quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

É Sempre Pouco Para Quem É Pouco

      O inverno ajuda a discernir entre quem é rico e quem é pobre: o primeiro, enriquece na lareira que o seu capital concedeu; o segundo, cinge-se a esmiuçar as migalhas enregeladas que Deus lhe permitiu. João pendurava-se na linha ténue que separa o dador do donatário: a singela fronteira que dividia o rico do pobre – ao nosso jovem nunca lhe faltou o que comer, nem formas de vencer o frio.
      Naquele solstício – em que as árvores se agasalhavam em casacos de neve -, João recebeu uma carta que lhe trouxera uma triste novidade: a sua tia Clara, senhora de um latifúndio de vinha no Norte, havia sido vítima da sua idade. Viúva e sem descendentes, decide deixar todos os seus bens ao seu único sobrinho - não fosse o Estado roubar-lhe a centenária herança.
      Num ambiente cortado de frio, João dirige-se até à terra da sua tia para lhe prestar uma última homenagem porque, embora nunca a tivesse conhecido na intimidade, não deixava de ser família.
A cerimónia decorreu como qualquer ato fúnebre decorre: negros vestidos de amigos e lágrimas a escorrerem pessoas.
      Sem ligações à vinha, João decide vender a quinta e recomeçar a sua vida. Compra casa e fixa-se em Penafiel; trata de arranjar cavalo, para que nunca ficasse privado de passear. Agora abastado, passou a refugiar-se em si mesmo. Na vila, especulava-se sobre quem seria aquele homem que, envolto em mistério, nunca interagia com o povo.
      Um dia qualquer - como todos os dias são quaisqueres -, alguém descobriu que o João era dono de uma imensa fortuna. Como é previsível numa terriola, quando se quer guardar um segredo, cedo o boato voa de boca em boca como vocábulos baratos de sopeira em sopeira. E foi o que aconteceu: em coisa de duas semanas, João recebeu à porta dezenas de pedintes que, tal como ele já vivera, também (sobre)viviam no limiar da pobreza.
      João, que teve uma célere ascensão, socorreu grande parte dos populares, emprestando-lhes o seu dinheiro; no entanto, passou a cobrar juros altíssimos sobre essas “doações” monetárias. Quem antes era pobre, quem antes nada tivera de fizer para deixar de o ser, hoje não se contivera com a abastada herança que havia recebido. João, que também já vivera da dieta das migalhas, tornara-se impiedoso para o estrato social do qual provinha. O que tinha, que era muito mais do que o que podia gastar, já se lhe tornara pouco.
      E é sempre pouco para quem é pouco.

«jd»
Um primeiro conto:
"O João é ganancioso"

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