quinta-feira, 12 de março de 2015

Bodas de Nada

Cheguei tarde do trabalho, abri a porta de casa com todo o silêncio que consegui, pousei as chaves no móvel da entrada e arrastei-me como um corpo morto até ao quarto. Já estavas a dormir quando liguei a luz do corredor para me poder guiar minimamente, portanto consumi-me de todos os sons possíveis e evitei fazer ruídos.
Tenho sido um canalha, um estupor. Despi-me com todo o cuidado, as roupas ficaram espalhadas pelo chão do quarto - sei que não gostas da minha desorganização, mas amanhã arrumo tudo -, e deitei-me ao teu lado. Não sei se te hei-de abraçar e beijar: não há nada que receie mais do que te acordar - se há coisa que não desejo é retomar a discussão que tivemos nesta manhã. É uma cama king size, mas parecem duas camas de solteiro.
Há alturas para falar; e há vertigens que não me deixam falar.



É a terceira noite em que chegas de madrugada. Temos mesmo de mandar arranjar essa porta, porque o silêncio com que a abres é uma premonição de um enorme ruído entre nós. O que andas a fazer para já não investires em nós como dantes? Não ligues a luz do corredor, os miúdos têm o sono leve e ainda acordam com o teu barulho. És um desgraçado.
Vejo a tua sombra declamada pela iluminação amarela do corredor, mas recuso-me a olhar-te de frente. Tens sido um canalha. Oxalá depreendas as minhas costas como um sinal de carência. Ainda és tão bom a interpretar-me como eras no início?
Sabes a repulsa que sinto pela desorganização e ainda assim és incapaz de pendurar as roupas na cadeira. És tão infantil quanto os teus filhos. Sabias que tens filhos?
Porque que te deitas tão longe de mim? Porque é que já não me abraças?
Quando namorávamos a cama era infindável e o único espaço que importava era aquele em que nos recolhíamos no sexo um do outro; o que mudou desde aí?
Há momentos em que te quero; e existem intervalos em que continuo a querer-te.

«jd»

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