quinta-feira, 2 de abril de 2015

Versos do Policarpo

Não me recordo muito bem
de quando não te conhecia. A vida aconteceu-me
de uma forma muito peculiar,
muito intransigente, muito empírica.

Acreditas na reencarnação, meu amor? Eu
não me lembro das minhas outras vidas:
lembro-me de te conhecer
e do autêntico implodir que senti nas minhas veias,
e da velocidade do meu sangue a percorre-las,
quando me escreveste as tuas primeiras palavras,
os teus primeiros tweets, os teus primeiros versos.

Conheci-te com um tweet num mundo que
geralmente só se conhece depois de um beijo.

A minha intromissão, a tua falta resiliência;
há quem assuma que somos dados perdidos
numa estatística que mutila
quem se atreve a contraria-la.

Deram-nos como perdido,
tomaram-te como fraca, deram-me como irresponsável
- provamos exatamente o contrário:
a fraqueza está em mim e a tua
falta de responsabilidade
trouxe-nos a onde estamos.

E estou-te grato por isso.

Lembras-te quando eu não conhecia a tua voz
e pensava que era como a da Elena Tonra?

Há coisas engraçadas em conhecer-se uma pessoa
antes de se conhecer uma pessoa. Em parte,
considero fascinante a capacidade que a
Internet tem de evidenciar o melhor e o pior das pessoas.

Conheci-te num ambiente pouco sigiloso
de tweets e retweets
e argumento todos os dias que,
em nome da boa verdade e da transparência,
acabou por ser melhor do que te conhecer
num bar através de amigos de amigos.

Ainda guardo as nossas primeiras conversas;
outras estarão esquecidas, claro,
e é provável que tenhamos
de nos relembrar de tempos em tempos
de algumas histórias para não permitir
que caiam em esquecimento.

Estás caídinha por mim,
mas em minha defesa: ok.
A memória é um animal traiçoeiro,
não concordas? Há que o manter vivo
de vez em quando: só para o caso de.

A forma mais sublime de calar uma alma
é beijando-a sem recorrer à voz.
Oscula-me a alma, Lídia:

e que a eternidade tome conta de nós.

«jd»

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