sábado, 10 de maio de 2014

O Presidiário

     Estou preso a ti por ter feito de nós vítimas de amores, mas juro por Deus que me comprometi a pagar a minha dívida à sociedade. O advogado falou-me em vinte e três anos e eu dei-lhe um valente aperto de mão. A situação não me agradou, mas ele disse que conseguiu atenuar a minha pena por pena minha: «um amor destes não resistia a vinte e cinco anos de separação», disse-me ele. Pobre rapaz: não sabe mesmo com quem está a lidar. Tu chamar-lhe-ias cabrão. Sempre foste tão politicamente elegante a insultar. Olha, davas-te bem aqui.
     Fui preso já lá vão duzentos e setenta e quatro meses, cinco dias e umas três horas. Há quem diga que foi uma sorte - até foi. Só não me mandes para a solitária, amor, porque não sobrevivo sem o teu recreio.
     A comida na cantina é uma merdice de chorar por mais, dado o apetite, e até sinto o desconforto quando, mesmo não sozinho, tomo banho sem ti. Não te apoquentes, meu amor: não há cá sabonetes, o gel é líquido e até a minha saudade de ti é um creme de banho de marca branca.
     São mais vinte e quatro meses aqui, mas nem penses em dar-me liberdade antes dos cento e vinte anos, que eu adoro a falta de espaço que tenho conseguido.
     Amo-te prisão!
     Minha prisão: eis uma declaração de amor criminosa. Aponta essa, senão esqueces-te.

«jd»

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