segunda-feira, 14 de julho de 2014

Terceira Parte da Mutilação Formal

     Conheci-te hoje e - já nem me interessa se acreditas ou não - ontem já te amava.

     Decidi tornar-me um sofredor e, quando finalmente consegui aprender a sê-lo, quando desvendei o mistério do que era a dor e porque que ela custava tanto a toda a gente, tu ficaste exposta - depois de entenderes que eu não era um monstro, que sofria como um animal, fizeste-me apaixonar por ti e há quem diga que foi aí que começou a verdadeira agonia.
     Se eu sabia que a dor que os poetas tanto cantam era isto, teria permanecido um ignóbil servo da imortalidade.
     "Já te roguei tantas pragas que já nem conto pelos dedos as vezes que fizemos amor": é a tua melhor frase e acredita que também a uso, frequentemente, nas tuas costas.
     Um imortal não sabe o que é o amor, o sexo - ou aquela coisa que nós andamos fazer -, porque nunca experimentou a náusea de viver com prudência:
     é que o amor - assim como o sexo - é um machado; e a vida nada mais é do que um punho por ele aberto e mutilado.

«jd»

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