sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Relatório de Contas do Segundo Trimestre

     Amor gradado, paixão guardada. No próximo equinócio, não direi aos meus pais de onde me sais. Não direi aos teus onde me entras. Não direi a ninguém onde as memórias e as teias ficam encharcadas, nem quais as sombras que me fazes nas tuas fotografias reformadas. Porque somos a têmpera mais febril do meu vocabulário. Somos todos os jovens que se apaixonam, somos todas as crianças que brincam desse enamorar. E tu, onde a civilização e a natureza se fundem. Debaixo de arames arcaicos mas futuristas, retratas a vida e a cor e a textura e os sabores de tudo o que te gera prazer.
     Nessa incondição poética, és a limitação voltada para o vácuo do armário. A crise e a solução, a crista e a dissolvição. A mentira, a lira, a ira. A verdade, a herdade, a idade. E nós? - nós somos a nossa própria companhia que atenua o nosso próprio sofrimento. Somos o toque de pele que sinto a milhas de comprimento. A tua barba está por fazer, o cabelo velho por aparar, o vinho meio cheio e o tabaco a esgotar. Até o céu foi deportado – exilou-se no subterrâneo. Transfiguram-se os tempos, sob mutações e crispações étnicas e sociais. Produzem-se filmes e não há autores especiais: quando já não têm mais nada para apelidar, resvalam no erro de tirar os nomes a todas as coisas que conhecem.
     A verdade não reside em lado nenhum, a história não reside em tempo nenhum. A vida deixa de viver e morre; a morte deixa de mórbida e existe. Maravilhamo-nos com apocalipses pequenos porque são protótipos de catástrofes maiores. Driblamo-nos como gente fraca, e todos os dias deixamos a terra e os céus um pouco piores. No ambiente de trabalho estão itens que nos reduzem a cinzas pardas, documentos queimados e aplicações floridas mas magoadas.
     Eis que, nesta ansia pela superação animalesca de nós enquanto ventre e suor, fazemos um solstício de um amor melhor.


jd

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Holísticamente Inconclusivo

     Há quem diga que não me encontro em mim, há quem sopre as velas e se convença que é o ano da maturidade; há quem faça acontecer e há quem veja acontecer. Vermelhos.
     Fazemos parte de organismos, leucócitos autónomos e anónimos, que não têm responsabilidades uns para com os outros. Temos milhares e milhares de défices, mas nenhum deles é a comunicação.
     Onde cabem as merdas das músicas, onde encaixam os cabrões dos poemas? As paredes são pintadas por peças de teatro, a língua envolve-se na plasticidade cara e das restrições da arte ao povo. E eu não escrevo o português deles, eu não sou o português deles.
     Azuis. As minhas ideias vacilam no meu imaginário, o meu sangue evapora e estoura-me nas têmporas.
     Não há real nesta Nação, não há cereal para quem deserta para o caixão. O artista confunde-se com a arte, o político rapta a política que devia inviolar. A sociedade dissolve-se a passos largos, numa ânsia implacável pela extinção harmoniosa.
     Eu e tu, tal e qual como os peixes, estamos em margens diferentes de um continente que nos converge.  Normais, dentro do regular que nos desregula, as águas fluem e os orgânicos dão-nos de comer. A diversidade escassa, as correntes apontam-nos para a terra molhada, onde a excitação podia ser correspondida pela genética favorável. Barbatanas, as minhas e as tuas. E amor, o meu e o teu. Grades aprisionam-nos ao contentor líquido deste oceano. Não sabemos andar por nós mesmos, mas sabemos beijar o oxigénio.
     Amarelos. Os náufragos contam-nos em cardumes de arroz, onde o singular nunca é recordado. És o meu azul, sou o teu dourado. Homossexualidade aquática, constitucionalidade posta em causa, versos vazios submergem-me como pétalas pousadas sobre a onda suave.
     Podíamos muito bem ir dar a volta, mas tudo o que nos separa é uma linha reta.Tal e qual como nos peixes, também nós precisamos de sermões. Verdes. As gentes comem medicação, a medicação come dinheiro, o dinheiro come as gentes. O tempo do banho é o tempo da lama: e o dilúvio é quase sempre um verdadeiro democrata.


«jd»

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Ablepsia

Tive pavor de todas as fases de mim,
quartos minguantes explodiram
mas só aquando de si mesmos
sozinhos e na penumbra se viram.

Rostos sem faces, rosas sem dedais,
criaturas, micro-organismos e afins,
todos os teus sorrisos, todas
as tuas vontades, todos os teus sins.

Foi verdade que não te amei
até te ver os olhos chorados,
tornei-te fração, parte do escritor
que se renuncia aos acasos.

Acoplo-me à tua corrente do saber,
do sonhar com os nossos futuros sorridentes,
e adentro do teu imaginário desenho
os teus cabelos de trigo em sementes.

Reergo-me no teu sexo que é meu; ogivas
são plantadas e rebentam em emoções,
e, nas fissuras do suor da noite, desenho
metafísicas, seres orgânicos e corações.

Na polissemia do nosso transporte,
todo o lugar é vital para te amar,
doutrinas escritas em bancos de jardim
embelezam o perfil do nosso beijar.


«jd»

sábado, 26 de setembro de 2015

Ensaio De Uma Espécie De Cartoon Não Muito Engraçado

     Os grandes ditadores não vão morrer. Os impérios não vão desaparecer. A notoriedade continuará a subjugar a humanidade. O homem continuará a ser o medo. A mulher continuará ser propriedade do medo. Os homens não se vão poder amar uns aos outros, as mulheres não se vão poder amar umas às outras. A cor terá relevo em todos os tipos de negociação social. A etnia será abordada em todas as convenções. A hierarquia será dispendiosa para quem ocupa o seu pólo mais diminuto.
     O sonho será desvanecido: a América será a polícia, a Europa o seu carrasco. A Lua será um mito e o Universo a sua lenda. As ciências serão fulcrais, a medicina irrevogável, a tecnologia imprescindível: os conflitos bélicos precisarão de todas elas para continuarem ativos.
     Os feministas enlouquecerão, os machistas serão comandantes supremos das Forças Armadas. Os pobres vão parar com as manifestações; os pobres terão trabalho a ser feito. Os ricos virarão banqueiros - os ricos sempre viraram banqueiros. A Maçonaria tomará a gestão dos órgãos públicos. Os transportes serão mais caros, a eletricidade será medieval, a água será petróleo, o brinquedo com que os políticos só brincam uma vez por semana até se cansarem.
     Os políticos democratas virarão defensores dos direitos humanos, e os defensores dos direitos humanos virarão defensores dos direitos dos animais: é mais fácil proteger quem se rege pelas leis da selva. O Código Penal nunca será uma intransigência, a Constituição será apenas um pedaço de pedra transformado em areia. E os socialistas virarão ditadores. E os tecnocratas virarão ditadores. O mundo bipolarizado que conhecemos desde que nos conhecemos será aquele em que nós e os nossos filhos amanhã viveremos. Haverão vários tipos de ditadores, haverão vários tipos de impérios.
     Os ricos continuarão a ser espertos e os pobres continuarão a ser somente inteligentes. As classes jamais sucumbirão nas sociedades. A religião será um paraíso, um resguardo, e os seus participantes serão membros exclusivos. A guerra será uma fonte de fundos promiscuos e ninguém quererá taxar a corrupção ativa.
     A Rússia será sempre homofóbica e essa é uma qualidade que estará orgulhosamente no seu hino. Franceses irão aprender a beijar, mas não a tempo do holocausto geracional em que o Facebook se tornará. O cinema vai seduzir muito poucos e a MTV governará uma quinta parte do nosso mundo sensacional. A boa literatura será esquecida, as epopeias serão queimadas, os professores continuarão a ser mal pagos e os alunos a ser mal ensinados. O sistema de vacinação será pobre, vergonhoso, tal como todo o sistema nacional de saúde que o sustém.
     O futebol será em dia de eleições e a abstenção comprará cachorros quentes ao intervalo do jogo. O mundo está empatado a zeros - é uma chatice, mas posse está do nosso lado.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Nova Iorque

A brisa embaciada que me chegava do porto,
as paredes de madeira com permissão
para queimar os corpos do desconforto.
As consolas que nos consolavam a infância,
as viagens cosmopolitas, os cigarros sem beatas,
e os edifícios futuristas fardados com sub-elegância.

Até os grandes homens
se revêm pequenos naquela cidade,
esmagados pela adrenalina que alimenta
cada uma das suas artérias sem idade.

Os monumentos não são locais de passagem:
são órgãos do vanguardismo citadino
que fomenta a limpidez da sua paisagem.
 
A bolsa implode todas as semanas,
sob grelhas americanas e gráficos obsoletos,
que mantêm os crescidos impressos
e os jovens desatentos.

Escrevem-se canções, cantam-se poemas;
compõem-se metragens, produzem-se sinfonias,
e os melhores jornais ficam responsáveis
pelas piores virtudes e pelas maiores agonias.

A restauração intercultural alimenta a diversidade geracional.
A variedade desportiva implode como uma locomotiva.
As crianças não brincam na rua;
as crianças são a rua.

E a cidade nunca repousa, nunca dorme,
banha-se de rios que tanto a aquece como a some.
Os transportes são nervos, são contactos, são servos,
são movimento permanente onde a literatura não mente.

Atentados, maçãs, séries de televisão.
A urbanização dos amigos, a residência das paixões,
dos pubs, do indie music, dos talk shows.

É a cidade que só respira pelo o seu núcleo verde,
e onde os sem abrigos são artistas com fome e sede.

«jd»

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Com Amor, Maria

Têm sido um verão tão frio, Lucas.

     São apenas cartas. São escritas para outras pessoas, de outras pessoas, sobre outras pessoas. Eu e tu somos pessoas - porque não temos as nossas cartas? Porque não te posso chamar pelo teu nome? Lucas. O teu nome é Lucas. Porque nunca te escrevi uma carta, Lucas? Porque é que sempre que escrevo uma carta nunca é para ti, Lucas?
     Está tudo a ficar tão diferente e, num piscar do olhos sintético e sem sentido nenhum, o mundo começa a ser desigual. Achava que o nome do planeta era paralelo ao ato de estar conectado e preso pelo peso que sinto da gravidade nos meus pés, e no nosso chão.
     A minha bochecha, os teus lábios, e podemos concordar que tudo se transforma. O mundo muda, o mundo deixa de ser mudo. O meu nome continua a ser Maria, o meu subconsciente continua a ser teu. Escrevo tanta coisa e é engraçado que tudo é revisto por ti; à excepção desta carta. Os orgasmos são inertes e duradouros. É o carisma do teu olhar. É quase sempre o carisma do teu olhar. Ninguém me fez sentir uma mulher antes de ti. E eu nem sequer me lembro de ser uma mulher antes de ti. Sinto-me, muitas vezes, só tua desde sempre. Propriedade privada.
     Pessoalmente, nunca tinha visto um pôr-do-sol tão bonito quanto este. Os meus olhos verdes, os teus acastanhados. O meu cabelo, que é o teu amado trigo, amordaçado atrás pelos óculos de sol enquanto me fotografas. Um dia mato-te. Um dia termino com a tua vida. Eu mato-te. Amo-te tanto que juro que ainda te mato. Amo-te tanto que um dia ainda nos mato aos dois. É irresponsável estar tão apaixonada. É a única imprudência que toda a gente me permite a ter. Está tudo louco por não me impedir de viver isto. Deviam aplicar-se certas coimas a homens como tu que me fazem sentir uma mulher como eu.
     Sempre nos inconformamos com a possibilidade de não vir a durar para sempre. Projetavamo-nos nos sonhos num do outro. Não há sonhos que venham a conta-gotas. São ilimitados, transcendem sempre os que nos sugam, os que nos rodeiam, o nosso presente, as histórias que já vivemos. E, quando termina, não há mais nada. Deixam de haver sonhos. Deixamos de crer que somos capazes de viver tudo de novo, de ter as mesmas sensações como pioneiras. Sentir paixão, empatia, companheirismo, como novidade. Estar apaixonada foi a melhor coisa que já me aconteceu e não estar apaixonada foi a melhor coisa que já te aconteceu.
     Acontece tudo tão rápido: amamos rápido, somos tudo o que temos de ser rápido, e despedimo-nos rápido. Estamos sempre atrasados para chegar a lado nenhum. É o tráfego e o batimento cardíaco, meu querido. Eu já estive lá e tu também já lá estiveste.
     Já amamos pessoas diferentes que eram simétricas para nós. Ontem fomos compatíveis: nós os dois. Também já fomos compatíveis a outras pessoas, em algum momento. É engraçado como, hipoteticamente, seria possível juntar algumas delas umas com as outras. Imagina como seria: as tuas pessoas e as minhas pessoas, juntas. O teu passado e o meu, unidos. Os meus homens e as tuas mulheres, casados.
     Isto é só uma carta. Enviei-ta, Lucas, sem a perfeita noção de que seria uma carta. Já são seis da tarde e ainda não recebi a tua resposta.

Com amor, Maria.


 
«jd»

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Anda Comigo Ver O Adeus

     Meu homem, toda a gente diz que o nosso jogo terminou, que as hipóteses são tão reduzidas como o tempo que nos resta. O Porto expulsou-te e os quase todos os barcos partiram contigo abordo. Este é um lugar onde já ninguém pertence senão eu - e a esperança que renasce com a tua ida. Outras chamadas serão feitas; encontramo-nos mais tarde no bar do costume para beber a cerveja do costume. Centenas de centeios e centenas de hidrogénios estragados, abarrotados, arrotam a amargo na vila dos legos coloridos e estragados. Era rotina disfarçarmo-nos de crianças e brincar como crianças e comer e sujar e cair e queimar e amuar como crianças mas depois tivemos uma.
     Leixões dói, mas a foz do Douro é mais arrebatadora. Onde fica a saudade nostálgica quando nos partimos para ventos diferentes dos nossos? Não sirvo para mais nada de especial senão para ser tua. Os meus cabelos sujos acorrentados na tua boca suja. "Entrelaça as veias ou o sangue continuará a correr feito maluco - disse-te - e despacha-te que os meus pais estão a chegar e já nos viram nus vezes que chegue." Nunca entendeste, pois não? É que pegaste no carro e fomos juntos ver os barcos: era demasiado cedo para acordar e demasiado tarde para pecar. Fizemos amor de uma forma peculiar; tu nunca aceitas um não, pois não? A caravana vestiu o dia de preto e os vidros escurecidos desvendaram luzes perpendiculares. Estás dentro de mim e o vinho dentro de ti também. A tua face transcende os teus lábios mas ainda não sei como largar a carne dos teus beijos.
     Toda a gente sente que isto é ridículo e eu tenho a exata mesma sensação. Livros de banda desenhada alegram o que sobra da saudade. Sou a mulher que querias que fosse? És de todos os lugares diferentes deste. Não és nem de perto com quem sonhei: és todos os meus epílogos e todos os meus prólogos. Livros e embarcações que ninguém lê; todavia tu.


«jd»

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Órfão

      Isto que costumo digitar não vem a propósito de nada. Escrevo com o indicio de que ninguém me leia de verdade profundamente. A caixa de fósforos está sempre à mão, as chaves do carro ficaram penduradas algures e nem levanto o espírito para as procurar. Viviei sempre em tempos verbais distintos dos de toda a gente. Ajudem-me-ei nisso, por favor. Convulsões levaram de mim a saudade dos anos em que só tu viveste por mim. Desertos de luz fizeram-te menos claro. Sombras, reminiscências de escuros fotografados, e as tuas parecenças pregadas às minhas parecenças. Um dia ainda pego no carro e ando por aí fora. Não me desafies, que sei meio caminho até ao Algarve.
       És a única coisa de que nunca falo com ninguém.
      Amei-te um bocadinho, na plural disponibilidade que eu tinha de te imaginar sempre melhor do que eras. Gasolina: é o que o carro precisa para me dar mais álcool e para te dar mais sorrisos rasgados. Os óculos de sol são novos, passeio-os quase sempre perto da Rua das Flores. Misericórdia, costumas ir lá? Há, em algum dos mundos irreais em que vives, alguma compaixão pelo que deixaste no mundo moral? Tudo acaba, a mulher continua algemada em sangue no meio do passeio, o nome da mãe no centro da Praça dos Leões, e a minha solidão agrupada faz-me querer ser um rapazito melhor. Nego uma inteligência maior; nego viagens lendárias; céus demasiado estrelados. Não há romance nenhum que já não tenha rejeitado.
      Até hoje nunca assentei; e não será com certeza amanhã que o irei fazer.

domingo, 2 de agosto de 2015

Palimpsesto: Parte V


Não tenho sentimentos pela política, pela sociedade, pelo desporto, pelos vícios: mas alimento-me de tudo. A alimentação é um bem escasso quando o meu corpo precisa de uma alma mais forte que a matéria que o sustenta. E, nesse aspeto, és a morfina da minha aura. Chateia-me desde sempre quem não entende a tua poesia - é a melhor poesia que existe no mundo inteiro. Escreveste-me umas rimas - e nem precisou de ser na língua materna para as enamorar para sempre:


"Misadventure, man, hold the tide that the heavens command.
All great epics are susteined by good soundtracks.
Every morning transcends every evening.
See the old and the youthfulness
of their grandchildren. See the easy prey,
the conservative governments, the collapse of roses
and the bitterness of cinema. You have so much, man;
be above you, man. Hear the marriage of the stars,
the twilight's communication of each one of them.
Dock the ship to an woman who loves you: not me.
Where is the singularity of all the tears that you have fallen?
Sets aside every - thing:
your North may well be your best South.
Open your eyes, man, and misadventure yourself."

Esta é a sintaxe do teu «amo-te», a metáfora do teu corpo nu, a personificação da tua culinária barata, a gramática das tuas danças na varanda, as rimas cruzadas do teu sinfónico ressonar. Só me resta desejar piedade, mulher, a quem não entende a tua poesia.
  
«jd»

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Palimpsesto: Parte IV

Quinta-feira outra vez. É a sétima quinta-feira que passo sem ti. O que faço às saudades e o que faço à louça? A tua mãe convidou-me para ir lá jantar: é a sétima vez esta semana que a tua mãe me convida para ir lá jantar. Onde está o santo do teu pai quando eu preciso dele? A minha ortografia é má, mas olha que a tua ausência é pior. Tenho sempre saudades tuas. Falta sempre o teu aroma - a casa cheira a mofo. Falta a tua forma implacável de seres mulher, a tua maneira egoísta de viveres em função dos meus prazeres, o teu inclinar empirista de seres conhecedora de todos os sonhos que te tenho de noite. Lembro-me quando tinhas a minha camisa vestida: Itália vestia-te tão bem. Saudaste a pizza e o homem que ta trouxe; depois fizemos um amor calmo nas caixas de cartão que ficaram vazias. Foi um amor gorduroso. Já vamos quase no final da semana e continuas a não saber o que significa palimpsesto?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Palimpsesto: Parte III

Já nem me lembro de como é que isto começou, a sério. Só te queria beijar uma vez. O mundo tem as suas singularidades perpétuas, não tem? Ontem quiseste ver os filmes dos vampiros outra vez. Estamos há um mês para ver o filme vencedor dos óscares e tu continuas a querer ver porcaria. Indolentemente, lá vou suportando as tuas manias e as tuas mesquineses, porque se há algo que acho insuportável é que alguém como tu tenha um mau marido. Sonhei contigo: nua - sobretudo. Foi a preto e branco, como se o carvão fosse sistemático quando estás quadrada no teu suor frio. Mereces o melhor dos maridos. Amei-te uma vez, e onde está a exclusividade disso senão em todas as vezes? Mereces o melhor. Nem que o melhor por vezes signifique ter lobos que sugam sangue a lutarem contra vampiros com focinhos peludos.

«jd»

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Palimpsesto: Parte II

Financeiramente a coisa está controlada. Temos a casa, temos o cão. A tua amiga incendiou a ideia de que um casamento perfeito precisa da faísca dos filhos. Há um prazer muito peculiar que toda a gente tem em desgastar a pouca felicidade que nos resta. Um dia vou ter saudades tuas, quando morreres antes de mim. Contra todas as promessas, hei-de fazer de tudo para que vás antes de mim. Ainda quero ter uns anos a sós para gozar a vida decentemente, entendes? Além disso, confio plenamente que não aguentarias fazer o luto caso me fosse embora primeiro. Mas financeiramente a coisa tá controlada.

«jd»

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Palimpsesto: Parte I

Somos norte. Gosto da relação tempestuosa que temos durante as temporadas do álcool, das drogas e do sexo que metemos no corpo um do outro. Gosto de saborear o tabaco lentamente - com o mesmo vagar com que te fujo ao beijo de vez em quando - e da efeminação que toleras no homem que já fui. Saliento muitas vezes, no seio do nosso grupo de amigos, que és a mulher que todo o homem como eu procura. És o sonho que muitas vezes me custa a discernir o certo do errado. As nossas atividades extracurriculares deixam-me quase sempre baralhado, mas nunca perco o norte.

«jd»

domingo, 12 de julho de 2015

Epílogo ao Camaleão

Indolor, transparente,
e o contágio do interlúdio.

Fontes encriptadas,
desenhos apercebidos,
crentes apaixonados
e a sede da tua saliva.

Somos todos parques naturais,
desbravados na inação
da tranquilidade.
A árvore faz-nos sombra,
a floresta cai-se toda no cimento,
e as cidades são vestígios de poeira
e musgo estragado.

Tenho-te mas não por muito tempo.

Tenho-te mas não por muito tempo,
que o comboio há-de chegar para
te levar de mim.

Enquanto houver uma sombra oxigenada,
haverá um sol a tentar estragar-nos
por cima dela.

Ter-te-ei para sempre.
Quero ser triste contigo,
capturar sons e imagens na tua doce parceria,
e na companhia de quem me trata bem.

Quero que me abanes, sejas
na eternidade borboreta; meu amor,
camaleões ficaram-nos para trás.

Tenho-nos mas não por muito tempo,
que daqui a pouco a delicadeza da paixão
já será só amor carnal.

Camaleões sugaram-nos a visão noturna,
sem termos nem decretos fechados,
era de noite sempre de dia,
mas não já mais.

Era preciso jogar-se um poema de cada
vez; agora escrevemo-los todos de uma vez.

O amor era indolor, transparente, contagiante,
mas camuflado em morfina hormonal.

Somos asas, triangulos deltas,
metamorfoseamo-nos em redor das gentes,
migramo-nos para dentro de nós mesmos;
somos belbellitas enamoradas,
poesias que coexistem em uníssono.

Somos a sede da tua saliva.

«jd»

terça-feira, 7 de julho de 2015

Rua Engenheiro Barbosa de Matos

     Há alguma acreditação no nome que te ganhei?    
     Hoje é dia de jogo grande. Estádio cheio, claques a sangrar por todos os lados, há quem traga crianças ao futebol, mas a mãe sempre achou irresponsável - shhh, cachecóis no ar, que se vai ouvir o hino. Pensava que vinhas sempre à bola quando jogamos contra os sarracenos lá de baixo. O Dragão está quase lotado e tu não estás cá; não estás, nops, senão eu via-te por aqui.
     Todo o conforto do mundo são somente pedaços de poemas, e as sombras projetadas nas nos tijolos das paredes são só amostras de poderes reformados. Um velho que precisa de sorrir, uma anedota que precisa de voar, um livro que precisa que incendiar, um rato que precisa de gatinhar. Tudo amostras, montras, de poder.
     Já vi o mundo de baixo e tu já me viste lá de cima. O mundo está pesado e o ar sobrelotado. Deixaste-me quando tinha 9 anos e nunca mais voltaste a ser tu próprio. Durmo de noite e nunca penso em ti. Já viste?, quão fracas são as minhas memórias para não me lembrar de ti?
     Ontem escrevi um poema e fui dormir; na noite anterior fiz o mesmo. Quantos poemas tenho de escrever para resgatar uma memória tua?
     Ensinaste-me a conduzir, a jogar à bola, a contornar as leis, a falar como um homem do norte, carago, e foste tu que me aparaste os primeiros pelos da cara. Floresci, tornei-me homem, por causa da mãe. Tornei-me irmão, um irmão ausente, por tua causa. Há tanta disputa em mim quando me lembro que não me lembro nem um bocadinho de como é a tua cara. Quando vejo a minha sombra à noite, sei que é só a lua a refletir luz. Mas que luz de merda.
     Estás velho, nunca soube contar-te a idade. Precisas de sorrir e de me lançar uma anedota para quebrar o gelo. Se pudesses, queimavas tudo o que tenho escrito sobre ti. Chegaste a ter sonhos para nós? Foste um rato que precisava de gatinhar, oxalá as minhas muletas te possam auxiliar.
     Ficaste parado e todas as outras pessoas continuaram a mover-se. Em que ano temos de parar todos para que nos alcances? Já passaram quê?, uns 15 anos?
     Sentes orgulho? Há alguma humildade no nome que te ganhei? Pensa. Um dia terei os meus putos, e eles terão o teu nome. Deus queira que nunca perguntem de onde é que ele vem.

«jd»

terça-feira, 23 de junho de 2015

Enxagua-me

Ao fim do dia fico sempre com aquela
estranha sensação de falta de estranheza; mas tu.

É tão árduo permanecer preso sem te conjugar
apaixonado, e é precisamente por esse motivo
que te amo.

Acordei ao teu lado duas
vezes: e foram vezes tão boas. Não foram?

Vou de metro para o trabalho, ou de autocarro
quando há greve - tem havido uma série delas -; mas tu.

Para onde caminhamos senão para sul? A bússula
tem andado avariada, mas só precisamos de uma
ou duas estrelas para nos guiar.

A tua sede enxaguada faz o resto.

Há comprimentos de onda, há gravidade
em todos os saltos que caem, pirâmides invertidas,
céus caídos, o campeão nacional
ficou em segundo lugar este ano; mas tu.

A tua mãe disse-me uma vez que
vícios novos não alimentam vícios antigos,
e recomendou-te-me.

Oxalá apareça amanhã
uma oportunidade de mudar o mundo devagarinho.

Tantos carros estacionados à tua janela, móveis
multados pelos parquímetros do pó; mas tu.

Andam metidos com cigarros alimentados a pilhas,
perpetuam o sofrer só pelo prazer da dor lenta.
Isto vai ser para queimar ontem:
hidrata-me amanhã.

A tua sede enxaguada faz o resto.

«jd»

domingo, 7 de junho de 2015

Fascículo nº8

Amanhã sonhei-te vestida sem roupa,
com as brasas a arrefecer os poros,
para que a tua garganta respire
abruptamente sobre os meus ouvidos.

Sonhar-te-ei sempre mais bonita,
e a companhia perfeita para as deusas
que pairam terrestres no verso.

A criança submerge,
as cores invertem, as guerras suspendem, os ventos abrandam,
voam coisas pela terra e aterram coisas pelo ar.

Faremos melhor da próxima vez,
talvez com mais roupa,
talvez com mais pertinência,
talvez mais sábios, mais velhos, mais velhos.

E mais velhos seremos mais joviais.

Ontem sonhar-te-ei sempre mais amor,
mais fantasma, mais sombra, mais penumbra,
do que ainda não há em mim
mas decerto haverá se Deus não quiser.

«jd»

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Já Fui Homem

     Quando irei encontrar alguém que não me mate todos os dias? O amor é algo bom, mas a paixão acaba por ser melhor.
     Tu és a peça, o amuleto, a chave sobressalente de uma mecânica híbrida e inteligente. És o fundo, o orçamento, pano traseiro de uma aventura que mata qualquer lamento.
     Não questiono os teus truques, não ambiciono o teu poder, não aclamo os teus vassalos e muito menos me dou à tragédia para te fazer sofrer. Sou tua filha, sou tua mãe, fazemos amor às vezes e não contamos a ninguém - não haveria quem acreditasse no incesto de rezar à hora de pôr o suor dos corpos a marchar.
     És viúvo e eu sou solteira. Morreu o meu marido, de enfarte - julgo eu. A tua namorada deixou-te para mim, meu Deus. Há gente muita parva, realmente.
     Não há grandes ciúmes, assumi há bem pouco tempo que a missionação era para mim. Deus é o meu único amor e sou-te ateia por convicção.
     Amo-te, meu Deus.
     A homossexualidade é um tema delicado: a antropologia rejeita, os católicos nem querem ouvir falar disso, mas os poetas têm mostrado um certo apetite por esse tema.
     Ludibria-me, homem, porque sou tua. Sim: sou tua. Tua mulher. Claramente, tua mulher.
     Aceito a tua metade - deixa a outra para quem amas. O amor é algo mesquinho, mas a paixão acaba por ser pior. Fizemos amor na estação dos comboios e houve um silêncio quando te vieste.
     O orgasmo é uma locomotiva e nós somos todos feitos de vapor.
     Entreguei-me em pedaços e exigi somente partes. Sou lésbica, sou freira, sou assassina. O meu nome é parecido com o teu. Deus não nos dotou, ficou lá para um canto e amuou.
     Não quero encontrar quem não me satisfaça, ou quem me baixe o ego, ou quem finja, ou quem esteja longe; desilude-me, por favor. O amor é algo mesquinho, mas a paixão vai permitindo desilusões.
     Não quero alguém que me faça sentir viva todos os dias; quero alguém que me mate todos os dias melhor que na véspera.

«jd»

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Eurritmia

- O sexo dos anjos é paradoxal, mas o amor é imutável.
- Não. O amor é a premissa mais elegante, e ilegal, de dizer que a loucura atingiu a sua máxima maturidade.
- Está no ponto.
- O nosso amor está no ponto.

Abuja, Asmara, Catmandu.
Há dois amores na sala; é uma relação a três, mas a mármore fresca do chão não conta - há estatísticas esquisitas quando se faz amor de maneiras tão e tão criativas.
Magoam-se, ferem-se, corrompem-se, aniquilam o que ainda sobrou da destruição massiva do amor e acabam sempre a fazer mais sexo. Pessoas trabalham, rotinas desgastam-se, o tempo é sugado pela gravidade do espaço entre nós posicionado, e o Universo não tem dado grandes tréguas à matemática religiosa.
Recalcamos aspectos verosímeis da existência, acrescentamos um pontinho ou outro à nossa demência, e resistimos à sociedade perversa, idiossincrática e vertiginosa.
- Está qualquer coisa boa acolá. Fala comigo.
- Não quero conversas. E discutir não serve para nada.
- O sexo dos anjos é paradoxal, mas o amor é imutável.
- Não. O amor é a premissa mais elegante, e ilegal, de dizer que a loucura atingiu a sua máxima maturidade.
- Está no ponto.
- O nosso amor está no ponto.
A maioria das pessoas rejeita estar numa relação perfeita, porque é mais fácil manter um amor estável se mostrar uma pitada de instabilidade.
No anexo deste mail deixo uma lista de coisas capazes de derrubar um bom amor.

Coisas capazes de destruir um bom amor:
1.
2.
3.

(lista por concluir)



«jd»

domingo, 10 de maio de 2015

Acidulando o Sexo

Consumido pela linearidade
invariável da poesia terrestre,
anacrónicamente disperso
entre as nuvens que não se vêm
porque a noite incorpora o verso.

A lua está de luto
e o sol vê a sua luz aos quadradinhos.
Nesta Era da Modernidade,
para que serve a polícia,
senão para assegurar a liberdade?

Censuras manuscritas,
analógicas, pitorescas e digitais.
Há amor nas esquinas das ruas,
mas jamais nas catedrais.

A prostituta observa-me,
oferece-me o seu ofício,
nota que eu sou poeta e
pede-me que a cante.
Deus criou esta - e outras criaturas -
para que fosse minha acompanhante.

Deserto a praia,
acampo na cidade,
desligo o ruído da chuva
e aumento a sinfonia do metal.
Sei que nada faz sentido, e é por isso
que já nem sei como me sentir mal.

Censuras manuscritas,
broches, minetes e anais.
Há amor nas esquinas das ruas,
mas jamais nas catedrais.

«jd»

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Li a Bíblia e Não Gostei

     O céu está lá, o céu estalará. Há medida que o céu arrefece, tentamos aquecer-nos debaixo dele. O sol é fotografado a negativo, a luz já não se faz e desaparece, e o quotidiano tende a não recuperar.
     Existem pessoas ainda com fôlego, mas sem grande margem para viver. A sobrevivência não é póstuma, a sobrevivência é hoje.
     Criar genericamente para destruir altruísticamente. Motivar e desiludir. Ortodoxos e protestantes, religiosos e ateístas amantes. O cerne ficará sempre por saber. O click, a motivação, a razão do ser. Tecer para crer?
     Há que ver para crer. E para querer, também. Os projetos, o mal, as convicções, o bem: são tudo alienígenas a cozinhar - de rabo para o ar.
     Tsunamis de palavras derrubam a barragem que não pára o rio que nos pensa. Há bares fechados, museus parasitados, mães inférteis e filhos por nascer. Há amores chegados e há amores partidos no aeroporto da conjetura. Já vi amores perdidos e já vi solteiros apaixonados: uns forçavam-se para se agarrar, outros pediam para serem agarrados.
     Detemos muita coisa, mas não detemos o amor. Admitimos ter a coragem, mas jamais a emoção. Haverá porventura o dia em que o céu nos caia no chão.
     Deus tem gostado do que criou; eu li a Bíblia e não gostei.

domingo, 12 de abril de 2015

Dardo Tranquilizante

A solidão é a liberdade
de estar preso à tua saudade:
é a penitenciária do isolamento,
é o estar só sem medo do lamento.

O fogo é apagado pelo som,
e já não há mais nada para incendiar,
oxalá haja um amanhã, ou um dom
para que um dia deixemos de nos repudiar.

Já tudo se ganhou, já tudo se perdeu,
deixa o luto de parte, e parte
para longe. Quem sou eu?

És o pássaro, meu amor, dizes-me tu,
és a flecha que te faz morto na mata,
e eu o vento, a brisa que a conduz:
e, se um dia o tempo nos matar,
enfrenta a gravidade e o espaço
que te devolverá à minha luz.

Porque não é velho
quem demora a desaparecer,
é velho quem, como eu,
se perlonga ao ver-te adormecer.

«jd»

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Versos do Policarpo

Não me recordo muito bem
de quando não te conhecia. A vida aconteceu-me
de uma forma muito peculiar,
muito intransigente, muito empírica.

Acreditas na reencarnação, meu amor? Eu
não me lembro das minhas outras vidas:
lembro-me de te conhecer
e do autêntico implodir que senti nas minhas veias,
e da velocidade do meu sangue a percorre-las,
quando me escreveste as tuas primeiras palavras,
os teus primeiros tweets, os teus primeiros versos.

Conheci-te com um tweet num mundo que
geralmente só se conhece depois de um beijo.

A minha intromissão, a tua falta resiliência;
há quem assuma que somos dados perdidos
numa estatística que mutila
quem se atreve a contraria-la.

Deram-nos como perdido,
tomaram-te como fraca, deram-me como irresponsável
- provamos exatamente o contrário:
a fraqueza está em mim e a tua
falta de responsabilidade
trouxe-nos a onde estamos.

E estou-te grato por isso.

Lembras-te quando eu não conhecia a tua voz
e pensava que era como a da Elena Tonra?

Há coisas engraçadas em conhecer-se uma pessoa
antes de se conhecer uma pessoa. Em parte,
considero fascinante a capacidade que a
Internet tem de evidenciar o melhor e o pior das pessoas.

Conheci-te num ambiente pouco sigiloso
de tweets e retweets
e argumento todos os dias que,
em nome da boa verdade e da transparência,
acabou por ser melhor do que te conhecer
num bar através de amigos de amigos.

Ainda guardo as nossas primeiras conversas;
outras estarão esquecidas, claro,
e é provável que tenhamos
de nos relembrar de tempos em tempos
de algumas histórias para não permitir
que caiam em esquecimento.

Estás caídinha por mim,
mas em minha defesa: ok.
A memória é um animal traiçoeiro,
não concordas? Há que o manter vivo
de vez em quando: só para o caso de.

A forma mais sublime de calar uma alma
é beijando-a sem recorrer à voz.
Oscula-me a alma, Lídia:

e que a eternidade tome conta de nós.

«jd»

segunda-feira, 30 de março de 2015

Estado de Sítio

Para onde levaste a coragem,

Colombo?
Um lápis à deriva
e tanto papel sob maré rasa,
há um indivíduo perdido
e uma bala que nos trespassa.

A agulha que perfura
já não dói, já não dura, já não imagina;

esta sina desenhada
de pernas para o ar, como
um país anárquico
sem pessoas, sem património, sem cultura,
cem nada de nada.

E continuam a haver os aventureiros, mas
a bravura já não é nossa.
E,
na Ocidental praia Lusitana, vendemos
a coragem pioneira, uma outrora estatura,
hoje presa numa fossa: à americana.

Para onde nos levaste a coragem,

Colombo?

Para uma super potência com cinquenta
estados,
e nós sendo uma
sub-potência, apenas com
um Estado em estado de sítio
não-declarado
.

Quando voltas com a tua coragem,

Colombo?

Colombo, colombo, lombo,
de músculo, de nervo, de gordura,
de tudo o que somente serve para
queimar, assim como queimam um país
desconectado, até para os seus,
à beira-mar plantado.

Para onde nos levaste,

Colombo?

«jd»

quinta-feira, 12 de março de 2015

Bodas de Nada

Cheguei tarde do trabalho, abri a porta de casa com todo o silêncio que consegui, pousei as chaves no móvel da entrada e arrastei-me como um corpo morto até ao quarto. Já estavas a dormir quando liguei a luz do corredor para me poder guiar minimamente, portanto consumi-me de todos os sons possíveis e evitei fazer ruídos.
Tenho sido um canalha, um estupor. Despi-me com todo o cuidado, as roupas ficaram espalhadas pelo chão do quarto - sei que não gostas da minha desorganização, mas amanhã arrumo tudo -, e deitei-me ao teu lado. Não sei se te hei-de abraçar e beijar: não há nada que receie mais do que te acordar - se há coisa que não desejo é retomar a discussão que tivemos nesta manhã. É uma cama king size, mas parecem duas camas de solteiro.
Há alturas para falar; e há vertigens que não me deixam falar.



É a terceira noite em que chegas de madrugada. Temos mesmo de mandar arranjar essa porta, porque o silêncio com que a abres é uma premonição de um enorme ruído entre nós. O que andas a fazer para já não investires em nós como dantes? Não ligues a luz do corredor, os miúdos têm o sono leve e ainda acordam com o teu barulho. És um desgraçado.
Vejo a tua sombra declamada pela iluminação amarela do corredor, mas recuso-me a olhar-te de frente. Tens sido um canalha. Oxalá depreendas as minhas costas como um sinal de carência. Ainda és tão bom a interpretar-me como eras no início?
Sabes a repulsa que sinto pela desorganização e ainda assim és incapaz de pendurar as roupas na cadeira. És tão infantil quanto os teus filhos. Sabias que tens filhos?
Porque que te deitas tão longe de mim? Porque é que já não me abraças?
Quando namorávamos a cama era infindável e o único espaço que importava era aquele em que nos recolhíamos no sexo um do outro; o que mudou desde aí?
Há momentos em que te quero; e existem intervalos em que continuo a querer-te.

«jd»

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

As Tulipas Não Sobrevivem Na Cidade

     Na cidade não existem paisagens que não tenham sido alteradas pelo homem, não existem virtudes que não tenham sido criadas pela mulher, nem sorrisos ou gargalhadas que não tenham sido construídas pelas crianças. Existem somente três pilares de coisas imutáveis: a indiferença de um homem experiente sobre a vergonha de um sem-abrigo a pedir comida para os filhos; a curiosidade dos turistas que nada sabem do país que visitam; e a compaixão de um taxista que fuma o cigarro antes de entrar para a viatura.
     Não estou em nenhum deles, mas hei-de ser um homem tanto parecido amanhã: já não darei a esmola, já não guiarei os franceses e os dinamarqueses pelos pontos de referência da cidade, e jamais gastarei sete euros numa viagem de dois quilómetros num táxi de 1992. Vou a pé, vejo o mundo a disfuncionar-se, vejo as gentes a perderem-se e escuto a natureza acorrentada pelo cimento citadino. Oxalá fosse eu um visionário, uma sombra qualquer, algo que nada nem ninguém perscrutasse, olhasse, recrutasse. A vida é tão boa e nós tão maus. Porquê é que o mundo não se melhora de vez em quando?
     Os políticos fingem saber, os jornalistas simulam expor, os poetas embelezam as palavras, os jovens apregoam novas regras que redefinem o mundo. Mas o mundo não é pioneiro em quase nada, as pessoas quase não amam, os bebés caem de pára-quedas, os animais subvivem em apartamentos, as flores não têm o espaço que precisam, e o amor moderno não tem contrato vitalício.
     A religião é um problema muito sério porque ensina doutrinas radicais a pessoas simbolicamente banais. Os manuais escolares tardam a desaparecer e a boa comida não se serve nos melhores restaurantes. Porquê é que o mundo não se melhora de vez em quando?

     A boa música ainda existe, mas já não satisfaz; os violinos são mal tratados, os pianos apunhalados, e a faculdade devia - devia - ser só música e cinema. A paz devia ser imperativa - devia -, mas as crianças cresceram demasiado e o rancor apareceu-lhes na fase adulta - para quê tantas armas num mundo onde existe o sexo?
     Ontem vi uma tulipa num jardim e beijei-a. Ontem vi uma tulipa num jardim e amei-a. Ontem vi uma tulipa num jardim e soube que ela era nossa amiga. Não nos compreendemos completamente, mas julgo que um dia a natureza tratará de nos desculpar. O universo é supremo e toma sempre as melhores decisões.
     Eu amo-te e tu amas-me. Não sei porque o mundo não se melhora de vez em quando, mas suspeito que ele espera que sejamos melhores do que fomos até aqui. Perdoemos o velho experiente, que ele não sabe muito sobre o que é calcar o embaraço de precisar de pedir para matar a fome; e perdoemos a ignorância dos estrangeiros, que as agências de viagem não sabem onde são os sítios mais bonitos e secretos para se ver o pôr-do-sol sobre o Douro; e o taxista, que sempre foi cobrador, mas nunca sentiu cobrado.
    A vida é uma questão de perspectiva e eu procuro quem tenha tanta compaixão quanto eu. Na cidade existem paisagens que ainda não foram adulteradas, são é ainda desconhecidas; existem virtudes que não tenham sido criadas pela mulher, mas pela mãe-natureza; e sorrisos ou gargalhadas construídas, não só pelas crianças, como pelos homens e mulheres do amanhã.
    O mundo devia melhorar-se de vez em quando; por enquanto o único primor és tu, meu doce.
«jd»

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Carta

     Cheio de amor: eis-me, minha doce companheira. Amor na banheira, amor pela brincadeira, amor pela tragédia, pelo azedo, cedo, pelo desconhecido, já não mais amigo. Amor pela guitarra, pelos noticiários, pelos boticários - esses mercenários solitários da vanguarda inexistente - e pela gente que nos mente e atraiçoa.
     Fosse o mundo perfeito, meu amor, fosse o mundo belo, para que as nossas crianças nele se pudessem passear, adorar o ar, adorar a terra, adorar o espírito verde da cidade que berra de saudade. Mas há morte, desencanto, vermelho cerrado de um sol perante o qual todos os dias me apresento e agiganto, e não creio que a terra onde outrora nasci seja doravante a terra onde se possa morrer. Retalia-se qualquer ato promíscuo: assim de certeza que a vida não nasce de novo. Alguém ajude os homens a perceberem-se melhor.
     Haja suor, carinho feito de suor, costas feitas escravas pelo tempo que nos demoramos a conhecer. Mas finalmente aportaste na minha vida, minha vida, e agora o tabaco já sabe pior do que antigamente me satisfazia. Porque sermos nós é nunca nos sujeitarmos a estar sós. E nus, desnudos de quem não sente, acabamos por pintar os sexos de uma forma completamente diferente.
     Um dia destes o vento soprará e Norte para trás ficará; para onde vou senão para ti?
     O que é a poesia que te escrevo senão a posição dos nossos corpos que jazem na cama? Eu sou-te insubstituível e tu também me és, mas eu respeito muito mais a minha solidão que tu a tua. E um dia vamos acabar ambos sozinhos. Mas hoje não é o dia, nem este é o homem; esta não é a crença, este não é o poema supremo que te escrevo; são só palavras, são sempre ou quase sempre só palavras que empunho e empenho sem salto, sem violência, sem mato, sem sequência, sem ato, sem transparência, somente verbos, somente verbos, somente sementes.
     Entendes, meu amor? Fosse o mundo perfeito, fosse este nosso mundo belo, para que as nossas crianças nele se pudessem passear, adorar o ar, adorar a terra, adorar o espírito verde da cidade que berra de saudade.
     E vissem o pai a berrar de saudades não pela cidade, mas pela amizade dos padrinhos e madrinhas que naquele serão tardio poderiam trazer valias e ensinamentos que doutro modo as crianças jamais terão.
     Cheio de amor: eis-me, minha doce companheira. E jamais confessarei a saudade que tenho dos amores que perdi e dos amigos balizáveis, pois somente as boas memórias me permanecem intocáveis.

«jd»