Não há espaço de manobra, de alteração, de projeção e de sonho. Não há mais para além disto: deste forno desmesurado, desta pátria quente mas esquecida. E a quem me conta que o sonho dos antigos seria o mar, convido a procurar na nossa costa a tentação de caçar projetos no horizonte.
Os velhos ainda sabem o que tem valor e dizem-me muitas vezes que já houve alguém a sonhar algo mais para nós do que nós mesmos. Escritores cantaram que a juventude não sabe o que pode, nem os velhos podem o que sabem. Pensadores pensaram o mesmo. Políticos julgaram-no também.
Por eles choro enquanto a pátria nos escreve. Entre sons, cadeiras e mesas são juntas, num semicírculo imperfeito. Há anões nas freguesias do interior e gigantes nas florestas, fogo desempenhado e oxigénio a encaixar o fundo de desemprego. Há o oceano com lágrimas de autor, peixes conservadores e pequenas encostas desapoiadas. Há vilas esquecidas e idosos com bolsos cujas traças desbastaram não só o tempo, como também o espaço neles preenchido. Há community holes, rascacielos interraciales e penhascos de les gens riches et illustres.
Há mandamentos, paradoxos, convenções sociais, imigrantes nativos. Há gente letrada, gente empenhada, gente que rouba e gente outrora roubada. Há manifestos, aclamações, saudades. Há o socialismo do dinheiro e o capitalismo de quem enche a terra. Há uma mixórdia totalitária e o total confundido com a solitária.
Eu choro enquanto a pátria nos escreve, mas há sempre um violino e há sempre um telhado onde ele pode ser assobiado. Há sempre um público - algo magnífico, algo tão magnífico - que nos força a bater palmas pelo nosso próprio teatro. Há cenas e capítulos, tantos séculos e fronteiras tão antigas, mas eu choro enquanto a pátria nos escreve.
Somos a geração do ontem, mas tão presentemente focados no futuro. Exigem-nos inovação, dedicação ao depois, posterização de um marco de ansiedade nas páginas em branco do amanhã, inversão do anteceder, atualização do sussurro do agora. Empenho não falta, reconheço-o. Dedicamo-nos somente na idealização, da projeção do protesto, e não somos capazes de erigir do suco de vácuo.
E que vácuo que para aqui anda! E que falta de orientação, que falta de sensibilidade acerca da agressão de preconceitos: há que os agredir com porrada da velha. Partir narizes, partir pernas, partir braços, partir clavículas, a todos os que nos impedem de avançarmos mais - se queremos progredir, primeiro temos de não pedir e simplesmente partir; destruir.
Há sempre presente uma tonalidade de devastação que antecede uma obra. Ao artista pede-se que desbloqueie rios, mares, que ligue fronteiras, locais invisuais, tempos desconectados.
Do verdadeiro renascimento vem sempre o verdadeiro quebramento. Há que quebrar, torcer, para vencer: permitam-mo, por favor, porque há um local onde desejo morrer; tantos outros onde desejo viver: e em todos eles vislumbro Portugal.
«jd»
Dando seguimento à diretriz
composta no Pseudomunduo:
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