segunda-feira, 9 de junho de 2014

Clepsidra

    Não tenho escrito.
    O que é a vida se não se escreve? O que é, ou quem é, quem não escreve? Os teus pais diziam que é preciso ser-se muito insensato para vivermos desta forma - eu não sei o que eles queriam dizer com aquilo, mas também não importa porque a mim basta-me que a frase se enquadre nesta minha dor em particular. E na tua também, particularmente.
    Não tenho escrito e não sei o que é escrever quando o tento fazer. Não sei saber o que é a boa leitura e só Deus sabe o que é tentar dar valor a um escritor quando só se pensa anarquicamente na lógica da nossa obra. Quando a nossa escrita fica um caco, jamais haverá outra boa leitura que o remende.
    "É o tempo", dizem.
    Para que serve a clepsidra, senão para medir o tamanho do nosso amor?
    Se o tempo me desse tudo, já te teria trazido de volta para mim. Se o tempo fosse o D. Afonso Henriques cá do sítio, já teria dado uma coça à tua mãe para te trazer de volta para mim. O tempo não é herói, o tempo é o cabrão que te tem longe de mim. E longe vai o tempo em que te tive perto de mim.
    Não é a distância que encurta quando me aproximo de ti, porque em nós a distância mede-se em tempo. "É o tempo", diz quem sabe, que nos aproxima; é o tempo que nos mutila, também; mas nós sabíamos onde nos estávamos a meter quando nos decidimos a meter com ele.
    Não tenho escrito e não faço a mais pálida - desfalecida - ideia do que é a vida quando não se escreve. Também não sei o que é a vida quando não te tenho onde o tempo nos tem, mas hei-de descobrir quando esse tempo acabar.
    Já pus a ampulheta a funcionar e agora só espero pelo asilo da tua companhia. É amanhã?, espero que sim. Traz as tuas melhores roupas e uma muda extra, porque vamos cingir-nos ao amar.
    Quero imigrar para dentro de ti e sei que queres o mesmo, porque me dizes todos os dias que eu sou a tua salvação. O que é uma salvação quando não serve para matar?, o que é o tempo, ou para que serve o tempo, quando não é para se matar?
    Pode parecer-te arrojado, mas para mim até podia ser rotineiro. Sim: bora matar o tempo. Dizem.

«jd»

Sem comentários:

Enviar um comentário