quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Carta

     Cheio de amor: eis-me, minha doce companheira. Amor na banheira, amor pela brincadeira, amor pela tragédia, pelo azedo, cedo, pelo desconhecido, já não mais amigo. Amor pela guitarra, pelos noticiários, pelos boticários - esses mercenários solitários da vanguarda inexistente - e pela gente que nos mente e atraiçoa.
     Fosse o mundo perfeito, meu amor, fosse o mundo belo, para que as nossas crianças nele se pudessem passear, adorar o ar, adorar a terra, adorar o espírito verde da cidade que berra de saudade. Mas há morte, desencanto, vermelho cerrado de um sol perante o qual todos os dias me apresento e agiganto, e não creio que a terra onde outrora nasci seja doravante a terra onde se possa morrer. Retalia-se qualquer ato promíscuo: assim de certeza que a vida não nasce de novo. Alguém ajude os homens a perceberem-se melhor.
     Haja suor, carinho feito de suor, costas feitas escravas pelo tempo que nos demoramos a conhecer. Mas finalmente aportaste na minha vida, minha vida, e agora o tabaco já sabe pior do que antigamente me satisfazia. Porque sermos nós é nunca nos sujeitarmos a estar sós. E nus, desnudos de quem não sente, acabamos por pintar os sexos de uma forma completamente diferente.
     Um dia destes o vento soprará e Norte para trás ficará; para onde vou senão para ti?
     O que é a poesia que te escrevo senão a posição dos nossos corpos que jazem na cama? Eu sou-te insubstituível e tu também me és, mas eu respeito muito mais a minha solidão que tu a tua. E um dia vamos acabar ambos sozinhos. Mas hoje não é o dia, nem este é o homem; esta não é a crença, este não é o poema supremo que te escrevo; são só palavras, são sempre ou quase sempre só palavras que empunho e empenho sem salto, sem violência, sem mato, sem sequência, sem ato, sem transparência, somente verbos, somente verbos, somente sementes.
     Entendes, meu amor? Fosse o mundo perfeito, fosse este nosso mundo belo, para que as nossas crianças nele se pudessem passear, adorar o ar, adorar a terra, adorar o espírito verde da cidade que berra de saudade.
     E vissem o pai a berrar de saudades não pela cidade, mas pela amizade dos padrinhos e madrinhas que naquele serão tardio poderiam trazer valias e ensinamentos que doutro modo as crianças jamais terão.
     Cheio de amor: eis-me, minha doce companheira. E jamais confessarei a saudade que tenho dos amores que perdi e dos amigos balizáveis, pois somente as boas memórias me permanecem intocáveis.

«jd»

1 comentário:

  1. Gostei bastante.
    Também tenho uma carta a escrever. Obrigado pela inspiração, creio que também a publicarei, dado que nas minhas publicações sou sempre o mais honesto que consigo ser. Assim ao menos sei que a conseguirei escrever.

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