sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Holísticamente Inconclusivo

     Há quem diga que não me encontro em mim, há quem sopre as velas e se convença que é o ano da maturidade; há quem faça acontecer e há quem veja acontecer. Vermelhos.
     Fazemos parte de organismos, leucócitos autónomos e anónimos, que não têm responsabilidades uns para com os outros. Temos milhares e milhares de défices, mas nenhum deles é a comunicação.
     Onde cabem as merdas das músicas, onde encaixam os cabrões dos poemas? As paredes são pintadas por peças de teatro, a língua envolve-se na plasticidade cara e das restrições da arte ao povo. E eu não escrevo o português deles, eu não sou o português deles.
     Azuis. As minhas ideias vacilam no meu imaginário, o meu sangue evapora e estoura-me nas têmporas.
     Não há real nesta Nação, não há cereal para quem deserta para o caixão. O artista confunde-se com a arte, o político rapta a política que devia inviolar. A sociedade dissolve-se a passos largos, numa ânsia implacável pela extinção harmoniosa.
     Eu e tu, tal e qual como os peixes, estamos em margens diferentes de um continente que nos converge.  Normais, dentro do regular que nos desregula, as águas fluem e os orgânicos dão-nos de comer. A diversidade escassa, as correntes apontam-nos para a terra molhada, onde a excitação podia ser correspondida pela genética favorável. Barbatanas, as minhas e as tuas. E amor, o meu e o teu. Grades aprisionam-nos ao contentor líquido deste oceano. Não sabemos andar por nós mesmos, mas sabemos beijar o oxigénio.
     Amarelos. Os náufragos contam-nos em cardumes de arroz, onde o singular nunca é recordado. És o meu azul, sou o teu dourado. Homossexualidade aquática, constitucionalidade posta em causa, versos vazios submergem-me como pétalas pousadas sobre a onda suave.
     Podíamos muito bem ir dar a volta, mas tudo o que nos separa é uma linha reta.Tal e qual como nos peixes, também nós precisamos de sermões. Verdes. As gentes comem medicação, a medicação come dinheiro, o dinheiro come as gentes. O tempo do banho é o tempo da lama: e o dilúvio é quase sempre um verdadeiro democrata.


«jd»