quinta-feira, 20 de março de 2014

Cobardolas a Full-Time

     Pensei, durante a semana, que iria desistir; pensei que iria abrir mão daquilo em que mais devia insistir. Desistir é, de certo modo, deixar de mandar vir - é deixar de encomendar: o sermão. Não estive lá para ser feliz; estive lá para manter os outros capazes de se verem felizes: fui, portanto, um manipulador do estado de espírito dos outros.
     E ainda me chamaram de amigo.
     Um amigo é, nos momentos delicados, o cobardolas que te impinge a visualização da vida de um prisma diferente do teu; é o cobardolas que te amena o espírito e que te seda os suicídios; é o cobardolas que se te injeta juízo no pensar vácuo; é o cobardolas que te faz precisar da companhia dele.
     E eu fui um cobardolas a full-time.
     O mundinho tá atestadinho de cobardolazinhos - graças a Deus. Os cobardolas - raça graciosamente pragmática - são quase omniscientes, quase omnipresentes, quase omnipotentes. Quase, em suma, uma base. Quase, em suma, uma base: eis uma boa definição do que é um amigo. Alguém que quer ser tudo, que luta por ser tudo, mas que só chega ao meio-alcance - alguém que fica pelo quase.
     Os amigos são precisos para nada e é por isso que são tão necessitados: para quando nós somos nada - para quando nos sentimos nada. Quando te sentes nada e dizes que não precisas de um cobardolas para nada - que não precisas de um amigo para nadinha -, já estás a enviar um pedido de socorro. De socorrinho.
     O amigo nunca está lá para ser feliz: está lá para te fazer sentir capaz de. De? Qualquer coisa. Nem que não consiga fazer tudo aquilo com que se compromete. Qualquer coisa é sempre qual quer coi sa. Pode nem conseguir fazer tudo, mas faz-te passar de óbito declarado a zé ninguém.

«jd»

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