O inverno ajuda
a discernir entre quem é rico e quem é pobre: o primeiro, enriquece na lareira
que o seu capital concedeu; o segundo, cinge-se a esmiuçar as migalhas
enregeladas que Deus lhe permitiu. João
pendurava-se na linha ténue que separa o dador do donatário: a singela fronteira
que dividia o rico do pobre – ao nosso jovem nunca lhe faltou o que comer, nem
formas de vencer o frio.
Naquele solstício
– em que as árvores se agasalhavam em casacos de neve -, João recebeu uma carta
que lhe trouxera uma triste novidade: a sua tia Clara, senhora de um latifúndio
de vinha no Norte, havia sido vítima da sua idade. Viúva e sem descendentes,
decide deixar todos os seus bens ao seu único sobrinho - não fosse o Estado
roubar-lhe a centenária herança.
Num ambiente
cortado de frio, João dirige-se até à terra da sua tia para lhe prestar uma
última homenagem porque, embora nunca a tivesse conhecido na intimidade, não
deixava de ser família.
A cerimónia decorreu como qualquer ato fúnebre decorre: negros vestidos de amigos e lágrimas a escorrerem pessoas.
A cerimónia decorreu como qualquer ato fúnebre decorre: negros vestidos de amigos e lágrimas a escorrerem pessoas.
Sem ligações
à vinha, João decide vender a quinta e recomeçar a sua vida. Compra casa e fixa-se
em Penafiel; trata de arranjar cavalo, para que nunca ficasse privado de passear. Agora
abastado, passou a refugiar-se em si mesmo. Na vila, especulava-se sobre quem seria
aquele homem que, envolto em mistério, nunca interagia com o povo.
Um dia qualquer - como todos os dias são quaisqueres -,
alguém descobriu que o João era dono de uma imensa fortuna. Como é previsível
numa terriola, quando se quer guardar um segredo, cedo o boato voa de boca em
boca como vocábulos baratos de sopeira em sopeira. E foi o que aconteceu: em
coisa de duas semanas, João recebeu à porta dezenas de pedintes que, tal como
ele já vivera, também (sobre)viviam no limiar da pobreza.
João, que
teve uma célere ascensão, socorreu grande parte dos populares, emprestando-lhes o seu dinheiro; no entanto, passou a cobrar juros altíssimos sobre essas “doações”
monetárias. Quem antes era pobre, quem antes nada tivera de fizer para deixar de o ser,
hoje não se contivera com a abastada herança que havia recebido. João, que
também já vivera da dieta das migalhas, tornara-se impiedoso para o estrato
social do qual provinha. O que tinha, que era muito mais do que o que podia gastar, já se lhe tornara
pouco.
E é sempre
pouco para quem é pouco.
«jd»
Um primeiro conto:
"O João é ganancioso"
"O João é ganancioso"
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