segunda-feira, 30 de março de 2015

Estado de Sítio

Para onde levaste a coragem,

Colombo?
Um lápis à deriva
e tanto papel sob maré rasa,
há um indivíduo perdido
e uma bala que nos trespassa.

A agulha que perfura
já não dói, já não dura, já não imagina;

esta sina desenhada
de pernas para o ar, como
um país anárquico
sem pessoas, sem património, sem cultura,
cem nada de nada.

E continuam a haver os aventureiros, mas
a bravura já não é nossa.
E,
na Ocidental praia Lusitana, vendemos
a coragem pioneira, uma outrora estatura,
hoje presa numa fossa: à americana.

Para onde nos levaste a coragem,

Colombo?

Para uma super potência com cinquenta
estados,
e nós sendo uma
sub-potência, apenas com
um Estado em estado de sítio
não-declarado
.

Quando voltas com a tua coragem,

Colombo?

Colombo, colombo, lombo,
de músculo, de nervo, de gordura,
de tudo o que somente serve para
queimar, assim como queimam um país
desconectado, até para os seus,
à beira-mar plantado.

Para onde nos levaste,

Colombo?

«jd»

quinta-feira, 12 de março de 2015

Bodas de Nada

Cheguei tarde do trabalho, abri a porta de casa com todo o silêncio que consegui, pousei as chaves no móvel da entrada e arrastei-me como um corpo morto até ao quarto. Já estavas a dormir quando liguei a luz do corredor para me poder guiar minimamente, portanto consumi-me de todos os sons possíveis e evitei fazer ruídos.
Tenho sido um canalha, um estupor. Despi-me com todo o cuidado, as roupas ficaram espalhadas pelo chão do quarto - sei que não gostas da minha desorganização, mas amanhã arrumo tudo -, e deitei-me ao teu lado. Não sei se te hei-de abraçar e beijar: não há nada que receie mais do que te acordar - se há coisa que não desejo é retomar a discussão que tivemos nesta manhã. É uma cama king size, mas parecem duas camas de solteiro.
Há alturas para falar; e há vertigens que não me deixam falar.



É a terceira noite em que chegas de madrugada. Temos mesmo de mandar arranjar essa porta, porque o silêncio com que a abres é uma premonição de um enorme ruído entre nós. O que andas a fazer para já não investires em nós como dantes? Não ligues a luz do corredor, os miúdos têm o sono leve e ainda acordam com o teu barulho. És um desgraçado.
Vejo a tua sombra declamada pela iluminação amarela do corredor, mas recuso-me a olhar-te de frente. Tens sido um canalha. Oxalá depreendas as minhas costas como um sinal de carência. Ainda és tão bom a interpretar-me como eras no início?
Sabes a repulsa que sinto pela desorganização e ainda assim és incapaz de pendurar as roupas na cadeira. És tão infantil quanto os teus filhos. Sabias que tens filhos?
Porque que te deitas tão longe de mim? Porque é que já não me abraças?
Quando namorávamos a cama era infindável e o único espaço que importava era aquele em que nos recolhíamos no sexo um do outro; o que mudou desde aí?
Há momentos em que te quero; e existem intervalos em que continuo a querer-te.

«jd»