontem: isto porque só hoje me apercebi da inabilidade que é viver não sendo uma delas.
      Sou, hoje, um gigante no meio da criançada - o monstro engraçado que os miúdos rodeiam. E já fui, em tempos, um desses miúdos. Tenho vagas memórias - quase dissolvidas - dessa altura. Os anos passaram como uma bala e não me deram a oportunidade de me elevar neles: não cresci; não fermentei; não desenvolvi. Sou uma criança em corpo de adulto, pela imaturidade dos meus pensamentos; sou, também, um adulto em corpo de adolescente, no que diz respeito a toda a inaptidão que me sou.
     Acho - sem certezas, pá - que me tornei adulto quando comecei a racionalizar a paixão.
     Arrependo-me, todos os dias, de o ter começado a fazer. Apanhei-lhe o jeito e agora não consigo largar essa droga, esse alucinogéno, essa dependência, esse clip da putice, que suga todos os cantinhos de alma do meu corpo fragilizado. Transformei-me na carne para canhão de mim mesmo e - como se não bastasse - ainda repulsei, dissimuladamente, a esperança que funcionava como apólice de seguro desse mesmo infortúnio de vida.
    Tornei-me adulto e, quando me vi forçado a reconhecê-lo publicamente, ninguém teve a decência de me alertar para a merda em que ia encalhar; mas houve alguém - uma alma caridosa qualquer - que, no fim das minhas primeiras vinte e quatro horas de adulto, me veio perguntar se eu já me tinha fermentado hoje.
    Respondi, ainda que desconfiado, que sim: e nunca mais voltei a ser criança. Aquele fermento foi de vento em popa, ou não fosse eu mestre - dependente - em ser-me carne para canhão.
    Há quem lhe chame "clip da putice".

sábado, 5 de abril de 2014

Zambujeiro

Debaixo do zambujeiro
- oliveira seca e esverdeada -
roubamos o fruto da longevidade
e, do horizonte, a vida da enseada.

É sob esse zambujeiro
que vemos o luar a encandear:
ouvimos o besouro em uníssono
com as seis borboletas
que nos permitem a voar.

É debaixo do zambujeiro
que me decido a pensar em ti
quando, amor, em ti não estás.

E, já debaixo da árvore,
desse amar lado a lado,
fico-me pela certeza de que
em mim nunca recuarás.

«jd»