sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

As Tulipas Não Sobrevivem Na Cidade

     Na cidade não existem paisagens que não tenham sido alteradas pelo homem, não existem virtudes que não tenham sido criadas pela mulher, nem sorrisos ou gargalhadas que não tenham sido construídas pelas crianças. Existem somente três pilares de coisas imutáveis: a indiferença de um homem experiente sobre a vergonha de um sem-abrigo a pedir comida para os filhos; a curiosidade dos turistas que nada sabem do país que visitam; e a compaixão de um taxista que fuma o cigarro antes de entrar para a viatura.
     Não estou em nenhum deles, mas hei-de ser um homem tanto parecido amanhã: já não darei a esmola, já não guiarei os franceses e os dinamarqueses pelos pontos de referência da cidade, e jamais gastarei sete euros numa viagem de dois quilómetros num táxi de 1992. Vou a pé, vejo o mundo a disfuncionar-se, vejo as gentes a perderem-se e escuto a natureza acorrentada pelo cimento citadino. Oxalá fosse eu um visionário, uma sombra qualquer, algo que nada nem ninguém perscrutasse, olhasse, recrutasse. A vida é tão boa e nós tão maus. Porquê é que o mundo não se melhora de vez em quando?
     Os políticos fingem saber, os jornalistas simulam expor, os poetas embelezam as palavras, os jovens apregoam novas regras que redefinem o mundo. Mas o mundo não é pioneiro em quase nada, as pessoas quase não amam, os bebés caem de pára-quedas, os animais subvivem em apartamentos, as flores não têm o espaço que precisam, e o amor moderno não tem contrato vitalício.
     A religião é um problema muito sério porque ensina doutrinas radicais a pessoas simbolicamente banais. Os manuais escolares tardam a desaparecer e a boa comida não se serve nos melhores restaurantes. Porquê é que o mundo não se melhora de vez em quando?

     A boa música ainda existe, mas já não satisfaz; os violinos são mal tratados, os pianos apunhalados, e a faculdade devia - devia - ser só música e cinema. A paz devia ser imperativa - devia -, mas as crianças cresceram demasiado e o rancor apareceu-lhes na fase adulta - para quê tantas armas num mundo onde existe o sexo?
     Ontem vi uma tulipa num jardim e beijei-a. Ontem vi uma tulipa num jardim e amei-a. Ontem vi uma tulipa num jardim e soube que ela era nossa amiga. Não nos compreendemos completamente, mas julgo que um dia a natureza tratará de nos desculpar. O universo é supremo e toma sempre as melhores decisões.
     Eu amo-te e tu amas-me. Não sei porque o mundo não se melhora de vez em quando, mas suspeito que ele espera que sejamos melhores do que fomos até aqui. Perdoemos o velho experiente, que ele não sabe muito sobre o que é calcar o embaraço de precisar de pedir para matar a fome; e perdoemos a ignorância dos estrangeiros, que as agências de viagem não sabem onde são os sítios mais bonitos e secretos para se ver o pôr-do-sol sobre o Douro; e o taxista, que sempre foi cobrador, mas nunca sentiu cobrado.
    A vida é uma questão de perspectiva e eu procuro quem tenha tanta compaixão quanto eu. Na cidade existem paisagens que ainda não foram adulteradas, são é ainda desconhecidas; existem virtudes que não tenham sido criadas pela mulher, mas pela mãe-natureza; e sorrisos ou gargalhadas construídas, não só pelas crianças, como pelos homens e mulheres do amanhã.
    O mundo devia melhorar-se de vez em quando; por enquanto o único primor és tu, meu doce.
«jd»

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