Se o nosso apaixonar não tivesse sido concebido desta forma tão ridiculamente fácil, seria só ridículo. E o coração também, porque quem insiste não sente e quem sente deixa de forçar o sentir, porque ele, esse sentir, sai quem nem um projétil e é tão difícil pará-lo quando já vai lançado: não é, meu amor?
Hás-de morrer primeiro que eu, Deus assim queira, porque a minha mãe sempre me ensinou a ser cavalheiro e sinceramente não sei como me chorarias sem te morreres de mim aos poucos. Já pensei em desejar-te morta, mas só por uns momentos, por saber das tuas fragilidades - sabes que suportaria melhor a tua perda que tu a minha, mas olha que eu sofria muito e os miúdos que vamos ter precisam de uma boa e presente mãe que vais ser.
Não quero que morras depois de me teres dado todas as ferramentas que preciso para ser feliz: falo, evidentemente, dos teus atributos físicos. Não sou lá muito de meias palavras e proíbo-te, agora mesmo, de te entregares a outro Deus que não eu mesmo. Esperei a vida toda por alguém igualmente imortal e nem gosto de te pensar frágil e humana porque isso faz-me doer tudo. Eu adoro doer-me; mas livra-me desse encarceramento divinal, meu amor.
Nunca me esqueci da nossa primeira noite juntos nem do nosso primeiro café e cigarro: esperei a vida toda por esse café e esperei a vida toda por esse cigarro, que nos soube tão bem, lembras-te? Dividimos o cigarro e depois pusemos mãos à obra e só paramos quando começamos a dividir uma casa. A casa só tinha uma cama, um caderno e um lápis mas nós fomos tão felizes assim, não fomos? Eu dormia e tu escrevias nas minhas costas a paixão que me tinhas. Acabamos por fazer um investimento brutal quando compramos uma grotesca caneta bic, porque o pobre do lápis não era um suficiente enunciado de uma vida longa e próspera, pois não?, meu amor?
Comi-te na cama, banhei-te na cama, dormi-te na cama, curei-te na cama, corri-te na cama, batizei-te na cama, estudei-te na cama, li-te na cama, socorri-te na cama, gargalhei-te na cama, alimentei-te na cama e filosofei-te na cama.
Aquela cama foi um templo e nós fomos os deuses lá do sítio.
Tenho saudades da cama e tenho saudades tuas, meu amor. Quando voltas?, olha que se tiver de esperar uma vida toda, eu espero.
«jd»
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