sábado, 24 de maio de 2014

"Insaciável"

    "Tenho sede dos teus lábios, meu amor: nem imaginas a falta que me fazem. O momento em que os deixei foi o momento mais sombrio que já vivi. O momento que me separou deles – e de ti, meu amor – iniciou as saudades que agora sinto. Não percebo porque dizem que sentir saudades é saudável. Ter saudades dos teus lábios – e de ti, meu amor – é o veneno que me mata aos poucos.
     Tenho fome de ti, meu amor. Mas isso já é outra conversa. Ainda ouço a tua respiração junto ao meu ouvido – sim: sei que já passaram meses, mas ainda a ouço. Tenho fome de ti, meu amor, e das respirações que se encontraram e se completaram num momento de puro amor.
     O amor foi a melhor invenção de sempre. Quem o inventou decerto não sabia a obra-prima que estava a fazer. As obras-primas não são fruto da consciência, mas sim de uma pura demência. Quem inventou o amor é, decerto, um demente. Um demente feliz. Um génio. E eu amo-te, meu amor.

     Passaram-se meses e eu continuo a amar-te (confesso que um pouco mais) como na última vez que os meus lábios se encontraram com os teus. Tenho sede dos teus lábios, meu amor. E tenho fome de ti, mas isso já é outra conversa.
     Estás longe, mas nada me dá mais prazer e, ao mesmo tempo, dor do que imaginar-te aqui comigo. Gosto de reproduzir, em mim, as imagens que tenho de nós. Que prazer, que dor! A vida é um paradoxo, não é meu amor? A distância foi a pior invenção de sempre. Quem a inventou não sabia o atentado à felicidade que estava a fazer. Quem inventou a distância que nos separa – e que nos une cada vez mais – é um infeliz. Um falhado infeliz. A distância faz-me ter sede dos teus lábios. A distância faz-me ter fome de ti, mas isso já é outra conversa.
     Imaginar-te comigo aqui é pensar em ti, e pensar em ti é o meu maior prazer. Nada me dá mais prazer do que pensar em ti. E desculpa-me a ousadia, mas tenho mais prazer a pensar em ti do que com todos os orgasmos que me proporcionas. Pensar em ti faz-me ter sede dos teus lábios. Pensar em ti faz-me ter fome de ti, mas isso já é outra conversa.

      Mais uma vez escrevi para ti. Não me interessa escrever se não escrever para ti. No dia em que deixar de escrever para ti considera que morri. Escrever só vale a pena se for para ti - sim: para ti, meu amor. Escrever para ti faz-me ter sede dos teus lábios. Escrever para ti faz-me ter fome tua, mas isso já é outra conversa."

«A.S.»

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