sábado, 29 de novembro de 2014

Estrídulo, Moteis, Qualquer Coisa e Nudez

      Há ruído na cidade e eu não o ouço - faço-me despercebido das entranhas estranhamente angelicais que banham o sítio onde moro. Ninguém é puro e eu sou: sou só; nada - jamais até - puro: apenas sou. Eu.
      Há barulho por todo o lado e no motel jaz o silêncio. Encontramo-nos lá, como de costume, e brindámos a nós mesmos pela cumplicidade de nos encontrarmos nas nossas agendas. É magnífico o não-planear e eu sei, muito provavelmente melhor que ninguém, que não existe coisa neste mundo que te excite mais do que a rotina do nosso encontro casual. Finjo-me, muitas vezes, um estranho; e tu finges-te, muitas vezes, mentirosa. Mas o amor é desta matéria feito e não há ninguém neste mundo que me faça percebe-lo de forma desigual.
      Há tanto, tanto, alarde na cidade.
      Já vimos o Clube dos Poetas Mortos milhares de vezes e até o Pulp Fiction, que deixamos sempre a meio, está sempre nos nossos eleitos. Somos um só. A música que tu ouves não vale nada e é barulho. És como aquela miúda que entrou no autocarro no outro dia e que comprou o agente único depois de validar o andante. Não sei porque fazes as coisas que fazes mas é assim mesmo que eu te conheço desde sempre.
      Ontem cruzei-me com uma moça que era linda de morrer. Imaginei-me a seduzi-la, a convidá-la a sair, quiçá até a ir beber um café à Baixa, a deixar um papelito com o meu contacto na mão dela e sair a correr do metro como se fosse cobardolas. Não penses que digo as coisas que digo com o intuito de te provocar ciúmes. É que a ti é sempre fácil convidar-te para um café. E já és linda de morrer.
      O meu diretor de curso deixou-me tantos projetos pendentes e tu és o maior deles todos.
      Soube, por alguém que não me lembro quem, que tu me amavas. Para a próxima diz-mo na cara, se tiveres tomates, ó puta.
      Delicio-me com essa tua forma de seres feminina. Ainda estou para encontrar algo nesta vida que seja tão saboroso como ver uma foto tua toda nua. Não há nudez nem corpo nenhum como o teu; nem há desejo como o meu, também.
      Na semana passada li um livro qualquer durante a aula de Conteúdos Experimentais para qualquer coisa que dizia que as mulheres ferem os homens para qualquer coisa porque gostam de se sentir poderosas porque têm um síndrome de qualquer coisa. E, o mais curioso, é que não faço a mínima ideia de quem o escreveu, mas achei-o um gajo inteligente.
      Ouço barulho, toda esta confusão em mim, por todo o lado. Ouço o barulho de não estares cá para me silenciar e talvez este barulho nem seja da cidade, mas seja meu. A cidade até que é bem comportada. Ela ainda chora pela tua ida e eu já regressei ao motel a ver se te via. Há tanto, tanto, alarde na cidade e eu não faço a mínima de onde tu estás. Não fazes parte de nada disto, mas fazes parte de tudo em mim.
      E este papelito, deixo-te na mão.


      P.S. Moça, és linda de morrer.

«jd»

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