É ridícula a forma como a vida nos despeja as coisas más: não avisa; não sente pena; não perdoa; não poupa - não nos poupa - a nada. Despeja, carrega, tudo o que nos é prejudicial e não decreta uma forma pouco hostil de o fazer. Se é para fazer sofrer, a vida é intolerante. Faz sofrer de uma forma tão indelicada que nos abalroa com toda a força. Há comboios que são mais subtis do que o choque que o sofrimento nos provoca.
A ausência de sofrimento é o estado prematuro da doença que a vida nos é. Esse vírus, essa doença, tão perspicaz, aparece sempre quando não contámos com ela. O sofrimento só aparece quando a vida nos ilude, nos enche, com coisas boas - coisas mesmo boas. Quando a vida te premiar com coisinhas lindas e boas, suspeita. Suspeita dela: é o conselho que aqui deixo.
Eu suspeito da vida nos momentos em que estou triste e amargurado. Já o faço tarde - devia ser menos ingénuo: devia estranhar quando uma sucessão de coisas boas aparece em cadeia, mas não - a vida moldou-me desta forma para eu não ter como me defender. Filha da puta.
A vida é ridícula.
A vida trama-nos e depois, se queremos sair dessa teia meticulosamente engendrada, temos de nos abstrair da merda que ela nos plantou. No que a mim me diz respeito, tenho concluído que abstrair-me é trair-me. Abstrair-me dos meus problemas é trair tudo aquilo em que mais quero pensar: no real; no eu; na verdade do que me rodeia; no monte de merda de "desafios" que a vida "planeou" para mim.
Abstrair-me é trair-me.
Quando me abstraio das questões que me consomem, rompo o fio que me liga ao mundo térreo - crucifico os pensamentos em prol de uma errónea sensação de bem-estar.
É errado pensar que fugindo aos temas que doem somos mais serenos. É errado - é a coisa mais errada - pensar que precisamos de nos esquivar de matutar e mastigar as indisposições para sermos, ainda assim, - moderadamente - felizes.
Não. Não.
Se ambicionamos alguma paz de espírito, temos de ter alguma ferocidade para moer e remoer os assuntos que nos moem e remoem: só assim conseguimos a abstração basilar para não nos trairmos. Abstrair-me é trair-me. Há-de sê-lo assim até que a vida decida parar de me ridicularizar.
As coisas más vêm e não vão. Aparecem - sem aviso prévio - e não há forma de as expulsar. Passamos os momentos bons a semear felicidade em nós e nos outros. Quando a vida estipula que essa felicidade tem de acabar, não é somente a nossa que acaba: ninguém, à nossa volta, sai impune. Se plantaste - se contagiaste - a tua felicidade a alguém, ficaste inteiramente responsável pela ligação que criaste. Gerar felicidade numa pessoa acarreta uma responsabilidade tão ínfima e chocante que, quando o teu momento áureo se desvanece, a felicidade da pessoa com quem a partilhaste também sucumbe.
É o dom, ou a maligna dádiva, que a partilha traz.
«jd»
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