O que importa a toda a gente - porque toda a gente é lobo de si mesmo - é vitimar-se ao máximo; mas é errado pensarmos que nós somos as maiores vítimas da crueldade do mundo. Quando um gajo se vitima acaba por demonstrar falta de modéstia, porque não consegue admitir que pode estar errado. E pior: essa auto-vítimização é uma espécie de desonestidade intelectual em relação a toda a gente que, à sua volta, sofre com situações bem mais problemáticas.
No momento em que nos queixamos de algo que não nos está a correr bem, essa queixa passa sempre impune. Passa impune porque não temos uma plateia que a ouça; contudo, quando fazemos queixinhas por isto e por aquilo, tendemos a criar um ciclo vicioso de falar por falar, de nos tornar coitadinhos apenas com o intuito de mostrarmos que, nesse preciso momento, não somos tão bem sucedidos como outros - que somos coitadinhos. E isso é, convenhamos, coisa de coitadinho.
O vitimar, quando é gratuito, sai-nos caro. Sai-nos caro porque criamos, na plateia - quando a há -, a ideia de que se existir uma pirâmide de sorte, nós estamos no estrato abaixo do estrato que está em baixo.
Que somos os coitaditos: os lobos de nós mesmos - para que tenham pena de nós.
Que somos os coitaditos: os lobos de nós mesmos - para que tenham pena de nós.
Para o gajo que se auto-vitima, o vilão é a vida e o pobre coitado é ele próprio. "Ai vida, porque és tão cruel?"; "ai vida, porque me fazes isto a mim?".
É pura, a mais pura, manipulação.
Fomenta-nos a ideia, a emoção - se preferirem -, de que é um coitadito que merece toda a nossa pena - e nós, se não formos suficientemente inteligentes, caímos nessa rasteira. De queixos.
Só devíamos ter pena de quem de si a tem - só devíamos ter pena de quem se esforça por a merecer.
Há ainda o argumento do relatividade do problema que a pessoa está a viver, mas até esse me parece falacioso - não acredito que a auto-vítimização saia impune à comparação. Somos forçados, pela nossa fraca Natureza, a comparar a nossa coisa com a coisa do outro (e juro por Deus que não estou a falar do tamanho dos órgãos masculinos). É por essa razão, talvez, que os nossos familiares tanto usam e abusam da premissa do sem-abrigo, que "não tem comida, nem casa, nem brinquedos", para nos ensinar a dura lição de que a vida é mais complicada para quem está no estrato abaixo do nosso. E, também, para nos garantirem que nós nunca estaremos nesse ponto da pirâmide.
É pura, a mais pura, manipulação.
Fomenta-nos a ideia, a emoção - se preferirem -, de que é um coitadito que merece toda a nossa pena - e nós, se não formos suficientemente inteligentes, caímos nessa rasteira. De queixos.
Só devíamos ter pena de quem de si a tem - só devíamos ter pena de quem se esforça por a merecer.
Há ainda o argumento do relatividade do problema que a pessoa está a viver, mas até esse me parece falacioso - não acredito que a auto-vítimização saia impune à comparação. Somos forçados, pela nossa fraca Natureza, a comparar a nossa coisa com a coisa do outro (e juro por Deus que não estou a falar do tamanho dos órgãos masculinos). É por essa razão, talvez, que os nossos familiares tanto usam e abusam da premissa do sem-abrigo, que "não tem comida, nem casa, nem brinquedos", para nos ensinar a dura lição de que a vida é mais complicada para quem está no estrato abaixo do nosso. E, também, para nos garantirem que nós nunca estaremos nesse ponto da pirâmide.
Sublinho: nunca. E que, mesmo achando que estamos, devemos olhar abaixo de nós, pois lá encontraremos alguém. Somos só lobos de nós mesmos.
«jd»
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